Hospitais públicos estão a alugar equipamento em falta a empresas privadas

Mário Cruz / Lusa

Há muitos equipamentos em falta nos hospitais. Luz nos blocos operatórios, atualizações nos monitores de sinais de vida e aparelhos para fazer TAC são alguns dos exemplos. 

A denúncia chega do bastonário dos Médicos, o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem e o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares ao Diário de Notícias. Segundo os médicos, chega a ser necessário alugar equipamentos ao privado para fazerem as vezes dos que estão parados no Serviço Nacional da Saúde (SNS).

Em dezembro do ano passado, a ministra da Saúde, Marta Temido, afirmava que a equipa ministerial anterior fez um levantamento do investimento em falta no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e que este apontava para a necessidade de mil milhões de euros nos próximos três anos, sendo prioritários 500 milhões de euros.

Nesta quinta-feira o Conselho de Ministros aprovou o Programa de Investimentos na Área da Saúde com uma verba de cerca de 91 milhões de euros para melhorar infraestruturas e equipamentos de dez hospitais do SNS até 2021. “91 milhões de euros são cerca de 10% do que seria necessário para a substituição do equipamento e nem estamos a falar de adquirir novo”, refere Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares.

“De 2009 a 2017, o investimento no SNS foi diminuindo ao longo do tempo. O que, num setor que é altamente tecnológico, põe em causa a qualidade prestada pelo SNS. De uma forma genérica, até podemos dizer que a melhor tecnologia estava no SNS e que isso hoje em dia não é assim tão linear. Existe alguma tecnologia boa, mas toda ela está em risco de obsolescência, porque a atualização não é feita”, diz Alexandre Lourenço.

“Os equipamentos que nós utilizamos, normalmente, têm um plano de amortização de dez anos”, explica Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos. Mas, segundo os relatos dos especialistas, os aparelhos médicos são usados bem para lá deste tempo – até à exaustão. Muitas vezes não são substituídos por novos mesmo depois de avariados, obrigando o SNS a subalugar equipamentos ao privado.

“Os equipamentos estão velhos, desatualizados e já não há manutenção possível. Muitas vezes já nem respeitam as normas de segurança – que agora são mais apertadas do que antigamente”, conta Carlos Cortes, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos. “Neste momento, os hospitais portugueses estão a viver no século passado, no final dos anos 1990”.

A falta de equipamento é transversal a todos os departamentos e “em todos os hospitais; não há nenhum que não sofra com isto”, segundo o bastonário. Embora os aparelhos nas áreas da imagiologia e gastrologia sejam os mais preocupantes, tal como a falta de atualização tecnológica nos serviços de urgência.

Mas há também aspetos aparentemente mais simples que na verdade são fundamentais, como a ausência de iluminação adequada nos blocos operatórios ou a atualização dos monitores de sinais de vida.

“Isto naturalmente leva a uma frustração muito grande dos profissionais, que encontram um dinamismo diferente dentro do setor privado, para onde acabam por ir muitas vezes. Na área da imagiologia isto é muito claro, mas também na neurologia ou na cardiologia”.

Para contornar esta situação, Alexandre Lourenço propõe a Portugal uma nova abordagem de investimento. “Já há parcerias com os próprios fornecedores que nos permitiam fazer um investimento diluído ao longo do tempo, fazendo contratos que obriguem o próprio fornecedor a fazer atualizações no equipamento durante o tempo do contrato.”

Obras nos hospitais

“Os hospitais estão a rebentar pelas costuras e não há condições para a prática dos cuidados de saúde de forma adequada.”

Os doentes esperam em pé ou sentados no chão, porque “há uma grande falta de espaço e em qualquer recanto se constrói logo, com pladur, um gabinete”. A falta de investimento estende-se também aos edifícios a precisar de restruturação ou em casos flagrantes de novo espaço.

“O parque hospitalar português está francamente deteriorado com áreas debilitadas, como acontece no caso do Centro Hospitalar de Lisboa Central, do Hospital de Gaia ou do da Póvoa do Varzim, onde as estruturas já não conseguem dar resposta”, nomeia Alexandre Lourenço. “E é preciso também entender que o próprio modelo de hospitais que temos hoje porventura já não é o hospital do futuro, por causa das alterações demográficas que obrigarão a uma reformulação da arquitetura hospitalar.”

Miguel Guimarães lembra outros exemplos, como o do Hospital de Faro, no Algarve, o do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, “que é provavelmente o caso mais gritante”, o do Hospital de Aveiro, ou até a “joia da coroa”, o Hospital de São José em Lisboa.

ZAP //

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