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“É parte da nossa identidade”. Pequena cidade na Suécia luta para preservar uma antiga língua moribunda

A organização Ulum Dalska, sediada numa pequena cidade sueca chamada Älvdalen, tem uma missão. Durante décadas, os seus membros têm trabalhado arduamente para ajudar a salvar a língua elfedaliana, um remanescente do nórdico antigo.

“Tivemos a nossa primeira reunião a 1 de junho de 1984”, disse o secretário de imprensa Björn Rehnström, citado pelo The World. “E o maior salão de Älvdalen estava cheio de gente.”

A língua elfedaliana não se assemelha em nada ao sueco, que, segundo Rehnström, desestabilizou a língua há cerca de 100 anos.

Ulla Schütt, membro da Ulum Dalska, viu o impacto em primeira mão enquanto crescia em Älvdalen. “Os meus pais falavam elfdaliano entre si e com minha avó, as minhas tias e tios e todos ao redor”, disse Schütt. “Mas quando se voltavam para mim, falavam sueco.”

Segundo Schütt, os seus pais faziam isto porque o sueco era a língua que se falava nas escolas. Os alunos até era desencorajados a falar elfdaliano na sala de aula.

Agora, restam apenas cerca de 2.500 falantes. Porém, as pessoas estão a ficar criativas na luta para mudar essa tendência: a língua está a ganhar impulso no Minecraft, músicos estão a lançar novas canções com letras em elfdaliano e vários livros infantis também foram traduzidos para a língua nativa.

Além disso, Rehnström administra um grupo popular no Facebook que oferece cursos na língua elfdaliana e publica aulas para os 1.800 membros do grupo.

“[As pessoas são da] América, Austrália, América do Sul, Indonésia, Haiti, Cabo Verde”, disse. “As pessoas leem. As pessoas dizem que querem ir a Älvdalen para a ajudar a língua a sobreviver. É fantástico, porque não são apenas os entusiastas de línguas em todo o mundo, mas também as pessoas de Älvdalen que perderam a língua e a querem de volta”.

O governo local apoia o ensino e preservação do elfdaliano. Rehnström até pagou uma placa que dizia: “Bem-vindo a Älvdalen” em elfdaliano.

O idioma também é reconhecido em nível internacional. Em 2016, foi atribuído um código de idioma ISO, que ajuda a Internet a distinguir um idioma do outro.

Governo sueco rejeita elfdaliano como língua

O Governo nacional da Suécia considera o elfdaliano como um dialeto sueco – não uma língua. Falando na língua nativa, o parlamentar sueco Peter Helander perguntou recentemente ao Parlamento porquê.

Antes que a ministra da Cultura Amanda Lind pudesse responder à pergunta, o presidente do parlamento interrompeu os dois para dizer que, na câmara, só pode ser falado sueco. Helander disse que a “única observação sueca” prova o seu ponto: que o elfdaliano deve ser considerado a sua própria língua.

Esta opinião é partilhada por linguistas de todo o país, segundo Yair Sapir, professor associado de linguística escandinava na Universidade de Kristianstad.

“A distância é tão grande entre o sueco e o elfdaliano que deveria ser reconhecida como um idioma separado”, disse. “Älvdalen é bastante remota, por isso elfdaliano não foi tão influenciado pelo sueco. Devido a essa distância, manteve um caráter mais forte, e também um sentimento mais forte, entre os seus falantes, de que têm algo que é muito diferente e muito importante de preservar.”

Segundo Schütt, sempre que uma língua morre é um momento triste. Para ela, perder elfdaliano seria uma perda especialmente trágica. “É uma parte da nossa identidade. É parte da nossa cultura”, disse. “E se parte da sua identidade e cultura morre, uma parte de si morre.”

Fazer com que o elfdaliano seja reconhecido como uma língua pelo governo sueco é a chave para garantir que a morte não chega. “Se conseguirmos o reconhecimento, será muito mais fácil entrar no sistema escolar. E se quisermos ter sucesso com os nossos objetivos de revitalizar o nosso idioma, temos de ensinar a nossa geração mais jovem.”

  Maria Campos, ZAP //

 

 

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