Gouveia e Melo critica Marcelo: Trump não é um ativo soviético, é um aliado

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Tiago Petinga / Lusa

O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com o ex-Chefe do Estado Maior da Armada, na altura Almirante Henrique Gouveia e Melo.

O almirante na reserva criticou o presidente da República, que afirmou que Donald Trump é um ativo soviético, defendendo que um Presidente não deve fazer comentários pessoais, porque representa o Estado português —mesmo que um antigo espião do KGB o tenha revelado em 2021.

Henrique Gouveia e Melo criticou esta sexta-feira Marcelo Rebelo de Sousa, que considerou que o seu homólogo dos EUA, Donald Trump, funciona atualmente como um “ativo soviético“, ao favorecer a Federação Russa na guerra contra a Ucrânia.

“Uma coisa peculiar e complexa é que o líder máximo da maior superpotência do mundo, objetivamente, é um ativo soviético, ou russo. Funciona como ativo“, disse o presidente da República, que apareceu de surpresa na edição de 2025 da Universidade de Verão do PSD.

“O Presidente não deve fazer comentários pessoais ou de índole pessoal, porque representa o Estado português, e nós somos um Estado aliado do Estado norte-americano”, disse Gouveia e Melo aos jornalistas  em Lagoa, no Algarve.

Em declarações à margem de uma a uma feira industrial em Lagoa, no Algarve, o candidato presidencial afirmou que “quem define a política externa é o Governo, portanto, o Presidente da República é só um representante dessa política“.

Questionado sobre se as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa podem desencadear um conflito diplomático com os EUA, Henrique Gouveia e Melo notou “que só os norte-americanos poderão decidir sobre isso“.

Nós somos um aliado dos Estados Unidos da América e vivemos momentos conturbados na ordem internacional e convém manter as nossas alianças nos momentos mais críticos”, realçou.

Também neste ponto Gouveia e Melo parece estar em dissonância com o presidente da República, que em fevereiro deste ano se referiu aos Estados Unidos como os “antigos aliados“.

As declarações do presidente, que tiveram ampla repercussão na imprensa internacional, mereceram também um comentário do Governo, que recordou que a condução da política externa não é competência do chefe de Estado.

Segundo a CNN Portugal, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, ficou “bastante irritado” com as palavras de Marcelo sobre Trump, e terá mesmo recebido um telefonema de Washington.

Rangel, que se encontra em Copenhaga para se reunir com os seus homólogos da União Europeia, recusou comentar as afirmações do Presidente, mas, em declarações à RTP, salientou que “a condução da política externa cabe ao Governo e portanto obviamente é através do Governo que as posições de Portugal são veiculadas neste plano”.

Já neste sábado, o governante português rejeitou comentar a declaração do Presidente da República, mas recordou que a política externa cabe ao Governo e é assim que deve ser interpretada a posição portuguesa.

“É assim que os nossos parceiros internacionais, todos eles, devem entender a relação com Portugal. Postas as coisas nesse contexto, julgo que não é preciso mais nenhum comentário”, acrescentou.

A voz mais mediática a comentar o tema no estrangeiro, diz o Observador, foi a de Seth Jones, antigo alto funcionário do Departamento de Defesa dos EUA, que  analisou na CNN Internacional as declarações do presidente português.

O especialista norte-americano admitiu que “é um exagero classificar Trump como um ativo russo” — algo que ouviu “de outros líderes europeus em privado“, mas que considera “não existir qualquer prova nesse sentido”.

Poderá não ser bem assim.

Segundo disse em janeiro de 2021 o antigo espião da KGB Yuri Shvets ao jornal britânico The Guardian, Donald Trump foi cultivado como um ativo russo durante mais de 40 anos, e mostrou-se tão disposto a repetir propaganda anti-ocidental que “houve celebrações em Moscovo”.

Há aparentemente indícios antigos, e eventualmente ações recentes, de que Donald Trump pode ser mesmo um “ativo soviético”, como muitos parecem pensar. Mas alguns não o podem dizer.

ZAP // Lusa

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