Instabilidade, conflito e “à deriva”. Inteligência dos EUA prevê como será o mundo em 2040

A Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos divulgou um estudo sobre como será o mundo em 2040. A análise alerta para uma volatilidade política e uma crescente competição internacional – ou mesmo conflito.

De acordo com a BBC, o relatório “A More Contested World” é uma tentativa de examinar as principais tendências e descreve uma série de cenários possíveis. É o sétimo relatório deste tipo do Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos, que começou a divulgar um a cada quatro anos a partir de 1997.

Esta tentativa aponta para incerteza e instabilidade.

Em primeiro lugar, concentra-se nos fatores-chave que impulsionam a mudança. Um deles é a volatilidade política. “Em muitos países, as pessoas estão pessimistas sobre o futuro e estão cada vez mais desconfiadas dos líderes e instituições que consideram incapazes ou relutantes em lidar com tendências económicas, tecnológicas e demográficas disruptivas”, adverte o relatório.

A análise argumenta que as pessoas estão a gravitar em torno de grupos com ideias semelhantes e a fazer demandas maiores e mais variadas aos governos num momento em que estes estão cada vez mais limitados no que podem fazer.

“Essa incompatibilidade entre as habilidades dos governos e as expetativas do público tende a expandir-se e a levar a mais volatilidade política, incluindo crescente polarização e populismo dentro dos sistemas políticos, ondas de ativismo e movimentos de protesto e, nos casos mais extremos, violência, conflito interno ou mesmo colapso do estado”.

Expecativas não atendidas, alimentadas por redes sociais e tecnologia, podem levar a riscos para a democracia. “Olhando para o futuro, muitas democracias provavelmente serão vulneráveis a mais erosão e até mesmo ao colapso”, adverte o relatório.

O relatório afirma que a atual pandemia é a “perturbação global mais significativa e singular desde a Segunda Guerra Mundial”, que alimentou divisões, acelerou as mudanças existentes e desafiou suposições, inclusive sobre a forma como os governos conseguem lidar com crises.

O último relatório, divulgado em 2017, incluía essa possibilidade, imaginando que “a pandemia global de 2023” reduziria drasticamente as viagens globais para conter a sua propagação.

Os autores reconhecem que não esperavam a covid-19, que dizem ter “abalado suposições antigas sobre resiliência e adaptação e criado novas incertezas sobre a economia, governança, geopolítica e tecnologia”.

As alterações climáticas e as mudanças demográficas também serão impulsionadores principais, assim como a tecnologia, que pode ser prejudicial, mas também capacitar aqueles que a utilizam mais depressa.

Risco de conflito

Internacionalmente, os analistas esperam que a intensidade da competição pela influência global alcance o seu nível mais alto desde a Guerra Fria nas próximas duas décadas.

Organizações não governamentais, incluindo grupos religiosos e as gigantes tecnológicas também podem ter a capacidade de construir redes que competem com – ou até mesmo – contornam os estados.

O risco de conflito pode aumentar, tornando-se mais difícil impedir o uso de novas armas.

O terrorismo jihadista provavelmente continuará ativo, mas há um aviso de que terroristas de extrema direita e esquerda que promovem questões como racismo, ambientalismo e extremismo antigovernamental podem reaparecer na Europa, América Latina e América do Norte.

Os grupos podem usar inteligência artificial para se tornarem mais perigosos ou usar realidade aumentada para criar “campos de treino de terroristas virtuais”.

A competição entre os Estados Unidos e a China está no centro de muitas das diferenças nos cenários – se um deles se torna mais bem-sucedido, se os dois competem igualmente ou dividem o mundo em silos separados.

Democracias mais fortes ou “o mundo à deriva”?

Existem alguns cenários otimistas para 2040: o “o renascimento das democracias”.

Esta previsão envolve os Estados Unidos e os seus aliados a aproveitar a tecnologia e o crescimento económico para lidar com os desafios domésticos e internacionais, enquanto as repressões da China e da Rússia  sufocam a inovação e fortalecem o apelo da democracia.

