O PAN veio “para ficar” e Inês Sousa Real quer “ser Governo”

Paulo Cunha / Lusa

A nova porta-voz do PAN, Inês Sousa Real

A nova porta-voz do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), eleita este domingo, assumiu como objetivo concorrer às legislativas de 2023 “para ser Governo”, advertindo que o PAN veio “para ficar”.

“Nas eleições à Região Autónoma da Madeira, vamos ter daqui a dois anos o desafio e esperamos juntar ao agora deputado eleito nos Açores um deputado pela região autónoma na Assembleia da Madeira. E claro está, daqui a dois anos, às eleições legislativas, às quais nos apresentamos evidentemente para ser Governo“, disse Inês Sousa Real, no discurso de encerramento do VIII Congresso.

“Aqui chegados, não posso deixar de dar uma palavra de apoio e apreço ao trabalho que os nossos autarcas de norte a sul e ilhas têm. Vamos apresentar-nos de facto daqui a uns meses a este ato eleitoral com a forte convicção de que vamos reforçar não só a nossa presença, como aumentar a nossa representatividade, e que caso evidentemente os eleitores assim o desejem, estaremos prontos para mais e melhores desafios e responsabilidades”, disse.

A nova porta-voz do PAN acrescentou estar certa de que o seu partido chegará forte, “com toda esta energia e confiança agora renovadas, das autarquias ao poder central”, apontando que o partido é “presente” e “futuro”.

Na sua intervenção, Inês Sousa Real posicionou ainda o PAN como o “único partido animalista e ambientalista em Portugal”.

Defendendo que “é preciso repensar e realocar os recursos financeiros e investi-los nas áreas verdadeiramente estratégicas”, a porta-voz sublinhou que o PAN veio “para ficar” e para contribuir para “a mudança” e “está cá para fazer esta diferença”.

Apesar de antecipar que o mandato de dois anos será “desafiante”, Sousa Real frisou que “não há desafios nem ameaças que parem o PAN”.

No seu discurso após a eleição como líder, Inês Sousa Real afirmou que “o PAN cresceu” e é hoje “o único partido capaz de responder ao desafio climático”.

“Somos um partido forte, unido e diferente dos partidos convencionais que se limitam a olhar, sem verdadeiramente ver, para o ambiente e para as restantes formas de vida como meros apêndices nas suas políticas e agendas eleitorais”, salientou.

Na intervenção, que mereceu as palmas dos delegados em diversos momentos, a também líder parlamentar aproveitou ainda para responder a “algumas vozes” que se inquietam por o partido não se assumir “de esquerda nem de direita”, salientando que “é precisamente” por não pertencer a “esta ultrapassada e redutora dicotomia” que tem “feito a diferença na política em Portugal”.

A nova porta-voz criticou ainda a esquerda que, apesar “de apregoar ao vento preocupações ambientais, continua a viabilizar projetos como o aeroporto do Montijo, a diabolizar a propriedade privada, esquecendo-se que os senhorios também são parte fundamental para resolver os problemas de habitação”.

E à direita, lamentou Sousa Real, é defendida “uma economia voraz que destrói o mundo rural e natural, esquecendo-se que sem ele não há condições para a vida humana na terra nem para a alimentação”.

“A tradicional dança entre a esquerda e a direita não serve como resposta aos problemas do presente nem às soluções do futuro”, defendeu Sousa Real, que agora sucede a André Silva, que era porta-voz desde 2014.

A nova líder do PAN dirigiu-se ainda ao Governo de António Costa, afirmando que o partido vai exigir “mais” nas negociações do Orçamento do Estado para 2022.

“E esta aqui é a nossa mensagem clara para o Governo de António Costa: queremos mais, exigimos mais do Governo”, afirmou.

Inês Sousa Real elencou que é necessário “proteger os oceanos, as florestas, os animais, reduzir o número de pessoas em risco e em situação de pobreza, o número de pessoas sem acesso à saúde e ao trabalho, reaproximar o ordenado mínimo da média europeia e trabalhar para um melhor nivelamento do salário médio”.

