“Esperar uma hora é repugnante”. Resposta da polícia do Texas ao tiroteio gera chuva de críticas

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Tannen Maury / EPA

A demora na resposta da polícia ao tiroteio está a ser criticada e um congressista até já escreveu ao FBI para que seja aberta uma investigação. O atirador esteve na sala de aula durante cerca de uma hora antes de ser abatido.

A facilidade com que o autor do tiroteio em Uvalde, no Texas, entrou na escola e o facto de ter ficado lá durante cerca de uma hora está a levantar questões sobre a actuação da polícia, ou a falta dela. Com 21 vítimas mortais, sendo 19 destas crianças, este foi o tiroteio numa escola mais mortífero da última década nos EUA.

O director regional do Departamento de Segurança Pública (DSP) do Texas, Victor Escalon, revelou esta quinta-feira que o atirador não foi impedido de entrar na escola. “Então desde a casa da avó até à escola, ele não foi confrontado por ninguém“, afirmou, contrariando as declarações anteriores das autoridades.

Na quarta-feira, um representante do DSP tinha dito que um agente tinha interagido com o jovem atirador antes de este entrar na escola. No entanto, Escalon afirma agora que Salvador Ramos disparou sobre a sua avó, depois teve um acidente com a sua carrinha num fosso nas imediações da escola por volta das 11h30.

O atirador saiu da carrinha armado e disparou sobre duas pessoas do outro lado da rua. Ao aproximar-se da escola, atirou sobre o edifício várias vezes antes de entrar através de uma porta destrancada por volta das 11h40. A porta em questão, geralmente, está trancada.

Não havia nenhum agente de protecção de escolas no local e o suspeito entrou numa sala de aula e disparou mais de 25 vezes, tendo a maioria do disparos acontecido no início do ataque. A polícia chegou à escola às 11h44 e três agentes entraram no edifício pela mesma porta usada pelo atirador e quatro entraram por outra porta, revelou o porta-voz do DSP, Chris Olivarez, à CNN.

Os agentes terão evacuado o resto da escola e entrado em negociações com o suspeito. Depois de cerca de uma hora, uma equipa da Patrulha de Fronteira forçou a entrada na sala de aula e matou o atirador. Olivarez defendeu a resposta da polícia, referindo que a presença dos agentes fora da sala impediu o atirador de percorrer o resto da escola e fazer mais vítimas.

Olivarez acrescenta que todas as vítimas mortais e todos os 17 feridos estavam dentro das salas de aula onde o suspeito de barricou. “Ainda estamos a tentar perceber se a sala de aula estava fechada, e caso estivesse fechada, se havia algum tipo de mecanismo que impediu os agentes de entrar“, adianta.

O chefe do departamento de polícia de Uvalde, Daniel Rodriguez, emitiu um comunicado na quinta-feira onde defende a actuação da força local. “É importante que a nossa comunidade saiba que os agentes responderam em poucos minutos”, afirma.

“Entrem lá, entrem lá!”

Desde o tiroteio em massa numa escola secundária em Columbine, em 1999, que o protocolo para as respostas de emergência em massacres deste género define que a ameaça deve ser neutralizada imediatamente devido ao risco de o atirador continuar a fazer ainda mais vítimas. Desde então, a maioria dos tiroteios em massa nos Estados Unidos não dura mais de cinco minutos. Este demorou 90.

A resposta rápida é também essencial no caso dos feridos, já que as hemorragias descontroladas são a principal causa de morte que pode ser prevenida nestes incidentes. Nestes casos, apenas dois minutos podem fazer toda a diferença entre a vida e a morte.

As justificações da polícia não estão a convencer alguns especialistas. “É quase incompreensível para mim uma explicação racional para polícia ter esperado entre 30 minutos e uma hora para entrar lá. Arrombar a porta, se ela estivesse trancada, não demora 30 minutos”, diz Andrew McCabe, analista das forças policias da CNN.

“Esperar uma hora é repugnante. Se isso for verdade, é um facto nojento“, afirma Sean Burke, um agente de protecção de escolas recentemente reformado que preside ao Conselho de Defesa da Segurança das Escolas, que treina as forças sobre como responder aos tiroteios.

