Gás natural pode transformar Moçambique no “Qatar de África” (se os jihadistas deixarem)

ONGAWA Ingeniería para el Desarrollo Humano / Flickr

Baía de Pemba em Cabo Delgado, Moçambique

A descoberta de gás natural em Moçambique é vista como uma grande esperança para o país que, à boleia dos avultados investimentos que está a receber de grandes multinacionais, sonha tornar-se no “Qatar de África”. Mas depois de uma guerra civil de 15 anos, os ataques de grupos jihadistas são a nova ameaça ao país.

A descoberta de gás natural na costa de Cabo Delgado, província situada a norte de Moçambique, na fronteira com a Tanzânia, está a levar à injecção de milhões de dólares em Moçambique. Empresas multinacionais como a norte-americana Exxon Mobil e a italiana Eni estão a explorar aquela que pode ser a “maior reserva de gás natural de África“, segundo a The Economist.

Esta riqueza natural é vista pelo Governo de Moçambique como um factor fundamental para dar impulso económico ao país. De tal forma que a The Economist chega a salientar que Moçambique pretende tornar-se no “Qatar de África”.

Mas os planos do Governo estão a ser complicados por grupos jihadistas. Nos últimos tempos, têm ocorrido vários ataques com jovens armados e com slogans islâmicos a queimarem aldeias e a decapitarem pessoas, apoderando-se de aldeias e chacinando as autoridades do Governo.

Em Março, um grupo de jihadistas que pode ter ligações a movimentos islâmicos da Somália tomou conta da vila de Mocímboa da Praia, apoderando-se de uma base militar. Foi o primeiro ataque destes rebeldes de inspiração islâmica a uma localidade maior, com potencial estratégico.

Este conflito na província de Cabo Delgado já matou dezenas de pessoas, com episódios de decapitações, torturas e raptos que levaram mais de 100 mil pessoas a fugirem das suas casas, segundo o o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

A resposta do Governo perante esta ameaça tem sido incipiente e só tem agravado ainda mais a revolta, com o recurso a “recrutas mal treinados, polícias agressivos e mercenários russos”, como avança a The Economist.

A organização não governamental Human Rights Watch acusa as autoridades de estarem envolvidas em casos de espancamentos e de execuções a tiro. Uma “brutalidade” que só agrava a revolta da minoria muçulmana que ocupa, sobretudo, uma zona no norte do país que tem sido “negligenciada” pelo Governo.

A “marginalização” será, aliás, o grande rastilho para este desenvolvimento de pequenos grupos jihadistas. Sem “atacar” a situação de pobreza e desigualdade da província, o Governo não conseguirá estancar os ataques, acredita a The Economist.

Um relatório da unidade de análise da revista britânica, denominada Economist Intelligence Unit (EIU), conclui que o “desenvolvimento das fábricas para a exploração de gás” em Cabo Delgado está “ameaçado pela crescente presença militar de grupos islamitas, incluindo o movimento local Ansar al-Sunna e, cada vez mais, afiliados locais do Estado Islâmico”.

Os analistas da EIU consideram, no seguimento de um acordo entre os Governos da Noruega e de Moçambique para o desenvolvimento sustentável da exploração de gás no país, que “os ataques militantes aumentaram em severidade e frequência durante o ano passado, e é provável que continuem, mesmo com as forças de segurança estatais a debaterem-se para os conter”.

“As causas subjacentes da insurgência são multifacetadas, mas as limitadas oportunidades económicas e a frustração popular sobre o alto nível de corrupção, assim como a fraca gestão orçamental a nível estatal lançaram as sementes para o descontentamento generalizado”, analisa ainda a EIU.

Moçambique assinou com a Noruega um acordo que prevê que o país nórdico o auxilie ao nível da gestão das futuras receitas de gás natural. O Governo moçambicano discute a criação de um fundo soberano para a gestão das receitas petrolíferas. A Noruega, que tem o maior fundo soberano do mundo, está a prestar ajuda neste âmbito. Os dois países colaboram há mais de 40 anos nos âmbitos da energia e da saúde.

Está previsto que as exportações de gás natural de Moçambique arranquem a partir de 2022, no âmbito de mega-explorações na bacia de Rovuma. A expectativa é de que Moçambique se torne, na próxima década, num dos 10 principais produtores mundiais de gás natural.