A porta-voz pediu também “mais e melhores investimentos na saúde, nos profissionais da educação, das forças de segurança, dos vigilantes da natureza e tantos outros profissionais-chave”, defendeu que o Plano de Recuperação e Resiliência deve ser investido para “potenciar o empreendedorismo e a economia verde” e considerou ainda “fundamental uma aposta no sistema judicial e o combate à corrupção”.

“E fica o alerta, o Governo tem de acompanhar estas reivindicações se queremos ter um país verdadeiramente justo e verdadeiramente sustentável”, frisou, defendendo que, “acima de tudo, o próximo Orçamento do Estado tem de colocar também a tónica” naquele que considerou ser “o desafio” da sociedade, que é “o combate contra a emergência climática”.

“Se um Estado se define também pelo seu Orçamento, então o Orçamento do Estado deve ser sim, e sempre, um Orçamento ambientalista, um orçamento animalista, que também seja promotor de um maior respeito por todas as formas de vida”, frisou Inês Sousa Real, sustentando que “o combate às alterações climáticas pode e deve ser o veículo da transição para um modelo de desenvolvimento económico mais justo e sustentável do ponto de vista social e ambiental”.

Governo encontrou “pontos de convergência”

Após o encerramento do Congresso, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro, que assistiu ao discurso da nova líder, disse encarar “com naturalidade” a afirmação de que o PAN quer e exige mais ao Governo, sublinhando estar habituado, nas negociações com os partidos, a que estes tenham “ambição” e desejem “mais avanços”.

Encaramos com toda a naturalidade e perspetivamos manter a mesma linha de capacidade de valorização das convergências, daquilo que são objetivos comuns, na perspetiva de uma relação exigente, que sempre foi a relação que o PAN teve com o Governo”, declarou.

O governante sublinhou que a exigência do PAN se traduz em medidas, algumas das quais “até geram naturais controvérsias do ponto de vista da discussão”, e sublinhou que o Governo tem dado nota “do conjunto de matérias que, nesta fase, já estão executadas”, assegurando que vai continuar a executar outras.

“É do nosso interesse demonstrar aos partidos com quem nós negociamos o Orçamento do Estado que temos a capacidade de executar essas medidas e também mostrar abertura para, naquilo que forem matérias de convergência”, traduzi-las em medidas concretas, disse, reafirmando ter ouvido no discurso da nova líder do PAN muitas matérias que se inserem na vontade de “resolver problemas estruturais, mas com perspetivas claras, entre elas a ambiental. E esse objetivo o Governo partilha”.

Sobre a declaração da vontade do PAN ser Governo, Duarte Cordeiro considerou ser natural que os partidos ambicionem, quando vão a eleições, ter “a máxima representatividade possível e serem responsáveis por aquilo que é a aplicação das suas medidas”.

“Acho que isso é uma declaração que diz respeito à ambição do PAN para o futuro”, disse, sublinhando que não se pode “confundir com a vontade que o Governo tem de levar esta legislatura até ao fim, manter as convergências e manter espírito aberto”.

Afirmando que o Governo está “muito concentrado na recuperação da pandemia, na retoma económica e em sair da crise mais forte”, o secretário de Estado sublinhou que o Executivo quer que “haja estabilidade” para prosseguir esse caminho.

O VIII Congresso do PAN esteve reunido, este fim-de-semana, no Hotel dos Templários, em Tomar, tendo os trabalhos sido pela primeira vez abertos inteiramente à comunicação social.

A lista única à Comissão Política Nacional (órgão máximo de direção política entre congressos), que é encabeçada por Inês Sousa Real, foi eleita com 109 votos a favor, 14 brancos e dois nulos.

ZAP // Lusa

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5 COMENTÁRIOS

  1. O PAN é o único partido da esquerda autêntica, civilizada e coerente, que se apoia em valores e não em slogans. Quem em Portugal for realmente de esquerda é no PAN que deve votar. Os outros partidos ditos de esquerda ou não são (PS) ou confundem valores com folclore (BE e PCP). E quem achar que o PAN só se preocupa com os cãezinhos e com os gatinhos, está muito enganado…

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