Don Alwes, antigo instructor da Associação Nacional de Agentes Tácticos, concorda. “Se há alguém que está activamente a magoar ou tentar magoar outras pessoas, especialmente crianças, a vossa obrigação como agentes é imediatamente parar essa pessoa e neutralizar a ameaça”, afirma.

A demora na resposta da polícia gerou o caos fora da escola, com a chegada dos pais que foram informados do tiroteio e queriam saber onde estavam os seus filhos.

Juan Carranza, uma testemunha que viu o que se passou da sua casa do outro lado da rua, ouviu uma mulher a gritar repetidamente aos agentes que entrassem no edifício, mas a polícia não o fez.

Já Javier Cazares, um pai que perdeu a filha no tiroteio, foi imediatamente para a escola quando soube do massacre. Quando lá chegou, a polícia ainda se estava a organizar fora do edifício, o que levou a que pedisse à força que lhe desse uma arma para ele mesmo entrar dentro da escola, assim como a outras pessoas presentes.

“Vamos entrar lá porque a polícia não está a fazer o que é suposto fazer. Mais poderia ter sido feito. Eles não estavam preparados. Eles disseram que entraram lá apressadamente. Nós não vimos isso”, revelou à CBS.

O representante Democrata Joaquin Castro, que foi eleito pelo Texas, já enviou uma carta ao FBI onde pede que seja aberta uma investigação à conduta da polícia. “As autoridades do estado deram respostas contraditórias ao público sobre como a tragédia em Uvalde se desenrolou. Estou a pedir ao FBI que use a sua autoridade máxima para investigar e divulgar um relatório com a cronologia do que se passou”, escreveu no Twitter.

O’Rourke confronta Abbott

O tiroteio está também a ganhar contornos políticos e a aumentar a pressão sobre os Republicanos, que se opõem à adopção de leis mais restritas de compra e posse de arma. O candidato Democrata para Governador do Texas e ex-congressista pelo estado, Beto O’Rourke, decidiu confrontar o rival republicano na corrida marcada para Novembro, Greg Abbott, durante uma conferência de imprensa.

“Governador Abbott, tenho algo a dizer. O tempo para travar o próximo tiroteio é agora e não está a fazer nada. Disse que isto não é previsível. É totalmente previsível”, afirmou O’Rourke.

À saída da conferência de imprensa, O’Rourke voltou a atirar farpas a Abbott: “A única coisa que ele fez foi facilitar a posse de armas em público e ele gabou-se do facto de não haver nenhuma verificação de antecedentes”.

O único interesse dele é o lobby das armas. Ele tem um discurso agendado na convenção da Associação Nacional de Armas esta sexta-feira, em Houston, no Texas, meros dias após estas crianças terem sido massacradas em Uvalde. Cinco dos piores tiroteios em massa na história dos Estados Unidos aconteceram nos últimos cinco anos neste estado e ele era o governador durante todos eles”, acusou.

Entretanto, Abbott já anunciou que cancelou a ida à convenção da Associação de Armas, que é o principal órgão do lobby nos Estados Unidos. Esta não é a primeira vez que O’Rourke deixa clara a sua posição sobre o controlo de armas.

Durante um debate nas primárias Democratas para as presidenciais de 2020, o então candidato, que é natural de El Paso, referiu-se ao tiroteio que tinha recentemente tido lugar num supermercado Walmart na sua cidade natal e disse que estava na hora de se reformar a lei das armas.

“Sim, nós vamos tirar as vossas AR-15, as vossas AK-47. Não vamos deixar que as continuem a usar contra os nossos compatriotas americanos”, afirmou.

  Adriana Peixoto, ZAP //

5 Comments

  1. A ser assim a policia de lá está muito mal. Não deviam vender armas a qualquer um lá nos USA. Parece que até nos supermercados estão armas á venda. Deviam ter uma lei apertada como em Portugal, mas mesmo assim há muita gente com armas ilegais cá. Se elas são vendidas em supermercados deve ser um negócio que gera muito lucro por lá e os tais senadores não querem abdicar desse lucro.

  2. Este é o mesmo país que financia a guerra na Ucrânia, que lançou as únicas duas bombas atómicas no mundo e que invadiu vários países com pretexto da existência de armas nucleares. O terrorismo no mundo é o resultado das políticas americanas. Não é preciso dizer mais nada.
    Os lucros com a venda de armas são mais fortes do que os massacres que as mesmas vão causando.

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