Irão diz que cientista nuclear foi assassinado remotamente por Israel

IAEA Imagebank / Flickr

O dirigente do programa nuclear no Irão, Ali Akbar Saléhi

O Irão despediu-se hoje, com um funeral digno dos maiores “mártires” do país, do cientista Mohsen Fakhrizadeh, que segundo um responsável iraniano foi assassinado remotamente por Israel com recurso a “aparelhos eletrónicos”.

Mohsen Fakhrizadeh, que segundo o Ocidente e Israel liderou o antigo programa secreto do Irão para desenvolver armas nucleares, foi morto na sexta-feira numa emboscada perto de Teerão e os iranianos responsabilizaram Israel pelo assassínio.

O funeral começou hoje no Ministério da Defesa, em Teerão, e foi transmitido pela televisão pública.

Um público limitado, constituído principalmente por militares, assistiu à cerimónia em cadeiras alinhadas ao ar livre, de forma a respeitar os protocolos sanitários em vigor contra o novo coronavírus.

“Se os nossos inimigos não tivessem cometido este crime desprezível e derramado o sangue de nosso querido mártir, ele poderia ter permanecido desconhecido”, disse o ministro da Defesa, general Amir Hatami, incapaz de conter as lágrimas.

“Mas hoje, aquele que até então era apenas um ídolo dos seus alunos e colegas, revela-se para todo o mundo” e é uma “primeira derrota” para “os inimigos”, acrescentou Hatami.

Os seus restos mortais estiveram em câmara ardente, no sábado e no domingo, em dois dos principais locais sagrados xiitas do Irão (Mashhad e Qom), antes da homenagem que decorreu no mausoléu do imã Khomeini em Teerão, assim como ocorreu com o funeral do general iraniano Qassem Soleimani, que foi assassinado no Iraque em janeiro.

Numa declaração à televisão estatal durante o funeral, o secretário do Supremo Conselho de Segurança Nacional, Ali Shamkhani, disse que o assassínio foi cometido por Israel remotamente, com recurso a “aparelhos eletrónicos”.

Israel, há muito acusado de matar cientistas nucleares iranianos, escusou-se até agora a comentar o ataque.

Foi somente após a morte de Fakhrizadeh que o general Hatami revelou que este cientista era um dos seus vice-ministros e chefe da Organização de Investigação e Inovação de Defesa. Hatami ressalvou ainda que Fakhrizadeh fez “um trabalho considerável” na área da “defesa atómica”.

A oração fúnebre foi conduzida por Ziaoddine Aqajanpour, representante do líder supremo iraniano Ali Khamenei no Ministério da Defesa.

Seremos pacientes diante desses desastres, vamos resistir, mas a nossa nação exige numa só voz uma retribuição decisiva” contra os responsáveis pela morte de Mohsen Fakhrizadeh, disse Aqajanpour, em nome do número um do Irão.

Por volta das 11h30 (8 horas em Lisboa), o caixão do cientista foi depositado em Imamzadeh-Saleh, um importante santuário xiita no norte de Teerão, onde estão enterrados dois outros cientistas assassinados em 2010 e 2011.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohamad Javad Zarif, exortou no domingo a comunidade internacional a condenar o assassínio de Mohsen Fakhrizadeh, considerando “vergonhoso” que se tenham limitado a fazer pedidos de calma.

No sábado, a UE classificou o assassínio de “ato criminoso” e pediu “que todas as partes permaneçam calmas e exerçam o máximo de contenção para evitar uma escalada que não pode interessar a ninguém”.

Na mesma linha, a ONU afirmou que condena “qualquer homicídio ou execução extrajudicial” e pediu “moderação”.

Zarif considerou, contudo, noutra mensagem que o ataque a Fajrizadeh “foi sem dúvida projetado e planeado por um regime terrorista e executado por cúmplices de criminosos”.

“É vergonhoso que alguns se recusem a opor-se ao terrorismo e se escondam atrás de pedidos de moderação”, disse Zarif.

Em Israel, as autoridades recusaram-se a comentar as alegações do Irão, mas alertaram as suas embaixadas, temendo ataques retaliatórios.

O assassínio do polémico cientista só foi fortemente condenado por grupos e países aliados ou próximos ao Irão, como o grupo Hamas, o grupo Hezbollah, a Síria, a Turquia, o Catar e outros. O Irão sempre negou ter um programa secreto para desenvolver a bomba atómica e defende que o seu programa nuclear é civil e pacífico.

ZAP // Lusa

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