Há uma cidade na Venezuela que é “invisível”

Guanta está lá, embora não seja fácil vê-la. Vistas a partir de El Morro, do outro lado da baía, as suas luzes piscam sob uma nuvem baixa.

É uma nuvem diferente das outras, mais espessa, mais pesada. Se for seguida com os olhos, é possível identificar a fonte que a emite, a fábrica de cimento Pertigalete, localizada a poucos quilómetros de Guanta e na área do Parque Nacional de Mochima, um dos paraísos naturais na costa da Venezuela.

Embora possa surpreender estrangeiros, os cerca de 45 mil habitantes de Guanta estão habituados a viver no ambiente saturado com resíduos de calcário e xisto que a central estatal usa para produzir cimento.

Como a maioria dos seus vizinhos, Gerardo Serra, de 77 anos, varre a casa diariamente, por dentro e por fora. “Aqui temos de estar sempre a limpar. Há dias em que a poeira cobre completamente a colina”, disse, com a vassoura na mão, à BBC. “Estamos todos preocupados em viver com este problema; é uma reclamação de todas as pessoas, mas…”

Em Guanta, a poeira permeia tudo, especialmente na época do ano em que chove menos. Árvores, cabines telefónicas, carros… Nada fica livre das partículas.

Outro vizinho mostra as telhas no pátio de sua casa, afetadas por crostas de um material quase branco. Diz que quando chove, os materiais que emanam de Pertigalete também caem com a água. Se não conseguir limpá-los antes de o solo secar, os restos solidificam-se e permanecem ali para sempre.

Foi o que aconteceu com o carro que fica na sua garagem, coberto com sujidade que já não sai. Muitos na região cobrem os seus veículos com capas de plástico para evitar que lhe aconteça o mesmo.

Mas há coisas que não podem ser cobertas – como os pulmões das pessoas. No Centro de Diagnóstico Geral de El Chorrerón, o médico encarregado do serviço atende, acima de tudo, pacientes afetados por problemas respiratórios. “Infecções respiratórias, bronquiolite e pneumonia são as doenças mais frequentes aqui”, disse. “Esta semana tivemos entre 30 e 40 casos. Aqueles que mais sofrem são bebés e pacientes asmáticos.”

Este é um dos centros de saúde na Venezuela onde médicos cubanos trabalham e pacientes esperam atendimento ao lado de retratos de Hugo Chávez, Nicolás Maduro e Fidel Castro. “Quase não temos antibióticos”, dise o médico, antes de mostrar os nebulizadores, para os quais muitas vezes não há recargas.

Problemas respiratórios têm sido uma constante nos oito anos em que trabalha lá. “Como a poluição é a origem do problema, nunca pudemos oferecer uma solução definitiva, mas antes, pelo menos, podíamos tratar as pessoas; agora, não dá”, lamenta.

O médico não é o único que percebeu os efeitos que aparentemente a poluição da fábrica de Pertigalete tem sobre a saúde das pessoas. “Quando morei em Guanta, acordava todas as manhãs com uma reação alérgica”, lembra Manuel Fernández, um dos conselheiros que colaboraram na preparação de um relatório com o qual o deputado da oposição Armando Armas, do Estado de Anzoátegui, denunciou a ação.

O relatório descobriu que, devido à poeira, de cada dez crianças tratadas no ambulatório de David Zambrano, o principal centro de saúde da cidade, seis estavam lá por problemas respiratórios ou de pele. Problemas respiratórios também foram uma das causas mais frequentes de adultos consultarem um médico.

À BBC, nem as autoridades nem os responsáveis ​​pela central responderam sobre o problema da poluição. Nem o seu dono, a estatal Venezolana de Cementos (Vencemos), nem o responsável de Guanta, nem o Ministério da Comunicação, responsável por fornecer informações em nome do governo, responderam ao pedido de comentários.

A central pertencia à companhia mexicana Cemex até que, em 2008, o então presidente Hugo Chávez ordenou a desapropriação da empresa – sob o argumento, entre outros, de que não cumpria as suas obrigações de proteção ambiental.

A área em que a central está localizada tem um alto valor ecológico. Fica no Parque Nacional Mochima, quase cem mil hectares de “baías, praias, ilhas, golfos e enseadas de grandes maravilhas naturais”, privilegiado por uma “exuberante diversidade biológica”, segundo a descrição do Instituto do Parque Nacional. É um paraíso tradicionalmente visitado por turistas de todo o país em suas férias, embora a crise atual na Venezuela tenha reduzido drasticamente o fluxo de visitantes.

Muitos em Guanta acreditam que é mais provável que a fábrica acabe por se tornar inoperante antes de os problemas que a tornaram tão prejudicial sejam remediados.

ZAP //

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