E quando o Dalai Lama morrer? A sua reencarnação pode gerar uma crise religiosa na Ásia

Serjao Carvalho / Flickr

O Dalai Lama, a figura budista viva mais conhecida no mundo, disse que, quando fizesse 90 anos, decidiria se deveria reencarnar, potencialmente encerrando um papel que foi fundamental para o budismo tibetano durante mais de 600 anos, mas que, nas últimas décadas, se tornou um pára-raios político na China. 

O 14.º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, de 85 anos, está de boa saúde, mas a sua idade avançada já começa a levantar questões sobre a sua sucessão, juntamente com receios de que a sua morte provoque uma crise religiosa na Ásia.

Depois de uma revolta mal-sucedida contra a ocupação chinesa do Tibete em 1959, o Dalai Lama fugiu para a Índia, onde estabeleceu um governo no exílio em Dharamsala, liderando milhares de tibetanos que o seguiram até lá. Embora o Dalai Lama originalmente esperasse que o seu exílio fosse apenas temporário, o controlo de Pequim sobre o Tibete só ficou mais forte, tornando o retorno improvável.



Hoje, Pequim vê o Dalai Lama como um separatista com o objetivo de separar o Tibete da China e, portanto, deseja que a próxima reencarnação se alinhe com os seus próprios objetivos políticos.

Desde 1974 que o Dalai Lama não procura a independência da China para o Tibete, mas sim uma “autonomia significativa” que permitiria ao Tibete preservar a sua cultura e herança.

Ao longo dos anos, o Dalai Lama apresentou uma série de opções para a sua reencarnação, incluindo escolher um novo sucessor na Índia em vez de no Tibete – e até brincou com a ideia de uma mulher assumir o papel.

No entanto, segundo a CNN, especialistas acreditam que, independentemente do que escolher, a China quase certamente escolherá um novo Dalai Lama no Tibete, que deverá apoiar o controlo do Partido Comunista Chinês (PCC) na região. Isso poderia levar à escolha de dois Dalai Lamas separados – um na China e outro na Índia.

A história de Dalai Lama

Dalai Lama reencarnou 13 vezes desde 1391, quando o primeiro dos seus encarnados nasceu. Habitualmente, é usado um método secular para encontrar o novo líder.

A busca começa quando o Dalai Lama anterior morre. Às vezes, é baseado em sinais que a encarnação anterior deu antes de morrer, outras vezes um monge ou sacerdote que ensina o budismo vão a um lago sagrado no Tibete, Lhamo Lhatso, e meditam até ter uma visão de onde procurar o sucessor.

Em seguida, enviam grupos de busca por todo o Tibete, em busca de crianças que são “especiais” e nascidas um ano após a morte do Dalai Lama, explica Ruth Gamble, especialista em religião tibetana da Universidade La Trobe. “Essas pessoas têm a grande responsabilidade de acertar na escolha”.

Assim que são encontrados candidatos, as crianças são testadas para determinar se são a reencarnação do Dalai Lama. Alguns dos métodos incluem mostrar objetos que pertencem à encarnação anterior.

De acordo com a biografia oficial do 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso foi descoberto quando tinha dois anos. Filho de um agricultor, o atual Dalai Lama nasceu numa pequena vila no nordeste do Tibete, onde 20 famílias lutavam para viver da terra. Quando criança, reconheceu um monge que se tinha disfarçado para observar as crianças locais e identificou vários objetos pertencentes ao 13º Dalai Lama.

Porém, a reencarnação do Dalai Lama nem sempre é encontrada no Tibete. O quarto Dalai Lama foi encontrado na Mongólia, enquanto o sexto Dalai Lama foi descoberto no que é atualmente Arunachal Pradesh, na Índia.

Tibete vs China: O que vão fazer?

De momento, não há instruções oficiais a estabelecer como ocorrerá a reencarnação do Dalai Lama, caso morra antes de regressar ao Tibete. Porém, numa significativa declaração de 2011, o 14.º Dalai Lama disse que “a pessoa que reencarna tem autoridade legítima exclusiva sobre onde e como renasce e como essa reencarnação deve ser reconhecida”.

O Dalai Lama acrescentou que, se escolher reencarnar, a responsabilidade de encontrar o 15.º Dalai Lama recairá sobre o Gaden Phodrang Trust, um grupo na Índia que fundou após ir para o exílio para preservar e promover a cultura tibetana e apoiar o povo tibetano.

Dalai Lama disse que a sua reencarnação deveria ser realizada “de acordo com a tradição passada”. “Vou deixar instruções claras por escrito sobre isso”, disse.

O que se tornou cada vez mais claro é que é improvável que a reencarnação aconteça no Tibete, uma área que o Gaden Phodrang Trust não pode aceder, especialmente após a contestada reencarnação do Panchen Lama nos anos 1990.

Após a morte de 1989 do 10.º Panchen Lama, a segunda figura mais importante do budismo tibetano, Dalai Lama nomeou a criança tibetana Gedhun Choekyi Nyima como a sua reencarnação. Porém, três dias depois de ter sido escolhido, Gedhun e a sua família desapareceram e a China nomeou um Panchen Lama alternativo. Gedhun nunca mais foi visto em público.

Já o Governo chinês telegrafou publicamente as suas intenções para a reencarnação de Dalai Lama – acontecerá no Tibete e será de acordo com os desejos de Pequim.

Em 2007, o Departamento de Assuntos Religiosos do governo chinês publicou um documento que estabelecia “medidas de gestão” para a reencarnação de Budas tibetanos vivos.

O documento revelava que as reencarnações de figuras religiosas tibetanas devem ser aprovadas pelas autoridades governamentais chinesas, e aquelas com “impacto particularmente grande” devem ser aprovadas pelo Conselho de Estado, o principal órgão da administração civil da China.

Existem poucos detalhes sobre o processo de reencarnação no documento do governo chinês, exceto para reconhecer o chamado processo de “urna de ouro”, que foi introduzido no Tibete pela Dinastia Qing na década de 1790 e vê os nomes de possíveis crianças candidatas colocados numa pequena urna dourada e selecionada ao acaso.

De acordo com os media estatais chineses, o processo foi implementado para ajudar a “eliminar práticas corruptas” na escolha das reencarnações.

Segundo os especialistas, nos últimos anos, Pequim tem selecionado e preparado um grupo de monges séniores amigos de Pequim, que, quando chegar a hora de escolher, podem fazer parecer que  foram líderes religiosos budistas a escolher o novo Dalai Lama  — em vez do Partido Comunista Chinês.

Maria Campos //

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2 COMENTÁRIOS

  1. O Dalai Lama está condenado a morrer como qualquer mortal e cair no esquecimento, o Tibete está ocupado pelos chineses e estes jamais de lá sairão, é o preço a pagar pelo colonialismo desenfreado de certos países! O mundo vai vendo e calando!

  2. Pergunto-me se o Dalai Lama será realmente iluminado ao ponto de poder dizer se irá reencarnar ou não, ao se não será antes o fruto do sistema religioso tibetano convencional, que não pode sobreviver sem este tipo de crenças. Quanto a um eventual Dalai Lama escolhido pelos Chineses, será evidentemente uma fraude. Sejamos realistas: só um grande milagre poderia devolver o Tibete ao seu povo e ao sistema monacal… Face ao crescente poder da China Popular nas últimas décadas, isso será altamente improvável.

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