Comité da OMS defende que a edição genética de bebés é ainda muito arriscada

Depois da experiência polémica de He Jiankui em 2018, há ainda muitas questões de saúde e éticas levantadas pela edição aos genes humanos.

Um comité especializado acredita que a edição de genomas ainda é muito arriscada e que a Organização Mundial de Saúde deve assumir um papel de liderança sobre a regulação desta biotecnologia.

Depois de dois anos a serem desenvolvidas, as novas directrizes incluem uma proposta de administração global na questão da edição genética em humanos.

Este comité foi criado em 2019 pela Organização Mundial de Saúde em resposta ao escândalo que envolveu o biofísico He Jiankui, que em 2018 usou a ferramenta CRISPR para editar os genes de duas gémeas que nasceram com imunidade ao vírus VIH. O cientista alegadamente também forjou documentos éticos e está actualmente a servir uma pena de prisão de três anos na China.

O caso de He Jiankui foi polémico: por um lado, peritos apelaram à criação de uma moratória em casos de edição genética heriditária por ainda não serem conhecidos todos os riscos, por outro, a experiência mostrou os potenciais benefícios na prevenção de doenças e no tratamento de alguns cancros.

Esta experiência demonstrou o potencial de outras capacidades por explorar, como criar imunidade a certos agentes patogénicos, aumentar os QIs ou as capacidades atléticas. No entanto, também foi criticada por haver o risco das bebés poderem morrer mais cedo.

A edição genética pode ser feita nas células somáticas e nas células germinativas. Estas últimas afectam todas as células dos embriões, incluindo do esperma e do óvulo, o que torna as edições hereditárias, ou seja, as características alteradas seriam passadas para os filhos dos bebés que foram editados.

Já as edições somáticas não são tão controversas, pois alteram apenas células locais no corpo, como na medula óssea.

Mesmo assim, o comité da OMS expressou reservas sobre ambos os tipos de edição genética. “Há áreas de incerteza contínuas sobre os potenciais benefícios e riscos e lacunas no entendimento científico destes domínios importantes de efeitos e riscos não intencionais a longo-prazo”, afirma Soumya Swaminathan, membro do comité.

Esta cautela vai ao encontro da posição actual da OMS no assunto. O relatório apela também à criação de uma regulação global da edição genética na OMS que incentive críticas éticas às pesquisas genéticas e a que os governos legislem limites mais restritos neste tipo de procedimentos em humanos. Outros problemas como a propriedade intelectual e a facilidade de acesso também não foram esquecidos.

Mesmo assim, não foram esquecidos os possíveis benefícios da edição de genomas, especialmente as terapias somáticas para tratar o VIH ou a anemia falciforme. “Ao mesmo tempo que a pesquisa global mergulha mais profundamente sobre o genoma humano, temos de minimizar os riscos e aproveitar as formas que a ciência tem para melhorar a saúde de todos em todo o mundo”, refere Swaminathan num comunicado.

Um dos exemplos apresentado pelo comité para realçar a importância de um acesso igualitário a este tipo de tratamentos envolve uma terapia de edição nas células somáticas para tratar a anemia falciforme num país da África Ocidental, onde a doença é comum. No entanto, a maioria da população nessa zona não tem capacidades económicas para pagar estes tratamentos.

A edição genética em humanos continua a ser uma questão controversa, mas a OMS espera que os governos mundiais tenham em conta as directrizes deste comité composto por “centenas de de participantes a representar perspectivas diversas de todo o mundo, incluindo cientistas e investigadores, grupos de pacientes, líderes espirituais e comunidades indígenas”.

  AP, ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Os chineses prenderam o cientista para não haver concorrência ao Estado. E não será o único pais. Tudo a criar “wolverines”!

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