Crianças castigadas em creches do Luxemburgo por falar português

esaldivar / Flickr

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Creches e centros de actividades de tempos livres públicos no Luxemburgo estão a punir crianças que falem português, uma decisão se estende aos funcionários imigrantes no país.

“Foi-nos dito que não podíamos falar português com os miúdos e que eles também não podiam falar português entre eles, é uma regra da casa”, diz uma funcionária portuguesa de um estabelecimento público em Esch-sur-Alzette.

A direção do estabelecimento onde trabalha, que inclui uma creche, proíbe expressamente os educadores e auxiliares portugueses de falarem com as crianças na sua língua materna, uma proibição que se estende também às conversas entre os menores, quase todos de origem portuguesa.

As línguas autorizadas neste ATL onde as crianças passam entre “quatro a seis horas por dia”, fora do horário escolar, estão indicadas num painel “feito em conjunto” com os menores no início do ano, e limitam-se aos três idiomas oficiais do país: francês, luxemburguês e alemão.

Este não é o único estabelecimento no Luxemburgo onde vigora a proibição de falar português.

Em Rodange, também no sul do país, a interdição aplica-se nos infantários e na escola primária, disse à Lusa Manuel Santos, com um filho de sete anos.

Proibição vem do infantário

No mês passado, a criança foi castigada com trabalhos de casa suplementares por ter falado em português com um colega, durante uma visita da turma do 2º ano da escola primária de Rodange à capital, para ver um concerto de música clássica.

“Falou na rua, não foi na sala de aulas”, queixa-se o pai. “Achei uma injustiça numa classe em que são quase todos portugueses, é normal que falem a língua dos pais, e só não reclamei porque tenho quase a certeza que o miúdo ia ser prejudicado“, diz Manuel Santos.

Mas a proibição de falar português já vem do jardim de infância, garante o imigrante, a viver no Luxemburgo há quase 12 anos. “No infantário era a mesma coisa, nem nós pudemos falar em português com as empregadas, que são portuguesas, e as crianças também não”.

Em Esch-sur-Alzette, a proibição de falar outras línguas aplica-se a todas as crianças no ATL, que acolhe meninos dos três meses de idade aos 12 anos, diz à Lusa a funcionária de origem portuguesa.

“Na creche, as educadoras são um pouco mais flexíveis, mas a proibição existe na mesma”, conta a funcionária portuguesa.

“Facilitam mais e não se importam que falem em francês em vez de luxemburguês, pelo menos no início do ano”, explica, frisando que apesar de o Luxemburgo ter três línguas oficiais, “há uma exigência de falar luxemburguês em primeiro lugar“.

Sistema de castigos

Para garantir que a proibição é cumprida, o ATL tem um sistema de castigos que vão da separação das crianças que falem português entre si até ao isolamento.

“Há o castigo de os separar” para “não poderem falar entre eles, ou o isolamento numa mesa em frente ao escritório dos funcionários”, explica.

Nas saídas de grupo, a punição pode mesmo chegar à imobilização forçada. “Se vamos a caminho do parque ou da escola, há o castigo dos cinco minutos sentados. A criança que falou português tem de se sentar ou ficar quieta durante cinco minutos”, conta.

No ATL há apenas dois meninos luxemburgueses: os restantes, cerca de meia centena, são portugueses ou cabo-verdianos, e os castigos são aplicados “diariamente”, garante a funcionária.

Falar às escondidas

A imigrante portuguesa diz que “compreende” a proibição, porque acredita que pode ajudar as crianças “a falarem melhor luxemburguês”, mas há ocasiões em que admite que fala português “às escondidas”.

“Eu própria falo português com as crianças, mas um bocadinho às escondidas, porque às vezes é mais fácil para elas comunicarem e porque precisam de afeto, e é mais fácil transmitir esse carinho na língua que elas compreendem”, confessa a funionária.

“Eles vêm-me perguntar: ‘Posso-te dizer em português, porque não sei em luxemburguês?’, e eu digo que sim, ‘mas baixinho’“.

O ministro da Educação do Luxemburgo anunciou em Julho a intenção de criar creches gratuitas bilingues, em francês e luxemburguês.

O objetivo, disse Claude Meisch ao l’Essentiel, é evitar que “as crianças de origem portuguesa, francesa ou servo-croata frequentem creches privadas onde o pessoal só fala francês”, de modo a que aprendam também luxemburguês, um dialeto frâncico-moselano reconhecido como idioma oficial do país em 1984.

/Lusa

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17 COMENTÁRIOS

  1. Português: língua falada por 250 milhões de passoas!
    Luxemburguês? Uma língua praticamente desconhecida apenas falada no grão ducado, talvez no máximo por 1 milhão de pessoas! Será que nos querem roubar, além da História também a língua! É isto a UE?

  2. Eu não vejo mal nenhum na situação, e não compreendo o porquê destes indignados,
    tal diretiva, obriga a um esforço suplementar para falar a lingua, e não minimiza intelectualmente ninguem, eu ainda me lembro quando no liceu era proibido falar português nas aulas de lingua estrangeira, e ainda estamos vivos.
    Depois como se isso não bastasse, que eu saiba ninguem foi condenado em tribunal para ir viver para o luxemburgo, e era só o que faltava que fossem os convidados a fazer as regras em minha casa.
    Realmente vai ser dificil sairmos deste marasmo, uma grande franja do nosso povo ainda tem muito que evoluir

  3. Não vês mal nenhum e não compreendes?!
    Uma criança ser punida por falar português com outra, NA RUA?!
    Espero que estejas a brincar, senão…

    Evoluir?!
    Descriminação e falta de respeito, são evolução?!
    Parece-me que tu é que precisas de evoluir…

    Mas, alguma vez em algum país minimamente civilizado, alguém é castigado por falar noutra língua que não a oficial?!
    Só mesmo numa amostra de país (que quer impor uma língua que não interessa a ninguém!) e que vive à custa do dinheiro “roubado” aos países vizinhos, com sedes de empresas que deviam estar a pagar impostos nos seus respectivos países…
    Uma vergonha…

  4. Acho muito bem. Por cá havia de existir a mesma regra, só podem falar Português de Portugal. O sistema de castigo para quem não cumprir-se, era logo expulso de Portugal.

