“Dados de refugiados eram exigidos pelo SEF e autarquia”, diz casal russo

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Viet-hoian1 / Wikimedia

Câmara Municipal de Setúbal.

Igor Khashin garante que não é espião russo e que não enviou dados para qualquer autoridade russa, incluindo a embaixada.

O casal russo envolvido no acolhimento dos refugiados ucranianos em Setúbal diz que os documentos solicitados eram para a autarquia e para o pedido de proteção temporária ao SEF, assim como as perguntas sobre o agregado familiar.

Em entrevista aos jornais Setubalense e Público, Igor e Yulia Khashin sublinharam que o atendimento de refugiados era intermediado por um técnico da autarquia, no âmbito do atendimento social.

“Estávamos sempre acompanhados por uma portuguesa. Era ela quem preenchia os formulários. Foram tiradas fotocópias do passaporte e da certidão de registo de proteção temporária, que foram juntas ao processo e guardadas na câmara”, relata Yulia Ksashin.

A mulher de Igor Khashin justifica ainda que “a digitalização é feita para carregar na plataforma do SEF, para fazer o pedido de proteção temporária”.

Temos de digitalizar os documentos e anexar na plataforma. As questões, colocadas pela plataforma do SEF, e não por nós, são o nome da mãe, nome do pai, local de nascimento, agregado familiar. Tem de ir tudo preenchido”, afirma.

Igor e Yulia Khashin já tinham referido anteriormente que os processos, fisicamente, em papel, eram guardados no gabinete da câmara e que o único sítio para onde foram encaminhados foi para o Instituto de Emprego e Formação Profissional, para inscrição no curso de português.

Igor garante que não é espião russo e que não enviou dados para qualquer autoridade russa, nem para a embaixada.

Insiste também que, mesmo quando falavam com as pessoas sobre a família, era porque muitas perguntavam como é que os familiares podiam sair da Ucrânia.

O russo adianta que participou no acolhimento de refugiados ucranianos porque só assim conseguia mostrar a sua vontade de apoiar as pessoas.

Tudo começou de repente“, lembra. Ninguém estava preparado para o que sucedeu e Igor explica que aproveitou a experiência e o trabalho desenvolvido naquela área para ajudar.

“Nós moramos cá há mais de 20 anos, a nossa associação foi fundada em 2002 para dar resposta às necessidades dos imigrantes, trabalhamos com todos. A maior parte da associação são imigrantes do Leste, sendo a maioria ucranianos, moldavos e russos. Mas russos são muito poucos”, acrescenta.

Quando questionada sobre se falava com os refugiados em russo, Igor Khashin diz que sim, mas que percebe ucraniano.

Recorda ainda que no Leste da Europa, o russo “é praticamente como o inglês na Europa ocidental”, uma “língua de comunicação, de instrumento“.

“Nós nem pensámos nessa questão, de quem vai atender os refugiados, se russos ou ucranianos. Não pensámos mesmo. Havia uma situação de urgência que ninguém esperava”, acrescenta Yulia.

Tudo foi feito “com boa intenção”

Sobre como explica ter sido dirigente do Conselho de Compatriotas Russos, Igor diz que geria o conselho em Portugal há quatro anos e que “é igual ao Conselho das Comunidades Portuguesas”.

“O objetivo deste conselho não é mais nem menos que o mesmo que faz o Estado português. Há a Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas. Este trabalho é o que faz qualquer Estado. Quando recebia o convite para participar em conferências, eu ia e trazia as necessidades e as questões dos imigrantes”, justifica.

O casal conta ainda que a associação que fundou atendeu milhares de imigrantes nos últimos 20 anos, a maioria ucraniana, “porque é a comunidade mais representada”.

De acordo com o casal russo, tudo foi feito “com boa intenção e de acordo com todos os procedimentos estabelecidos”.

“Ficámos numa situação em que nós é que temos que provar que não somos maus. Fiquei chocada”, desabafa Yulia. “O nosso trabalho de 20 anos foi destruído num dia”, lamenta ainda.

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Ambos dizem ver a guerra na Ucrânia como “uma tragédia” e, quanto à investigação da judiciária, Igor responde: “A Judiciária faz o seu trabalho, que faça o que deve fazer, nós não temos nada a esconder“.

PJ de Setúbal vai chamar Igor

A investigação ao casal russo começou agora. Para já, não está formalmente sob suspeita e serão realizadas mais buscas em breve.

Igor e Yulia Khasina vão ser inquiridos pela Polícia Judiciária de Setúbal, que esta semana fez buscas na Associação dos Emigrantes de Leste (Edinstvo), e nas instalações da Linha Municipal de Apoio a Refugiados (LIMAR) da Câmara Municipal de Setúbal. A habitação de Khashin não foi alvo de qualquer operação.

Uma fonte policial contactada pelo Expresso não quis adiantar o timing destas inquirições — “depende muito do desenrolar da investigação“.

No entanto, a fonte sublinha que, para já, os dois russos não são considerados suspeitos para a polícia. Depois de serem ouvidos pela PJ, podem sair já com um novo estatuto — o de arguidos.

O inquérito da PJ e do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Setúbal foi aberto já depois da notícia do Expresso de há duas semanas, que revelou as denúncias de refugiados ucranianos sobre o casal russo.

Por enquanto, estão a ser investigados crimes de utilização de dados de forma incompatível com a finalidade da recolha, acesso indevido e desvio de dados — os três previstos na Lei de Proteção de Dados Pessoais, que podem dar origem a uma pena de um ano de prisão, que pode vir a ser agravada.

As fontes judiciais ouvidas pelo Expresso não colocam de lado a hipótese de a investigação criminal poder avançar da violação de dados pessoais para o crime de espionagem, com uma moldura penal mais pesada.

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“Pelo menos por agora, é prematuro dizer que o inquérito vá encaminhar-se nessa direção”, diz fonte próxima do processo.

“Incomodado em sentir um clima de caça às bruxas relativamente a cidadãos russos”, o próprio primeiro-ministro referiu nas declarações que fez esta quarta-feira que “espionagem é crime“, se for essa a conclusão das investigações.

O advogado João Nabais considera que, “no limite”, pode haver crime de espionagem no caso de Setúbal. “Isto se se vierem a provar suspeitas mais profundas do que as que existem atualmente contra Igor Khashin”.

  Alice Carqueja, ZAP //

3 Comments

  1. Sabe-se lá se não era mesmo a autarquia que queria saber dessa informação para lhe dar o mesmo destino que a CMLisboa dava à informação recolhida dos manifestantes que faziam actividades na capital?!…
    Quem me diz a mim que esse casal russo não está a ser molestado para salvar a face de quem tem, mesmo, a culpa…

    • Sou levado a concordar consigo, conhecendo eu razoavelmente a postura da classe política portuguesa!
      Procuram sempre “bode expiatório” para os erros que cometem.

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