Cientistas portugueses detectam Parkinson com telemóveis e cintos inteligentes

O projecto de investigação europeu i-PROGNOSIS, que conta com a participação de Portugal, aposta em tecnologia wearable inteligente para detectar precocemente a doença de Parkinson. A investigadora portuguesa que trabalha neste projecto pioneiro, Sofia Balula Dias, explica ao ZAP como é que um telemóvel e um cinto inteligente podem ajudar nesta missão.

Financiado pelo Programa Horizonte 2020 da União Europeia, o i-PROGNOSIS arrancou em 2016, integrando 11 organizações de 6 países diferentes. Além de Portugal, estão também envolvidos Grécia, Bélgica, Alemanha, Suécia e Reino Unido.

Em Portugal, a equipa responsável pelo projecto integra a Faculdade de Motricidade Humana (FMH) da Universidade de Lisboa, contando com a intervenção da investigadora Sofia Balula Dias e com a coordenação do professor José Alves Diniz.

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A investigadora Sofia Balula Dias e o professor José Alves Diniz da Faculdade de Motricidade Humana.

Em entrevista ao ZAP, Sofia Balula Dias explica que o projecto tem por base a conjugação das palavras inteligente e prognóstico, visando o diagnóstico precoce e o desenvolvimento de formas de intervenção que melhorem a qualidade de vida dos pacientes, dadas as limitações progressivas que são provocadas por esta doença neuro-degenerativa.

A investigadora releva que detectar o Parkinson o mais cedo possível é a melhor forma de “atacar” a doença, dando o exemplo do actor Michael J. Fox que foi diagnosticado aos 29 anos e que, assim, teve acesso a tratamentos que ajudaram a atrasar os principais sintomas.

Escrita de SMS pode dar sinais de Parkinson

Há mais de 60 milhões de pessoas afectadas por Parkinson em todo o mundo, 1,2 milhões das quais vivem na Europa. Estudos científicos apontam a doença como “o distúrbio neurológico que mais cresce” a nível global, receando-se que possa tornar-se numa pandemia mundial nas próximas décadas.

Todavia, o diagnóstico desta doença sem cura não é fácil, já que muitos dos seus sintomas se confundem com outras maleitas, além do que podem variar de pessoa para pessoa.

Neste cenário, um dos principais desafios do projecto i-PROGNOSIS é validar cientificamente os sintomas associados ao Parkinson através do uso de dispositivos electrónicos inteligentes, como smartphones e smartbelts (cintos inteligentes) para recolha e monitorização de dados.

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Smartbelt desenvolvido pelo projecto i-PROGNOSIS.

O conceito de cinto inteligente foi desenvolvido em colaboração com a empresa portuguesa Plux, que também integra o projecto i-PROGNOSIS, e “permite perceber, através de micro-sensores, as ondas do intestino, os sons que fazem e como intervir”, revela Sofia Balula Dias ao ZAP, evidenciando que os problemas a nível intestinal estão entre os sintomas de Parkinson.

No âmbito do projecto, foi também desenvolvida a aplicação para telemóvel iPrognosis, disponível gratuitamente na Google Play Store, que permite “doar dados para esta causa”, como reforça Sofia Balula Dias, notando que possibilita a cedência de informação anónima enquanto se utiliza diariamente o smartphone.

Os dados recolhidos pela aplicação permitem analisar a fala, o movimento das mãos, bem como sintomas não motores sobre o estado de ânimo do utilizador, designadamente as expressões faciais das fotografias tiradas com o telemóvel. O objectivo é tentar identificar padrões associados ao Parkinson com recurso a algoritmos de machine learning.

“Através da escrita de uma mensagem posso detectar precocemente, posso dar um alerta e perceber que durante um ano ou meses, ao escrever no tablet, o comportamento mudou”, explica Sofia Balula Dias ao ZAP. “Tendo em conta as referências que o sistema vai ter, vai poder alertar a pessoa de que é um potencial paciente de Parkinson”, acrescenta.

“A aplicação vai permitir fazer o download de um relatório, em pdf por exemplo, para avaliar o utilizador ao nível da bradykinesia (lentidão dos movimentos), do tremor e da rigidez, sintomas super-importantes na parte do Parkinson”, refere ainda a investigadora. Os utilizadores serão monitorizados ao longo do tempo, pelo que será possível “gerar relatórios que vão permitir saber onde é que o utilizador se encontra, tendo como referências o estado saudável e a doença de Parkinson”, nota ainda.

Já foram feitos quase 1900 downloads da aplicação, mas o objectivo é chegar aos cinco mil, de modo a conseguir aumentar a amostra de dados para “comprovar o máximo de sintomas até ao final do projecto”, considera Sofia Balula Dias.

Portugal é o país com mais downloads da aplicação, a par com a Grécia”, diz ainda a investigadora. O facto de José Mourinho dar a cara como embaixador do projecto pode ter contribuído para este cenário.

Melhorar a voz dos doentes em tempo real

O projecto i-PROGNOSIS está também a desenvolver uma outra aplicação que vai permitir modelar a voz dos pacientes de Parkinson, para que soe mais natural e fluída numa conversa telefónica, por exemplo. “Em tempo real, o doente de Parkinson está a falar e a aplicação consegue melhorar a qualidade de voz ao nível das dinâmicas e da articulação do paciente”, nota Sofia Balula Dias, destacando que estes pacientes “falam com a voz arrastada e muito baixinho”.

A aplicação está a ser finalizada e será uma forma de “melhorar, em tempo real, a qualidade de vida do paciente”, contribuindo para a sua “auto-estima”, destaca a investigadora.

Uso de jogos como terapia de intervenção

A gamificação é outro dos pilares do projecto i-PROGNOSIS, com o uso de jogos para mitigar alguns dos sintomas da doença e para promover a prática de exercício físico em casa e melhorar a qualidade da dieta dos pacientes. Através de cerca de 14 jogos podem apresentar-se soluções personalizadas aos doentes a título de terapia.

O médico pode prescrever determinados jogos conforme os principais sintomas e dificuldades do paciente, explica ao ZAP Sofia Balula Dias. A título de exemplo, a investigadora nota que os exergames se focam na melhoria da actividade física, os dietarygames na nutrição, enquanto os handwriting and voice games visam melhorar a degradação associada à voz e à caligrafia e os emogames estão focados na expressão facial.

Através de testes de balanço, de agilidade e de coordenação, o médico começa por avaliar o estado do paciente, prescrevendo então os jogos mais adequados a cada caso. Depois de o paciente realizar os jogos por algum tempo, realizam-se novamente os testes para averiguar da sua eficácia.

Sofia Balula Dias destaca que este conceito da gamificação em prol da saúde tem tido grande “impacto”, frisando que os jogos têm “potencialidade” para serem “adaptados a outros contextos”. Estão já a ser utilizados vários mini-jogos relacionados com a dieta no projecto PROTEIN que também é financiado pelo Horizonte 2020 e que visa contribuir para um estilo de vida mais saudável, igualmente através de uma aplicação de smartphone.

A investigadora destaca que princípios semelhantes estão a ser usados na investigação em torno da doença de Alzheimer e está a decorrer uma candidatura ao Horizonte 2020 que pretende melhorar a qualidade de vida de pacientes de cancro através de “exergames” e “dietarygames“.

SV, ZAP //

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