Galp critica Governo. Relatório sobre margens na venda de combustíveis está “cheio de erros”

José Sena Goulão / Lusa

O presidente executivo da Galp criticou esta segunda-feira o relatório da Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE) que foi a base para o Governo avançar com um diploma para limitar as margens na comercialização de combustíveis, dizendo que está “cheio de erros”.

Numa conferência telefónica com analistas, a propósito dos resultados do primeiro semestre deste ano da empresa, o presidente da Galp, Andy Brown, mostrou-se “desiludido” com a intenção do Governo de fixar temporariamente margens máximas de comercialização dos combustíveis e do gás de garrafa e apontou problemas ao trabalho do regulador na forma como foram calculadas as margens brutas das empresas.

“Se virmos o relatório da ENSE [Entidade Nacional para o Setor Energético] ficamos desapontados, porque havia muitos erros na forma como calcularam as margens, 80% do aumento das margens de que falam são erros nos cálculos”, garantiu.

“Não sabemos o que esta legislação vai trazer, estamos à espera da proposta [de lei], falam de uma intervenção a curto prazo, em casos de crescimento extremo de margens”, ressalvou o novo presidente executivo da Galp.

“Se olharmos para o preço da bomba hoje, 12% isso vai para custos de distribuição”, indicou, referindo que o grupo tem “700 bombas de gasolina para gerir, 900 empregos diretos, 2.500 indiretos, um número enorme de pessoas”.

“Esse negócio comercial só gerou cerca de 7% do nosso EBITDA (o resultado antes de impostos, juros, depreciações e amortizações) no segundo trimestre e a refinação 1%”, mas contam com “40% de todos os funcionários”, explicou.

Ou seja, “a ideia de que é aqui que fazemos o nosso dinheiro é triste”, assegurou citado pelo Público, garantindo que sobre o preço final dos combustíveis pesam cerca de 60% em impostos, numa das que é das “tributações mais pesadas da Europa”.

O britânico — que recorreu à expressão idiomática inglesa “barking up the wrong tree” (“ladrar para a árvore errada”), usada para dizer que alguém tem uma ideia errada sobre determinado assunto — rematou referindo que “qualquer tipo de regulação é negativo” e garantindo que a empresa vai fazer chegar a sua opinião “claramente ao Governo português”.

O Governo aprovou na semana passada em Conselho de Ministros (CM) uma proposta de lei que permitirá ao executivo limitar as margens na comercialização de combustíveis por portaria, caso considere que estão demasiado altas “sem justificação”, segundo o ministro do Ambiente.

Em conferência de imprensa, depois do CM, João Pedro Matos Fernandes disse que este diploma, que abrange também as botijas de gás, irá agora ser enviado à Assembleia da República, salientando que a medida será “limitada no tempo”.

Esta proposta de lei tem como objetivo “dar ao Governo uma ferramenta para que, quando comprovadamente as margens na venda de combustíveis e botijas de gás forem inusitadamente altas e sem justificação, este poder, por portaria, limitar essas mesmas margens”, indicou o governante.

“Uma vez aprovada [a proposta de lei], pode então o Governo, ouvindo sempre a ERSE [Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos] e a Autoridade da Concorrência, por portaria, sempre por períodos limitados no tempo, que imagino um mês, dois meses, fixar administrativamente a margem máxima para a venda dos combustíveis”, adiantou João Matos Fernandes.

O governante recordou que esta margem é “também um somatório de margens que têm a ver com o transporte, com o armazenamento, com a distribuição grossista, com a própria distribuição retalhista”, sendo que estes valores de referência “continuam a ser calculados dia a dia por parte da ENSE”.

A margem dos comercializadores, no final de junho, era superior em 36,6% na gasolina e 5% no gasóleo à margem média praticada em 2019, segundo um estudo da ENSE, divulgado no dia 14 de julho.

“Na quarta-feira, 30 de junho 2021, a margem apurada sobre a gasolina era superior à margem média praticada em 2019 em 0,069 euros (ou +36,62%). No caso do gasóleo, a margem no último dia do mês de junho era 0,01 euros superior à média do ano de 2019 (ou +5,08%)”, anunciou então a ENSE, que é tutelada pelo Ministério do Ambiente e Ação Climática.

  ZAP // Lusa

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3 COMENTÁRIOS

  1. E que tal baixarem os impostos sobre combustíveis? Mais uma vez a atirarem areia aos olhos do povo enquanto enchem os bolsos com o nosso trabalho. Continuem a votar no Costa – o malabarista, e vão ver onde estamos daqui a um par de anos

    • Baixar os impostos é baixar artificialmente o preço dos combustíveis, situação imoral e temporária, eu diria, que tal subir aos impostos? No mínimo para a taxa do imposto da Itália.

  2. Fazem do povo parvo… Se calhar até somos… Com políticas de deitar abaixo e culpar tudo o que tem lucro não admira sermos o país atrasado que somos passados tantos milhões da europa…

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