Covid-19 coloca país em estado de emergência

Moçambique entrou, nesta quinta-feira, 2 de Abril, em estado de emergência, por 30 dias, acrescentando a proibição de todos os eventos e o fecho de alguns estabelecimentos às medidas que têm vindo a ser tomadas para prevenir a pandemia de Covid-19.

O país admite impor a limitação de circulação e limitar as entradas nas fronteiras, “desde que se verifique um aumento exponencial de casos de contaminação”.

Oficialmente, Moçambique tem oito casos de infectados e não conta ainda com mortes.

Entretanto, nesta sexta-feira, o Parlamento moçambicano aprovou o Programa Quinquenal do Governo (PQG) 2020-2025, com os votos a favor da Frelimo, partido no poder, e os votos contra da Renamo e do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), da oposição.

O PQG prevê uma taxa de crescimento médio de 5,5%, mas as contas foram feitas antes da pandemia do coronavírus. O ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, já reviu em baixa essa previsão, apontando antes para 2,2% num cenário pessimista e 3,8% num cenário optimista. O plano para cinco anos de governação poderá, assim, sofrer mudanças.

O MDM já definiu o plano do Governo como uma “catástrofe”, considerando que vai manter Moçambique como um dos países mais pobres do mundo. “Não há neste PQG nada de concreto e exequível para tirar o país da situação calamitosa em que se encontra”, refeiu o deputado Fernando Bismarque.

Já a Frelimo, o partido do Governo, considerou que “o programa assegura a redução da pobreza e desigualdades sociais e promove um ambiente favorável ao investimento público e privado para um crescimento económico sustentável“, como sublinhou o deputado Abdul Gafur Issufo no Parlamento.

ZAP // Lusa

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8 COMENTÁRIOS

  1. Então e os amigos russos não vos dão agora a mão? O comunismo infestou e arruinou África, mas o islamismo será pior ainda, África infelizmente parece condenada à desgraça.

    • Não existe nenhuma terra (incluindo AFRICA) que está, esteve ou estará condenada ” naturalmente” a desgraça. Governos inertes, corruptos, insensíveis à desgraça do povo, que usam os recursos dos paises para o beneficio próprio, são a causa principal da desgraça de muitos paises no mundo todo. A incapacidade ou falta de vontade em implementar políticas públicas favoráveis ao bem da maioria é uma das marcas desses governos que acabam lançando milhões de seres humanos para desgraça.

      • De facto países condenados naturalmente à desgraça ao contrário do que afirma não existir, haverá alguns devido às brutais alterações climáticas, no entanto a maioria é como afirma devido a maldade humana, ou por ganância, ou por ideologia política ou religiosa e África é um ninho de tudo isto um pouco por todo lado apesar de ter muitos recursos naturais.

  2. Qatar de África??? xD O espirito deles é demasiado rebelde para isso, mais depressa se torna no novo Estado Islâmico. Não tenho pena, só tenho pena de o raio do Salazar ter feito morrer tantos jovens por um povo que só quer a destruição isso é que tenho pena. E agora estes liberais estarem a importa-los para cá e a tornarem zonas do meu país em autênticos bairros de lata cheios de crimonosos como fazem lá. E o pior é já estarem a alastrar para zonas pacificas que não os tinha.

  3. Há alguma ilusão de quem proferiu estas declarações tristes.. com a mais do que provável migração automática, se não obrigatória, das energias fósseis para as renováveis no período de 10-15 anos espera-se que a procura por gás natural e petróleo seja reduzida por parte dos mercados internacionais.. que haja bom senso por parte das governações, é o meu desejo para todos os países.

  4. Deus nao muda as condicoes dum povo ate o proprio povo mude o que ha nos seus intimos.
    Constituem as doencas espirituais(a ganancia,inveja,injustica,a avareza…)que precisam grande luta por si proprio.so com a remocao disso é que resultara bons e integros governantes em Africa.
    Na historia da humanidade sempre se viveu em guerras,mas precisa reformar para uma era tranquil e estavel.
    A Africa ja esta atrasada e o relogio europeu esta bem adiantado.E o tempo é incongelavel.
    Africa precisa de lideres passados como:Nkrumah,samora,do Bois,mandela,kaddaf,Nyerere…..No continente parece que nao passaram esses grandes referenciei africanas para que os actuais academicos copiem o seu legado.Mas precisa remover o que ha nos coracoes.

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