Debate dos pequenos. O senhor nu e o Burundi estiveram na ordem do dia

Manuel De Almeida / Lusa

Esta segunda-feira à noite, num debate que durou mais de duas horas, reuniram-se todos os 15 partidos sem representação parlamentar. O Burundi foi estranhamente referido demasiadas vezes, destacando-se temas como a saúde e o ambiente.

Tancos foi o primeiro assunto discutido e, desde logo, dividiu opiniões entre os 15 partidos. PTP, Chega, PDR, Iniciativa Liberal, MAS, MPT, PCTP-MRPP, Aliança e RIR entendem que se deveria fazer um debate sobre Tancos na comissão permanente da Assembleia da República. Por outro lado, Nós Cidadãos!, PURP, Juntos pelo Povo, PPM, Livre e PNR recusaram essa possibilidade.

Mendo Castro Henriques, do Nós Cidadãos, defende que esta é uma questão que deve ser discutida em tribunal. José Pinto Coelho, do PNR, concordou e disse que não confia nas comissões do parlamento, que têm sempre “os mesmos enfeudados no sistema”.

Os partidos considerados “pequenos” aproveitaram esta montra para expor a sua ideologia partidária, debatendo questões fundamentais do país. Como tal, seguiu-se a crise climática na agenda de debate, que tem sido um dos temas mais abordados pelas forças políticas.

A Rádio Renascença realça que cada um dos partidos tentou explicar o porquê de a sua solução ambiental ser a melhor e acusando os outros partidos de estarem a fazer um aproveitamento da situação. “Hoje em dia todos os partidos são ambientalistas há muitos anos, mas ironicamente só agora se estão a manifestar”, disse Joacine Katar Moreira, do Livre. Já Tino de Rans, do RIR, brincou com a situação: “Só falta a comunicação social dizer que foi o André Silva que descobriu o planeta”.

O projeto do aeroporto do Montijo foi um dos problemas apontados da atual legislatura. Manuel Ramos, do Partido da Terra, elegeu como alternativas Beja e o alargamento da pista nº5 de Monte Real. Gil Gardia, do MAS, falou na desertificação do país, em que Portugal se mantém com “uma política de eucaliptal e olival intensivo a sul”.

Pobreza “é um estigma cravado no orgulho português”

Como não podia deixar de ser, o salário mínimo nacional foi obviamente alvo de escrutínio por todos os 15 partidos. Segundo o Expresso, Joacine Katar Moreira defendeu uma subida para 900 euros, remetendo para aumentos feitos noutros países. Amândio Madaleno, do PTP, vai mais longe e sugere um aumento para 1000 euros, “independentemente da Concertação Social”.

Marinho e Pinto, do PDR, apelou à necessidade de “criar uma política nacional de ordenado digno”, desde os jornalistas aos juízes. Para o político, o maior problema do país é a pobreza: “é um estigma cravado no orgulho português”, atirou.

O ex-primeiro-ministro Santana Lopes também reiterou os baixos salários em Portugal, em que mesmo os recém-licenciados recebem um salário muito baixo. O líder do Aliança realça que este é um problema que “afeta sobretudo os jovens”.

“Muitos jovens percebem que é melhor ir para o estrangeiro, porque aqui o Estado leva metade do salário”, defendeu Carlos Guimarães Pinto, da Iniciativa Liberal.

Todos os 15 participantes foram também questionados sobre as suas ações de campanha no dia anterior. “Não compareci. Não fui, de propósito, para mostrar que a migalha não chega”, atirou Amândio Madaleno. O líder do PTP explicou que o fez porque da última vez que fez algo do género, “apareceu um senhor nu”.

Fernando Loureiro esteve na Feira do Relógio, onde encontrou a comitiva do PS. “Eu estava lá com quatro pessoas. Os outros estavam doentes. E chegam quatro carrinhas SUV do PS com vidros fumados. É assim que gastam o nosso dinheiro. É uma palhaçada e as pessoas a pagar”, acusou o líder do PURP, criticando ainda os subsídios pagos aos partidos com maior votação.

