As influencers são a “arma” secreta dos regimes repressivos do Médio Oriente

Desde a Arábia Saudita até à Síria devastada pela guerra, os regimes repressivos em todo o Médio Oriente estão cada vez mais a pagar a influencers das redes sociais para reformular a sua imagem.

Os regimes repressivos do Médio Oriente estão a pagar a influencers das redes sociais e vloggers para que estes destaquem locais históricos, homens e mulheres atraentes e uma vida noturna ativa, de forma a “esconder” o lado mais sombrio da vida nesses países.

De acordo com o OZY, durante o festival de música de três dias MDL Beast, que aconteceu em dezembro na Arábia Saudita, influencers e celebridades publicaram dezenas de fotografias no Instagram e Twitter. Entre eles estavam a modelo Alessandra Ambrosio e os atores Armie Hammer, Ryan Phillippe e Ed Westwick.

O governo saudita patrocinou os convidados para mostrar “a revolução cultural” que afirma estar a ocorrer no país ainda ultraconservador.

As fotografias geraram indignação em grupos de direitos humanos que acusaram as celebridades de encobrir o histórico de abusos brutais dos direitos humanos da Arábia Saudita em troca de um salário estimado em seis dígitos.

No entanto, os visitantes em Riade faziam parte de um padrão, conta o OZY.

Desde junho de 2019, os Emirados Árabes Unidos exigem que todos os residentes que lucram financeiramente com a publicação de conteúdo promocional nas redes sociais obtenham uma licença anual de influencer de 4.000 dólares. O mecanismo permite controlar os influencers, que ganham até 5.000 dólares por publicações patrocinadas por marcas. Um mês depois, o país tinha 1.700 influencers registados.

Os turistas que participam em campanhas patrocinadas pelo estado não precisam de licença, embora sejam fortemente encorajados a incluir a hashtag #MyDubai ao publicar fotografias ou vídeos. Em troca, os Emirados Árabes Unidos premiam os que postam o conteúdo mais lisonjeiro permitindo que família ou amigos se juntem a eles.

Por sua vez, a Síria afirma ter recebido 1,5 milhões de turistas estrangeiros no ano passado apesar da guerra. Embora a maioria dos especialistas considere o número exagerado, notou-se um aumento no número de vloggers de viagens que visitaram a Síria nos últimos meses.

A maioria visita apenas a capital, Damasco, onde os combates já cessaram há muito tempo, mas quase todos afirmam que a Síria é mais liberal e segura do que dizem os media convencionais. Não se sabe como a Síria compensa estes vloggers, mas o motivo e o resultado são mais fáceis de avaliar num momento em que o acesso ao país é restrito para aqueles que criticam o regime.

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman, também está a tentar reformular a imagem do país. O líder organizou festas mistas, abriu cinemas e permitiu que as mulheres conduzissem como parte de uma campanha para atrair investidores e diversificar a economia.

Desde o ano passado, Riade trabalhou com várias firmas de relações públicas, incluindo Influencer e Consulum, para levar influencers em viagens promocionais pagas para destinos turísticos do reino, desde as dunas do deserto à costa do Mar Vermelho.

O outro lado obscuro do Médio Oriente

As influencers ajudam regimes brutalmente repressivos a reformular a sua narrativa para lucrar com o turismo e os investimentos, ao mesmo tempo que contornam a pressão para fazer reformas fundamentais de direitos humanos. “Estes vloggers estão a ajudar a imagem do regime”, disse Thomas Pierret, especialista na Síria e investigador sénior do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, ao OZY.

Um dia após o festival de Riade, a Arábia Saudita condenou cinco homens à morte pelo assassinato do colunista e crítico saudita Jamal Khashoggi do The Washington Post. Grupos de direitos humanos acreditam que agentes de baixo escalão assumiram a responsabilidade para proteger o príncipe saudita Mohammed bin Salman da culpa.

Poucas pessoas ouvem falar dos defensores dos direitos humanos presos nos Emirados Árabes Unidos ou do seu sofisticado programa de vigilância cibernética desenvolvido com a ajuda de ex-espiões da Agência de Segurança Nacional. “Tem um histórico terrível de direitos humanos e quase ninguém sabe disso”, disse Adam Coogle, vice-diretor da Human Rights Watch.

Na Síria, as pessoas não podem contar aos visitantes sobre a repressão que enfrentam sem correr o risco de represálias. “Não temos um zoológico na Síria para os vloggers se divertirem. Temos pessoas a morrer e milhares desaparecidas”, disse Ali Cheikh Haidar, um refugiado sírio e ativista que vive em França.

Ao contrário dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita, a Síria não beneficiará com o turismo enquanto ainda estiver em guerra.

ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Estes influencers só existem porque a malta tem de andar dentro da moda, se quer ser popular e afins. E assim deixam de usar o cérebro para seguir o que esta gente que não faz mais nada da vida diz, sem se aperceberem se está certo ou errado. Agora venham daí os insultos ao meu comentário

    • Não é possível fazer insultos a um comentário correcto. Por cá os efeitos dos “influenecers” também se fazem sentir e de que maneira. Só que é mais fácil ser “seguidista” do que pensante (de que terão servido os pensadores da cultura ocidental, desde Aristóteles a Descartes e até a Russell?)

  2. Há que aproveitar enquanto houver petróleo, quando este terminar então talvez assentem bem os pés na terra e verão como a vida será dura lá por esses lados.

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