Uma força europeia com 50 mil militares? Borrell diz que jamais pensou em tal

O chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, esclareceu esta quinta-feira que nunca defendeu a criação de uma força europeia de 50 mil militares, apontando que “o verdadeiro número” é dez vezes inferior.

No final da reunião informal de ministros da Defesa, na Eslovénia, que teve como principal tema em agenda o reforço da autonomia estratégica da UE e das suas capacidades de Defesa, o Alto Representante da UE para a Política Externa, questionado sobre a disparidade dos números de que se fala para uma eventual força de intervenção rápida da UE, comentou que seria “uma loucura” da sua parte falar em 50 mil militares, tal como lhe foi atribuído em recentes entrevistas.

De acordo com Borrell, o mal-entendido deverá estar relacionado com a decisão adotada pela União Europeia em 1999, mas nunca implementada, de os Estados-membros se dotarem, voluntariamente, de uma força capaz de reunir num curto prazo entre 50 mil e 60 mil militares capazes de serem enviados em missão.

Mas tal foi há mais de 20 anos, após os horrores da guerra da antiga Jugoslávia, e a guerra “mudou muito”, assinalou.

Na conferência de imprensa desta quinta-feira, na localidade eslovena de Kranj, Borrell insistiu que a UE necessita de reforçar as suas capacidades para ser capaz de atuar de forma autónoma “onde e quando for necessário”, o que não é o caso atualmente, como se verificou com a operação de evacuação do aeroporto de Cabul, mas uma eventual força de intervenção rápida, que para já ainda é apenas uma das ideias sobre a mesa, não necessitaria de mais de 5.000 elementos.

Seria uma loucura da minha parte dizer que deveríamos mobilizar 50 mil militares. O verdadeiro número, aquele que os especialistas militares consideram suficiente para implementar o novo género de missões que a guerra moderna exige, é em torno dos cinco mil”, esclareceu.

“Agora somos muito mais modestos porque pensamos em operações como assegurar a segurança de um aeroporto ou enfrentar crises específicas que exigem muito menos militares, mas muito mais bem treinados e equipados”, explicou.

Apontando que há consenso entre os 27 no sentido de a UE aumentar as suas capacidades para atuar de forma autónoma, sem depender designadamente dos Estados Unidos, Borrell admitiu que ainda não há unanimidade sobre a forma de lá chegar, mas enfatizou que “este não era um Conselho para tomar decisões, era só um debate”, pois a decisão será tomada em novembro, quando os ministros da Defesa voltarem a reunir-se para uma primeira análise política da chamada Bússola Estratégica, o documento que está a ser preparado pelos 27 a traçar a estratégia europeia na área da Segurança e Defesa.

“Não há outra forma de enfrentar a nova situação do que termos a capacidade de atuar por nós próprios. O presidente [Joe] Biden é o terceiro presidente consecutivo norte-americano que nos avisa que os EUA estão a desligar-se de envolvimento em conflitos na cena mundial”, observou.

Portugal esteve representado na reunião pelo ministro João Gomes Cravinho, que manifestou “grande satisfação” com a discussão sobre a Bússola Estratégica, observando que a experiência no Afeganistão “teve o condão de acentuar a importância” do reforço da capacidade estratégica autónoma da UE.

Em declarações à Lusa após a discussão entre os 27, o ministro regozijou-se por “constatar que o nível de convergência é muito elevado” entre os 27.

“Creio que esta experiência recente no Afeganistão teve o condão de acentuar a importância de aumentarmos o nosso nível de ambição na bússola estratégica”, disse, acrescentando que o grande desafio agora, em relação ao qual acredita que “todos estão conscientes”, é “concretizar, sobretudo no que toca a capacidades, este sentimento de que a Europa tem de saber defender e promover os seus próprios interesses, aquilo que são interesses estratégicos da UE, mesmo quando não há outros parceiros que considerem interesses estratégicos, nomeadamente os Estados Unidos e a NATO”.

“Há todo o interesse em ter com os Estados Unidos e a NATO uma relação forte, mas há também todo o interesse em poder agir quando a NATO e os Estados Unidos não têm o mesmo interesse que a União Europeia”, vincou.

João Gomes Cravinho sublinhou que “esta ideia não é nova”, apontando que “aquilo que há de novo hoje é praticamente uma unanimidade”, pois “todos subscreveram esta ideia com estas palavras ou palavras parecidas”.

O ministro deu conta de “várias ideias” que circularam em torno da mesa sobre como reforçar as capacidades da UE, entre as quais a de forças especiais de diferentes países realizarem treinos de conjunto muito regulares, mas enfatizou também que “esta não é uma reunião técnica, de responsáveis militares, e competirá a eles fazer essa triagem”.

A situação no Afeganistão centra hoje as atenções nas reuniões informais de ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros da União Europeia na Eslovénia, numa ‘rentrée’ comunitária marcada pela abrupta tomada de Cabul pelos talibãs em agosto e retirada apressada das forças e cidadãos internacionais do país, após 20 anos de presença.

Concluída a reunião de ministros da Defesa, entrarão ‘em cena’ os chefes da diplomacia, também em Kranj, com o ministro Augusto Santos Silva a representar Portugal.

  // Lusa

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