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O boom da energia solar no Paquistão tornou a energia mais cara (para os pobres)

Crosji / Wikipedia

Instalação de painéis solares do Grupo G&T em Karachi, no Paquistão

A revolução da energia solar no Paquistão transformou o panorama energético da nação, mas também criou uma divisão marcante entre os mais ricos, que puderam aceder à energia solar, e os consumidores mais pobres, dependentes da rede tradicional — que pagam contas de eletricidade cada vez mais altas.

Em apenas dois anos, a energia solar passou de quinta maior fonte de energia do Paquistão para a primeira posição, representando agora cerca de 25% do fornecimento nacional de eletricidade.

A transformação é particularmente visível no coração agrícola da província do Punjab, onde mesquitas, fábricas e quintas abraçaram a tecnologia solar com sucesso notável, conta o The Washington Post.

Mohammed Latif, um agricultor de 68 anos na aldeia de Dhaku, é um exemplo desta história de sucesso solar.

Depois de instalar uma bomba alimentada por energia solar no ano passado, Latif transformou o seu terreno árido em campos verdejantes, que geraram rendimento suficiente para conseguir enviar o filho estudar para a Grã-Bretanha.

O agricultor compara a revolução solar ao boom da construção de autoestradas há quatro décadas, considerando-a igualmente transformadora para a sociedade paquistanesa.

O boom solar começou em 2023, quando os preços globais dos painéis solares caíram drasticamente e as importações chinesas aumentaram.

Os subsídios governamentais encorajaram paquistaneses ricos e agricultores prósperos a investir fortemente em sistemas solares, e muitos acabaram por se desligar completamente da envelhecida rede nacional.

Contudo, esta adoção rápida criou sérios problemas de equidade.

Segundo dados do Banco Mundial, cerca de 45% dos paquistaneses vivem abaixo do limiar de pobreza, o que significa que para quase metade da população, os sistemas solares continuam financeiramente inacessíveis.

Entretanto, à medida que os consumidores abastados abandonam a rede nacional, a restante base de clientes tornou-se menor e mais pobre, obrigando as empresas de serviços públicos a transferir os custos de infra-estrutura para os que são menos capazes de os suportar.

As consequências foram severas. Em apenas três anos, entre 2021 e 2024, os preços da eletricidade praticamente duplicaram, até uma intervenção governamental recente os ter estabilizado.

Muitas famílias de baixo rendimento dizem ter sido obrigadas a cortar na comida e em artigos essenciais, para conseguir pagar as faturas de energia. Enquanto isso, nos bairros ricos são visíveis painéis solares no topo de mansões.

O Ministro da Energia do Paquistão, Awais Leghari, reconhece a crise, mas afirma que foram os preços elevados da eletricidade que levaram as pessoas a sair da rede. “Não os culpo“.

Este paradoxo criou o que Hasnat Khan, dirigente da Associação Solar do Paquistão, chama de “espiral da morte“, em que consumidores de elevado rendimento adotam energia solar, enquanto os mais pobres absorvem os custos.

O problema tem origem na má gestão do sector energético que tem sido seguida no Paquistão, diz o The Washington Post.

Os cortes generalizados de energia que se verificavam dos anos 1990 ao início dos anos 2010 levaram as autoridades a apressar-se a apostar fortemente na produção de energia a carvão, suportada por empréstimos caros.

Pior do que os custos financeiros desta energia, diz o Post, foi a decisão de aceitar pagar por uma capacidade de produção pré-definida independentemente da utilização real de eletricidade. Esta abordagem deixou o sector energético com uma dívida de cerca de 4,8 mil milhões de euros.

Apesar da sua capacidade geradora excessiva, os responsáveis argumentam que as centrais de combustíveis fósseis continuam a ser necessárias para os dias mais nublados, em que a produção solar diminui.

Contudo, os críticos apontam o duplo critério gritante seguido por responsáveis governamentais que instalam painéis solares nas suas próprias propriedades enquanto exortam os cidadãos a não se desligarem da rede nacional.

Para agricultores como Abdul Karim, que não consegue pagar a instalação solar, a revolução significou escolher entre alimentar a família e ter eletricidade. No calor extremo do Verão, quando as temperaturas sobem acima dos 43°C e os filhos pequenos mostram sinais de exaustão pelo calor, usa apenas ventoinhas.

Enquanto o Paquistão lida com esta transição energética, o desafio continua a ser garantir que os benefícios da energia renovável cheguem a todos os cidadãos, em vez de exacerbar as desigualdades existentes num país faminto de energia, com 251 milhões de habitantes.

Armando Batista, ZAP //

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