Doentes com dengue podem ter imunidade contra coronavírus, sugere estudo

Frank Hadley Collins / Sanofi Pasteur / Flickr

Fêmea de Aedes aegypti, mosquito que pode transmitir três doenças: zika, dengue e chikungunya

Um estudo que analisou a dinâmica da covid-19 no Brasil indica que cidadãos infetados com dengue poderão desenvolver alguma imunidade contra o novo coronavírus, numa investigação que ainda não está concluída.

De acordo com o estudo, divulgado pela imprensa brasileira, os investigadores constataram que locais que tiveram muitos casos de dengue em 2019 e no início de 2020 tiveram menos infeções e óbitos por covid-19, noticiou a agência Lusa.

O estudo foi liderado pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis, professor catedrático da Universidade Duke, nos Estados Unidos (EUA), que desde o início da pandemia se dedica a estudar o comportamento do novo coronavírus no Brasil.

“Tentando procurar uma explicação, encontrei o mapa da dengue do Ministério da Saúde e, onde tinha demorado a chegar a Covid-19, como Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraná, era onde tinha muitos casos de dengue, era complementar. Encontrámos correlação inversa. Lugares com muita dengue tiveram menos casos, morreram menos pessoas e o tempo para chegarem os casos da Covid-19 foi maior”, explicou Nicolelis, citado pelo Estadão.

Segundo o investigador, é possível que as pessoas que contraíram dengue tenham desenvolvido uma defesa parcial contra o novo coronavírus.

“Fui olhar outros países do mundo. Em 2020, pelos dados de janeiro e fevereiro, seria a maior epidemia, mas a dengue começou a desaparecer quando a curva de covid-19 começou a explodir. Os dois vírus estão a competir pela mesma população de suscetíveis, mas a dengue precisa de um mosquito e a covid-19 é transmitida de pessoa para pessoa, muito mais rápido. Em África, onde existiram muitos casos de dengue, não tiveram muito de coronavírus”, analisou Nicolelis.

Na visão do professor, o estudo aponta que também há a possibilidade de que vacinas aprovadas ou em desenvolvimento para a dengue possam provocar algum tipo de proteção contra o novo coronavírus.

“Temos uma vacina japonesa para a dengue que está adiantada, em fase três. Se provarmos que existe uma proteção de 30%, 40% ou até 50%, teríamos uma vacina para uma situação de emergência para quebrar a transmissão do vírus”, afirmou.

O estudo ainda não foi publicado numa revista científica, mas está disponível no repositório de investigações medRxiv.

A dengue é uma doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, que necessita de água parada para se proliferar, e que pode causar febre alta, dores musculares intensas, mal-estar, falta de apetite, dor de cabeça, manchas vermelhas no corpo, e pode mesmo levar à morte, segundo o Ministério da Saúde do Brasil.

Angelo Carconi / EPA

Desde janeiro até agosto, foram notificados 905.912 casos prováveis de dengue no Brasil e 433 mortes, segundo dados da tutela da Saúde. Nesse período, a região centro-oeste apresentou a maior incidência, seguida da região sul. Ambas são as que têm menos casos de infeção pelo coronavírus, que foi registado oficialmente no Brasil em 26 de fevereiro.

Menos de 10% da população desenvolve anticorpos

Uma percentagem média inferior a 10% da população desenvolveu anticorpos contra a covid-19, segundo estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgados na quarta-feira, que concluem que “a maior parte da humanidade ainda é suscetível à doença”.

A diretora técnica da OMS para o estudo da covid-19, Maria Van Kerkhove, esclareceu, citada pela agência Efe, que existem centenas de estudos de soroprevalência com resultados muito diferentes e que, “por isso, é difícil chegar a conclusões categóricas, mas em princípio mostram que mais de 90% dos indivíduos permanecem livres de anticorpos”.

“Analisando estes casos coletivamente, parece que menos de 10% das pessoas mostram evidências de terem sido infetadas. Então a maioria do mundo ainda é suscetível e todos os tipos de ações continuam a ser aplicadas para prevenir o contágio”, respondeu a especialista, numa ronda de perguntas de internautas nas redes sociais.

A especialista norte-americana esclareceu que em alguns estudos com trabalhadores da saúde foram detetados percentuais mais elevados de pessoas com anticorpos, entre 20% e 25%, e em algumas áreas específicas, como por exemplo nos subúrbios de alguns países, foram obtidas soroprevalências superiores a 40%.

Van Kerkhove indicou que existem resultados diferentes nos testes de medição da resistência desses anticorpos, uma vez que algumas investigações mostram que sua eficácia contra o vírus diminui após um certo tempo, enquanto outras indicam que não.

“Em qualquer caso, com outros coronavírus que causam constipações, SARS ou MERS, está provado que os anticorpos não são permanentes, então isso também pode ocorrer com a covid-19”, concluiu a especialista.

A pandemia de covid-19 já provocou pelo menos 971.677 mortos e mais de 31,6 milhões de casos de infeção em todo o mundo, segundo um balanço da agência AFP. Em Portugal, morreram 1.928 pessoas dos 70.465 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China. Depois de a Europa ter sucedido à China como centro da pandemia em fevereiro, o continente americano é agora o que tem mais casos confirmados e mais mortes.

Lusa // Lusa

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