  5. Isso é realmente indigno de um povo que é supostamente elevado culturalmente. Deviam é de ser expulsos da UE. Quanto aos que não concordam, lembro-vos que há 50 anos atrás o Mirandez (que hoje é a segunda língua OFICIAL de Portugal) era perseguida pelo aparelho do estado. As pessoas estavam até proibidas de tentar ensina-la aos seus filhos em casa. Hoje, por ironia do destino, é a segunda língua oficial em Portugal. A supressão de uma cultura é UM ACTO CRIMINOSO.

  6. Eu contristado, não posso deixar de achar alguma piada a quem esgravata na ansia de se poder agarrar a qualquer coisa para dizer mal daquilo que invejam e não podem ter qual fábula da raposa e das uvas, isto para quem se lembre, “estão verdes, não prestam”
    se bem li, não é proibido falar qualquer lingua estrangeira no país em questão e a punição passa por uns trabalhos para casa suplementares. Mas não, que leia estes comentários parece que as crianças são maltratadas zurzidas e por aquele povo atrazado selvagem e remoto sem principios nem cultura, diria mais a necessitar que nós os levemos para o bom caminho que os civilizemos que os ensinemos a produzir e tratar bem o seu povo etc etc etc.
    Por favor tenham dó
    Não sabemos cuidar e nós proprios, obrigando pessoas a ir mendigar uma forma de ganhar a vida e depois dizemos mal de quem nos acolhe, olhemos para as barbaridades que se cometem neste cantinho e usem essa energia para as tentar corrigir, de forma a que os nossos netos não tenham que se sujeitar a isto.

  7. Parece-me tao normal como proibir 10 alunos ukranianos a falar ukraniano numa aula de portugues em portugal. Os media são fantasticos na arte da dramatização de uma situacao. Se nao houver proibicoes quando as situações são extremas vamos nos deparar com guetos e falta de integração. Parem de se vitimizar. O discurso de uma das lingua mais falado do mundo e uma tanga!! No luxemburgo nao se fala e posso citar de mais de uma centena de paises onde nao se fala!!!

  8. Oh Joaquim, já que achas normal e os admiras tanto, vai para lá limpar-lhes as sanitas que eles agradecem!! E podes comprar logo um BMW… não podes é falar português…
    Lá por tu não teres qualquer honra ou dignidade, não queiras que os outros sejam “fracos” como tu!!
    Se não sabes cuidar de ti “próprio”, fala por ti, e, não penses que todos os portugueses são como tu!
    As barbaridades que se cometem aqui (ou noutro lado qualquer do mundo), não desculpam a barbaridade, falta de cultura, civismo e até respeito que é punir uma criança por falar português (a sua língua materna) numa qualquer rua de qualquer país do mundo!

    Se estás preocupado com os “netos” devias começar por defender a sua língua e a sua cultura, e, criticar que não respeita isso!!
    Não é certamente sendo um covarde (que chega ao ponto de dizer que é normal proibir alguém de falar a sua própria língua) que os “netos” vão viver melhor!!

    Isto até é passível de uma queixa no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem-TEDH (que, pelo teu “discurso”, duvido muito que saibas o que é)!!

  9. Caro ASAS
    Nunca gostei de BMW, prefiro o meu Citroen C6 e quanto a limpar merda, tenho tipos ao dispor como tu e agora a bom preço que mo façam, e até fazem fila.
    Quando chegares aqui e me disseres que chegaste ao fim do dia, fizeste uma analise de consciencia e ganhaste o jantar, estaras em condições de falar comigo, até lá vai-te mantendo ressabiado e educa os teus filhos no mesmo caminho que bem precisamos, sempre escusamos de importar quem me limpe a merda, e falam portugues

  10. acho engraçado ao comentario do sr joaquim estamos a falar de crianças e olhe para nos todos vem para portugal e tambem nao falam a nossa lingua e nos e que falamos a lingua dos estrangeiros por isso sr joaquim os estrangeiros ja ditam a lei deles no seu portugal……………………. e os nossos quando vao la pra fora sao obrigados a falarem a lingua do pais e agora isto ate ja se poe crianças de castigo entao vamos la vamos por todos os adultos portugueses do nosso pais de castigo quando fala a lingua do estrangeiro no nosso pais …………….

  11. Isto de castigar as crianças por causa de falar a sua língua materna, a que apenderam em casa, cheira-me a doença mental… Se querem promover a língua local – e não vejo problema nisso – devem usar outros métodos e de preferência mais humanos e afectivos. A violência, seja ela afectiva, material ou espiritual, não nos leva a lado nenhum. Os países ditos “civilizados” e respeitadores dos Direitos Humanos, ainda têm muito a aprender e, sobretudo, devem-se humanizar cada vez mais. O amor e o respeito não são teorias mas vida prática, sobretudo com os mais pequeninos…

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