Porém, nem tudo é positivo. “O cenário do mundo à deriva” imagina as economias de mercado a nunca conseguir recuperar da pandemia, tornando-se internamente profundamente divididas e vivendo num sistema internacional “sem direção, caótico e volátil”, já que as regras e instituições internacionais são ignoradas por países, empresas e outros grupos.

Já o cenário “tragédia e mobilização” imagina um mundo no meio de uma catástrofe global no início de 2030, graças às mudanças climáticas, fome e agitação. Contudo, isso leva a uma nova coligação global, impulsionada em parte por movimentos sociais, para resolver os problemas.

Maria Campos Maria Campos, ZAP //

PARTILHAR

1 COMENTÁRIO

  1. Bem adaptado e bem exposto, cara Maria Campos. Sim, de facto todos estes cenários são possíveis ainda que uns possam ser mais prováveis que outros. Espero que as democracias se fortaleçam e desenvolvam melhores mecanismos anti-corrupção para devolver confiança entre governantes e governados.

RESPONDER

Morreu Bo, o cão de água português de Barack Obama

Bo, o cão de água português que o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, adotou em 2009 morreu este domingo com 13 anos, em consequência de um cancro, anunciou o político nas redes sociais. O cão …

Futuro pós-vacinação entre reforço de dose, controlo de variantes e medicamentos

A incerteza sobre a duração da imunidade das vacinas contra a covid-19 deixa o futuro do combate à doença entre o reforço da vacinação, a monitorização de novas variantes e o desenvolvimento de terapêuticas alternativas, …

Presidente da República promulga Carta de Direitos Humanos na Era Digital

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou este sábado a Carta de Direitos Humanos na Era Digital, aprovada em abril na Assembleia da República, segundo uma nota divulgada no site da Presidência. A lei, …

Depois de 17 anos no subsolo, biliões de cigarras vão emergir nos Estados Unidos

Biliões de cigarras vão emergir nos Estados Unidos. O aviso é de um grupo de cientistas que alerta que, dentro de alguns dias ou semanas, as cigarras da Ninhada X vão surgir depois de 17 …

Foguetão chinês regressou à Terra (e a maior parte desintegrou-se)

Um importante segmento do foguetão chinês desintegrou-se este domingo ao reentrar na atmosfera terrestre e caiu no oceano Índico, perto das Maldivas, anunciou a agência espacial da China. "De acordo com o percurso e análise, pelas …

"Se eu encaixar, eu sento-me." Os gatos adoram caixas ilusórias

Qualquer amante de gatos sabe que estes animais têm uma predileção inata por se sentarem em espaços fechados, mesmo que o espaço seja apenas um contorno bidimensional de um quadrado no chão.  Os cientistas analisaram esta …

Jet pack da Marinha britânica. Fuzileiros navais testam macacão Gravity em exercício de embarque

Quem melhor do que as organizações militares para testar e usufruir dos jet packs? A Marinha Real Britânica e os Fuzileiros Navais reais testaram um macacão a jato, desenvolvido pela empresa Gravity Industries. Esta semana, a …

Marés de Júpiter podem ajudar a perceber a história do Sistema Solar

Uma equipa de investigadores detetou uma pequena perturbação gravitacional em Júpiter. A descoberta pode ajudar a investigar o interior do planeta e perceber melhor a história do Sistema Solar. "Se você tentasse mergulhar em Júpiter, nunca …

Em 1925, "O Isolador" prometia bloquear qualquer tipo de distração

Procrastinar foi, é e sempre será um passatempo irresistível. Por isso, nos anos 20, houve quem apresentasse uma solução radical para evitar este problema: "O Isolador". De acordo com o site IFLScience, o chamado "Isolador" foi …

Seca no México revela uma igreja submersa há 40 anos

Uma igreja no estado de Guanajuato, no México, sobrevive entre a água e os peixes, como única testemunha de um povoado inundado por uma barragem há mais de 40 anos. Agora, devido à seca que …