“Homicida negligente”. Bolsonaro criticado devido a programa de vacinação

Joédson Alves / EPA

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, está a ser fortemente criticado e classificado como “homicida negligente” devido ao fracasso na preparação de um programa de vacinação contra o coronavírus, enquanto o número de mortes aumenta novamente no país.

Mais de 181 mil brasileiros morreram por causa da doença, com a maior economia da América Latina mergulhada numa segunda vaga. O Governo de Bolsonaro tem sido lento nos planos para vacinar os 212 milhões de cidadãos, apostando na vacina da Universidade Oxford e da farmacêutica AstraZeneca, noticiou no domingo o Guardian.

O Brasil ainda não assinou um contrato com a Pfizer e evitou a vacina experimental chinesa CoronaVac, defendida pelo governador de São Paulo, João Doria, provável adversário do Presidente nas próximas eleições. Observadores acreditam que a hostilidade de Bolsonaro à vacina visa impedir o aumento da popularidade de Doria.

Os especialistas temem que a estratégia possa causar milhares de mortes desnecessárias ao adiar a vacinação. “Mostra, mais uma vez, o quão desconetado o governo federal está da realidade da pandemia. Eles ainda não perceberam a gravidade do que estamos a passar”, disse Natália Pasternak, fundadora do Question of Science Institute.

Para Pasternak, é aceitável que o Governo brasileiro acredite na vacina da AstraZeneca, mas “o problema é apostar apenas nessa e não fechar outros contratos, sabendo que” esse “não será suficiente para vacinar toda a população”. “O Brasil colocou todos os seus ovos na mesma cesta”, disse, indicando que a decisão em recusar a CoronaVac é “absurda”.

O Ministério da Saúde brasileiro publicou um plano de vacinação, que dezenas de consultores alegaram não ter aprovado, no qual foi determinado um período de cinco meses para vacinar 51 milhões de prioritários, entre esses profissionais de saúde e idosos, mas sem avançar uma data para um programa mais amplo.

Num editorial de primeira página, o Folha de São Paulo criticou a “negligência homicida” de Bolsonaro, alegando que os brasileiros foram “abandonados pelo governo” e condenados a “assistir em angústia” o início da vacinação noutros lugares.

“A estupidez assassina de Bolsonaro sobre a pandemia de coronavírus passou todos os limites. É hora de ele abandonar essa imprudência criminosa e pelo menos fingir ter a capacidade e maturidade para liderar uma nação de 212 milhões, num momento tão dramático da sua história coletiva. Chega de tolice com a vacina!”, declarou.

Já o Estado de São Paulo apontou a “incompetência letal” de Bolsonaro, ao escrever: “Não sabemos quantas vacinas o governo federal terá, nem quando. Há sinais de que haverá falta de vacinas. E o ministério [da Saúde] resiste em negociar opções viáveis, como a CoronaVac… por motivos claramente políticos”.

“Não há um único aspeto no tratamento desta crise que não tenha sido contaminado pelo obscurantismo, negligência, incompetência ou desonestidade do Presidente ou do seu fantoche no Ministério da Saúde”, acrescentou a publicação.

As críticas seguiram-se às palavras do presidente da Sociedade Médica e Cirúrgica do Rio de Janeiro, depois que um dos seus membros morreu de covid-19. Numa homenagem pública, criticou a resposta “simplesmente homicida” ao coronavírus e a “miopia, desumanidade, negligência e irresponsabilidade criminosa” dos líderes brasileiros.

No sábado, um dos maiores observadores políticos do Brasil, Elio Gaspari, disse que o coronavírus era “o Chernobyl de Bolsonaro”, comparando a sua negação em relação à covid-19 aos esforços soviéticos para ocultar o desastre de 1986. Outro, Jânio de Freitas, referiu que a “confusão” em torno da vacina é motivo para ‘impeachment’.

Daniel Dourado, especialista em Saúde Pública e advogado, concordou que a reação “desastrosa” de Bolsonaro justifica o ‘impeachment’ imediato. “É um ultraje após o outro. Dilma Rousseff foi removida por muito menos”, sublinhou.

“No início da pandemia, pensei que assim que muitas pessoas começassem a morrer”, Bolsonaro “estaria morto. Mas 180 mil morreram e ele ainda está lá”, disse Dourado. “Estamos a falar sobre ‘impeachment’ – mas o Congresso não”, concluiu.

  ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Mais uma vez o ZAP ouvindo jornais de esquerda. Na última pesquisa (08/12) Bolsonaro nunca esteve tão bem aprovado quanto agora, 50% dos brasileiros não culpam o governo federal pelas mortes do covid.
    Trás a urna para votarmos nele novamente.
    Beijo no coração população.

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