Hashtags políticas como #MeToo tornam as pessoas menos propensas a acreditar em notícias

Tendem a passarem despercebidas, mas as hashtags são mais importantes do que julgamos. A questão que se impõe é: serão benéficas para a saúde democrática da Internet?

Uma hashtag (#) é uma marca funcional, amplamente usada em mecanismos de pesquisa e em serviços de redes sociais que permite que as pessoas pesquisem determinado conteúdo que se enquadre numa palavra ou frase.

A sua rampa de lançamento foi no Twitter, em 2009, mas desde aí, prosperou. Ativistas, políticos e até meios de comunicação usam hashtags políticas como meio de aumentar o número de leitores e contextualizar os seus artigos em publicações curtas e de fácil leitura nas redes sociais.

Segundo a Columbia Journalism Review, esta prática é uma “boa forma de introduzir uma história ou perspetiva no ciclo principal de notícias” e “uma maneira de descobrir o que o público quer discutir e aprender”. Mas será mesmo verdade?

Eugenia Ha Rim Rho, especialista em Ciências da Informação e da Computação na Universidade da Califórnia, decidiu responder a esta pergunta. Para isso, realizou uma experiência online controlada, com 1.979 participantes.

A especialista testou se as pessoas reagiam de forma diferente à presença ou ausência de hashtags políticas, sendo que as mais usadas foram #MeToo e #BlackLivesMatter, em artigos publicados no Facebook pelo The New York Times e NPR.

Os investigadores mostraram aleatoriamente a cada participante uma publicação que continha ou prescindia de uma determinada hashtag política e pediram que comentassem o artigo e respondessem a determinadas perguntas sobre a notícia.

(dr) Eugenia Ha Rim Rho

Surpreendentemente, os investigadores descobriram que as hashtags políticas não são uma boa tática de os meios de comunicação atraírem a atenção dos leitores. Quando a notícia era acompanhada de uma hashtag, os participantes interpretavam aquela publicação como “menos importante“. Além disso, ficavam menos motivados a saber mais sobre o assunto em causa, conta Ha Rim Rho num artigo no The Conversation.

Alguns participantes encaravam as notícias com hashtags como mais tendenciosas a nível político, especialmente os mais conservadores. No entanto, as hashtags também influenciaram negativamente os liberais.

Mas o público que mais interessou a Eugenia Ha Rim Rho foram os politicamente moderados: quando questionado, este grupo mostrou-se mais desconfiado em relação à credibilidade da notícia quando esta surgia acompanhada de uma hashtag numa rede social.

Segundo a investigadora, quando um artigo é divulgado com uma hashtag, as pessoas tendem a envolverem-se em questões sociais relevantes, mas mencionam repetidamente a hashtag em causa. Por outro lado, quando não existem, é mais provável que os leitores discutam as ideias e os valores centrais que a própria hashtag deveria representar.

Além disso, a experiência permitiu concluir que, quando uma hashtag é usada, os comentários dos leitores tendem a ser mais emocionalmente extremados.

Eugenia Ha Rim Rho defende que “se queremos construir discussões online saudáveis, precisamos de questionar de que forma estas práticas influenciam a saúde democrática da Internet”.

Ainda que o uso de uma hashtag possa chamar rapidamente a atenção do público para questões sociais prementes, essa tática pode também ser prejudicial à discussão online sobre tópicos sociais urgentes.

LM, ZAP //

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