Guerra civil em Moçambique alterou biodiversidade do Parque Nacional da Gorongosa

F Mira / Flickr

Parque Nacional da Gorongosa

A guerra civil em Moçambique levou à morte e à fuga de milhares de animais do Parque Nacional da Gorongosa. Com o fim dos conflitos, os animais têm regressado, mas o território já não é que era, relataram os investigadores.

Quando a guerra civil iniciou, há mais de 40 anos, levou à condenação dos animais do parque, uma reserva de cerca de 2400 quilómetros quadrados, situado no extremo sul do Grande Vale do Rift Africano. À medida que a disputa chegou à reserva, muitos dos animais foram vítimas do conflito, segundo um artigo da jornalista Sonia Fernandez-UCSB, publicado na quinta-feira no Futurity.

Ao longo da guerra, e durante um tempo depois, a insegurança alimentar levou as pessoas a matar os animais para se alimentarem, com a caça furtiva a afetar mais duramente os grandes mamíferos.

“Mais de 90% dos grandes mamíferos do parque foram exterminados”, disse Kaitlyn Gaynor, investigadora do Centro Nacional de Análise Ecológica e Síntese de Santa Bárbara (NCEAS) da Universidade da Califórnia. Após a guerra, um esforço foi lançado para restaurar o parque, na esperança de que os animais retornassem.

Agora, três décadas após a guerra, as populações de animais estão a recuperar, através da reintrodução de algumas espécies e da reabilitação das populações remanescentes do pós-guerra. Contudo, apesar da crescente abundância de animais no parque, as questões sobre as consequências ecológicas da guerra permanecem.

“Poucos lugares no mundo tiveram um recomeço tão dramático, onde os animais foram praticamente exterminados e depois voltaram”, apontou Gaynor. “Parece muito com o antes da guerra, se olharmos apenas para o número total de animais ou para o número de espécies presentes na paisagem”, acrescentou.

Os investigadores identificaram 38 espécies durante os três meses do seu levantamento – no qual utilizaram 60 câmaras para vigiar a vida dos animais -, colocando a biodiversidade da Gorongosa no mesmo nível de outras savanas africanas, como a Reserva de Caça Moremi, no Delta do Okavango, Botswana, e o Parque Nacional do Serengeti, na Tanzânia.

Carlos Reis / Flickr

Parque Nacional da Gorongosa

No entanto, “quando olhamos mais de perto para a distribuição das espécies, estão fora de sintonia”, indicou Gaynor. Os grandes herbívoros, dominantes antes da guerra (zebras, gnus e hipopótamos), são agora raros. Grandes carnívoros são ainda mais raros, restando apenas leões após a guerra. A savana pertence agora a babuínos, javalis e antílopes.

No primeiro estudo, os investigadores encontraram ainda uma grande diversidade em mesopredadores – animais do tamanho de gatos domésticos, como civetas, mangustos e genetas – espalhados por todo o parque.

“Pode ter havido uma ‘libertação de mesopredadores’, visto que, na ausência de predadores de vértice, as populações de predadores menores podem crescer porque não estão a enfrentar competição ou não estão a ser predados pelos carnívoros maiores”, explicou Gaynor.

Todas estas alterações estão a acontecer num cenário de mudança ambiental. Com a ausência dos herbívoros, o número de árvores no parque aumentou. O seu regresso pode levar a uma nova mudança, influenciando as espécies. A variedade da cobertura arbórea é importante para promover a diversidade dos animais, apontaram os investigadores.

Desde que o estudo foi realizado, leopardos e cães selvagens africanos foram reintroduzidos no parque, para reequilibrar o ecossistema. O lento regresso de grandes carnívoros deverá moldar a dinâmica da comunidade animal da Gorongosa.

“O nosso estudo representa o primeiro conjunto de dados no que esperamos ser um esforço contínuo de monitorização de armadilhas fotográficas de longo prazo”, referiu Gaynor. “A Gorongosa tem sido uma história de sucesso ao nível de conservação, mas é também muito interessante como o sistema se recuperou de forma assimétrica”, frisou.

Para a investigadora, “sobram questões sobre as causas e as consequências dessa assimetria, e a forma como a comunidade da vida selvagem vai mudar no futuro, dadas as transformações em curso na paisagem”.

Taísa Pagno //

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