“Epidemia de pedofilia” nos escuteiros dos EUA. Até agora já foram identificados 350 predadores

Segundo um grupo de advogados, os Boys Scouts of America (BSA) têm vindo a encobrir uma “epidemia de pedofilia dentro da sua organização”. Em causa estão cerca de 800 vítimas e 350 predadores, entre estes, chefes e voluntários.

Os advogados representam a organização Abused in Scouting (AIS), que fornece assessoria jurídica a escuteiros que tenham sofrido assédio ou violação. Numa conferência de imprensa, dada na terça-feira, para anunciar o processo a AIS disse considerar a situação “uma conspiração contínua e séria“.

O processo alega que a BSA encobriu incidentes de agressão sexual e acusa a organização de se envolver em má conduta imprudente, bem como de não proteger os seus membros mais jovens, avança a News Week.

Os acusados não eram conhecidos pelas autoridades, embora a BSA tenha mantido um histórico de “arquivos de voluntários inelegíveis“, desde 1919, que identificou possíveis predadores entre os líderes de escuteiros. Os arquivos foram tornados públicos em 2012, por ordem do Oregon Supreme Court.

“Não se pode olhar para estes arquivos sem chegar à conclusão de que este era um problema enorme que estava oculto”, disse o advogado Tim Kosnoff na conferência. “O pequeno segredo sujo da BSA já não é um pequeno segredo, é enorme”, acrescentou.

“Sabemos que quando um pedófilo abusa de uma vítima, não é apenas uma”, conta o advogado Stewart Eisenberg. “Então, cada um dos 350 abusadores tem dezenas de outras vítimas que não se apresentaram”, revela.

O processo também identificou os Boy Scouts e o Penn Mountains Council como cúmplices, avança a NBC News. Os advogados alegam que a “BSA sabia há décadas que os predadores sexuais se tinham infiltrado no escutismo”.

Os números

A organização, fundada em 1910 e contava com mais de um milhão de escuteiros. A partir de 2016 já tinham cerca de 960 mil voluntários adultos.

Estima-se que as 800 vítimas tenham idades compreendidas entre os 14 e os 88 anos. Kosnoff acrescentou que apenas quatro das 800 vítimas “identificam o mesmo abusador, os restantes identificam outros abusadores”.

No início deste ano, um investigador contratado pela BSA para analisar os registos da organização identificou, entre 1944 e 2016, 7 mil e 819 suspeitos de abuso e, 12 mil e 254 vítimas, avança o Los Angeles Times.

Embora o número tenha tendência para ser uma subestimação do número real de vítimas e infratores — já que maior parte das pessoas nem chega a denunciar os casos —, grande parte dos suspeitos de abuso foi acusada de prejudicar mais que uma criança.

O caso de “S.D.”

Ainda esta segunda-feira foi aberto um processo, em Filadélfia, por um homem apenas conhecido como “S.D.”, avança a All Thats Interesting. A vítima afirmou ter sido assediada “centenas” de vezes durante o período de quatro anos na década de setenta.

“S.D.” identificou o predador como Paul Antosh. “Acabei de ouvir sobre a ação judicial, estou no processo de contratação de advogados”, disse Antosh, agora com 62 anos, quando questionado sobre as acusações.

Num discurso prestado no National Press Club, Eisenberg afirmou que Antosh é apenas o primeiro caso numa série de futuros processos judiciais contra a BSA.

A resposta da BSA

A BSA não confirmou nem negou se Antosh ainda era ou não um escuteiro ativo na sua organização. Em relação à sua base de dados interna, a BSA admitiu manter uma lista de “arquivos voluntários inelegíveis” desde 1920, e enumerou os identificados como potenciais predadores sexuais.

A organização alega, no entanto, que a lista foi utilizada como uma ferramenta estratégica para manter abusadores sexuais fora do escutismo e, que nunca reteve de forma intencional os dados das autoridades. Ainda assim, a BSA só forneceu os nomes da lista até ser pressionada a nível legal.

Numa declaração prestada na terça-feira, a BSA pediu desculpas às vítimas que foram prejudicadas e disse que “tomou medidas significativas ao longo de muitos anos para garantir uma resposta agressiva e eficaz aos relatos de abuso sexual”.

“Preocupamo-nos com todas as vítimas de abuso infantil e pedimos desculpas a qualquer um que tenha sido prejudicado durante seu tempo no escutismo”, dizia o comunicado da BSA, citado pelo New York Times.

“Reconhecemos, no entanto, que existiram casos na história da nossa organização que não foram tratados de maneira consistente com o nosso compromisso de proteger os escuteiros, os valores da nossa organização e os procedimentos que temos agora”, lamentou a organização.

“Acreditamos nas vítimas, damos-lhes apoio, pagamos por aconselhamento ilimitado e incentivamos a apresentarem-se. Assim que a BSA for notificada de qualquer alegação de abuso, será imediatamente reportado à polícia”, conclui.

De acordo com a USA Today, os Boy Scouts of America têm 20 dias para responder ao processo depois deste ser apresentado.

Quem são os acusados?

Entre os homens acusados, encontram-se membros da polícia, militares, professores, médicos, um presidente da câmara e um psicólogo de crianças.

A lista de clientes alega que sofreu de assédio, desde carícias a sodomia. Alguns dos acusados acabaram no tribunal ou foram punidos por crimes semelhantes — por vezes, muitos anos depois dos casos ocorridos nos escuteiros.

A AIS e outros advogados que representam ex-escuteiros em casos de abuso têm encorajado as vítimas a falar. O grupo criou um site e exibe anúncios de televisão com esse propósito. Contudo, as ações judiciais dependem das acusações das vítimas, mas muitas nunca o chegam a fazer.

DR, ZAP //

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2 COMENTÁRIOS

  1. Vai lá vai, inscrevam-se nos escuteiros agora vá! Lá diziam no Gato Fedorento, “se estivesse na droga, isso é que era de homem, agora escuteiros?”, hehe. Brincadeiras à parte todas as formas de religião sempre esconderam um ou outro abuso e estão cheias de podres e é bem por isso que guardo uma boa distância desse mundo.

  2. Essa de escutismo nunca me convenceu e sempre tive alguma reserva acerca de tal movimente, mas isto é apenas uma ideia minha!.

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