Núcleo duro à volta do primeiro-ministro estará descontente com a estação pública. Se A Prova dos Factos acabasse já, “seria um alívio” para o Governo.
O Governo quis tirar 7 milhões de euros anuais em publicidade da RTP. E isso levou a uma atitude editorial mais hostil por parte da RTP perante o executivo, segundo o Observador.
A estação pública, sobretudo através do programa A Prova dos Factos, tem noticiado casos que abalaram este Governo: empresas suspeitas de Hernâni Dias (que já se demitiu), Manuel Castro Almeida, Rita Alarcão Júdice e Maria do Rosário Palma Ramalho – todas foram denunciadas pela RTP.
Por isso, há militantes do PSD, próximos do primeiro-ministro Luís Montenegro, que acreditam que têm inimigos dentro da RTP, ainda segundo o Observador.
A RTP foi rápida a reagir. Numa nota da direcção de informação, garantiu que os seus jornalistas “não se deixam condicionar” e lembrou que “os escrutínios dos poderes públicos é uma das missões principais do jornalismo livre e independente. É essa também a missão da RTP”.
Marcelo Rebelo de Sousa já comentou o assunto: “A comunicação social tem um papel a desempenhar”, que pode ser “desagradável para os titulares de poderes políticos, mas é um preço”.
O presidente da República invocou a sua experiência: “Esse papel que desempenha muitas vezes é desagradável, e todos sabemos, isso já me aconteceu uma vez, duas vezes, cem vezes, mil vezes”.
“Quem escolhe um certo tipo de responsabilidades sabe que, juntamente com coisas que são agradáveis, há coisas desagradáveis, coisas que considera justas e coisas que considera injustas. Isso é o pluralismo próprio da vida democrática”, acrescentou o chefe de Estado.
Ana Sá Lopes assegura no Público que não há qualquer agenda da RTP contra o Governo e acha que qualquer Executivo “quer que a RTP esteja ao seu serviço”. A comentadora política acrescenta que, se A Prova dos Factos acabasse já, “isso seria um alívio” para o Governo.
Mas avisa: “Nos bastidores está aqui a lançar-se um grande ataque à RTP. Vamos ver no que isto vai parar”.
Assunto chegou ao Parlamento
Pedro Duarte, ministro dos Assuntos Parlamentares defendeu nesta quarta-feira que o Governo vê a liberdade editorial da RTP como sagrada e declarou que o executivo não foi a fonte de uma notícia sobre uma suposta estratégia concertada contra o Governo.
Num debate agendado pelo PCP sobre política geral “centrada na degradação da situação social do país”, o ministro Pedro Duarte – que tem a tutela da comunicação social – disse que o executivo pretende fortalecer o serviço público de media e que “a liberdade editorial é absolutamente sagrada e isso não está em causa”.
Pedro Duarte garantiu que a notícia avançada pelo Observador “não saiu do Governo”, sublinhando que em causa estavam fontes anónimas e pedindo ao deputado do Livre, Jorge Pinto, que informe o Governo se souber “mais alguma coisa”.
No seu pedido de esclarecimento, Jorge Pinto criticou o que chamou de atitude confrontacional do ministro Pedro Duarte com a RTP, sublinhando que o governante terá deixado subentendido que “poderia haver uma partidarização dos trabalhadores da RTP”.
Jorge Pinto lembrou ainda a intenção do Governo de acabar com a publicidade na televisão pública, exigiu saber quem fez as declarações que serviram de base à notícia do Observador e se o ministro concordava com o que foi noticiado, acrescentando que a “investigação e o escrutínio são e têm de ser parte essencial do trabalho da RTP.
ZAP // Lusa