Foi de André Ventura que partiram a maior parte das fagulhas. A este situação em particular, o líder do Chega disse que era “enigmático e irónico” fazer campanha contra os subsídios na Feira do Relógio. Fernando Loureiro justificou que também foi lá falar dos reformados e dos combatentes. “Já percebi o seu esquema”, rematou.

Uma saúde que não é “decente”

O estado do Serviço Nacional de Saúde foi discutido de forma acesa pelos representantes partidários. Maria Cidália Guerreiro considera a situação tão grave que até propõe eliminar a atual Lei de Bases. “Não fingir que se fez agora aquilo que já devia estar a ser feito há anos” é a prioridade da cabeça de lista pelo círculo de Lisboa do PCTP/MRPP.

De acordo com a TSF, André Ventura puxou à conversa a questão dos impostos, lembrando que os portugueses têm “a maior carga fiscal de sempre” sem terem uma saúde “decente”. E foi perentório na sua sentença: “Andamos a distribuir o dinheiro por quem não devíamos”.

Carlos Guimarães Pinto, da Iniciativa Liberal, defende que cada pessoa deve poder escolher por que médico é atendida e onde. Filipe Sousa, do JPP, confessa que não dorme descansado sabendo que há pessoas a morrer por falta de cuidados de saúde.

Santana Lopes foi mais específico e propões que “todas as pessoas têm de ter seguro de saúde”. Para o líder do Aliança, o problema estende-se também às farmácias, até porque “isto não é o Burundi” e “tem de haver medicamentos, nomeadamente para as doenças mais graves”.

Sem se saber bem porquê, Fernando Loureiro fez questão de salientar que já planeava falar do Burundi antes de Santana o fazer. “Isto não é, de facto, o Burundi”, reiterou.

Reformas? “Parece quase o Burundi”

O país africano voltou a estar em destaque, mas desta vez na parte económica e financeira. Quando convidados a falar dos impostos e das reformas, Fernando Loureiro voltou a trazer à baila o mesmo país: “Reformas de 200, 300 euros num país europeu? Isto parece quase o Burundi”.

Tino de Rans defende uma perspetiva semelhante, garantindo que “não gostava de ser primeiro-ministro de um país onde há pensões de 160 euros”. O MAS e o PTP propuseram uma descida da idade da reforma, com o Partido Trabalhista Português a especificar a idade de 60 anos — sem penalizações.

O Chega defende uma visão mais radical em relação aos impostos e propõe acabar com o IMI, que considera ser “o imposto mais estúpido do mundo”. A Iniciativa Liberal defende que “alguém que paga tanto em impostos, deve poder escolher como quer usufruir dos direitos públicos”. Para Filipe Sousa, do JPP, o fundamental é “emagrecer a máquina do Estado, trabalhando do lado da despesa”.

As medidas dos 15 partidos foram apresentadas e as críticas ao Governo foram feitas, mas os representantes partidários já sugeriram com quem formariam Governo em caso de eleição. RIR, Nós Cidadãos, PURP e PPM dão para os dois lados da moeda — mostrando-se disponíveis para negociar tanto com o PS como com o PSD.

O Aliança mostra preferência pelos sociais democratas, enquanto o MPT, o Livre e o MAS preferem os socialistas. Há, no entanto, quem não queira nada a ver com as duas “maiores” forças. PNR, PCTP, PDR, Chega e Iniciativa Liberal a recusarem um acordo com qualquer um dos dois.

DC, ZAP //

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3 COMENTÁRIOS

  1. Assisti aos confrontos dos 15 participantes, o que posso dizer é que entre algumas ideias “sérias” e outras mais “exóticas”, diverti-me imenso com alguns(as) actores . A Jornalista M. F. Pedroso teve dificuldade em lidar com alguns “ferrenhos”.

    • Assistiu aos confrontos dos 15 participantes?! Teve tempo para isso tudo?! É funcionário público? Está reformado ou é socialista e familiar de algum membro do governo?!

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