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Covid-19. Recorde diário de casos, rastreios em atraso e urgências saturadas. Como chegámos aqui e o que se segue?

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Giuseppe Lami / EPA

Os últimos dias de 2021 e os primeiros de 2022 serão de grande pressão para os vários membros do Serviço Nacional de Saúde, que enfrentam uma variante mais transmissível da covid-19 que todas as anteriores, mesmo com quase a totalidade da população vacinada.

Portugal atingiu ontem, dia 28 de dezembro, o número máximo de casos diários de infeção por covid-19 desde o início da pandemia: 17.172. A marca, convém dizer, regista-se num momento epidemiológico particular no país, já que o número de testes realizados nunca foi tão elevado — têm sido batidos sucessivos recordes para o número de testes antigénio e PCR feitos, sendo desconhecido qual o universo de autotestes realizado em contexto doméstico — e o número de óbitos manteve-se significativamente abaixo dos valores registados a 28 de janeiro, quando morreram 303 pessoas e o boletim diário da Direção Geral da Saúde anunciava 16.432 novos casos — sendo a vacinação a justificação mais óbvia para esta diferença nos níveis de letalidade.

No entanto, outro fator que no início do presente ano não existia e que atualmente pode ser determinante tem que ver com a variante Ómicron e o seu perfil mais transmissível, à luz da pouca informação que já é conhecida sobre a estripe, mas tendo por base a subida drástica do número de casos não só em Portugal, mas noutros países onde chegou mais cedo, como o Reino Unido ou a Dinamarca. Para além da transmissibilidade — que contribuiu para um maior número de infetados —, outro dado que parece já ser possível apontar sobre a Ómicron são os seus sintomas mais leves, o que pode levar a uma maior confusão, nos sintomas, com o vírus da gripe ou até constipações.

Perante estes dados, e quatro dias passados das reuniões do Natal, qual é o cenário que Portugal enfrenta? De acordo as notícias recentes, o país deve ter, na primeira semana de janeiro, cerca de 37 mil novos casos diários de covid-19, as urgências das unidades estarão sobrecarregadas e os atrasos que se têm vindo a registar nos rastreamentos fazem com que as cadeias de transmissão não estejam a ser interrompidas e, consequentemente, os contágios prossigam face ao não isolamento dos contactos.

Cerca de 37 mil casos diários na próxima semana, avança Marta Temido

De acordo com as previsões matemáticas das autoridades de saúde, é provável que o número de infeções registado ontem seja largamente batido já na próxima semana, com a ministra da Saúde a apontar para a marca dos 37 mil casos — com a ressalva de que também esta marca poderá ser ultrapassada, uma vez que as previsões apontavam os 17 mil casos registados ontem apenas para daqui a dois dias. Ou seja, o país regista níveis de transmissão mais acelerados do que previsto pelos matemáticos que colaboram com o Governo. “O número dos 17 mil seria atingido, nas estimativas, apenas a 29 de dezembro. Atingimos antes. Vale a pena sublinhar que com os modelos que dispomos iremos atingir os 37 mil casos na primeira semana de janeiro”, disse Marta Temido.

Em entrevista à Sic Notícias, a ministra da Saúde sublinhou o desconhecimento que ainda existe relativamente à variante Ómicron e às suas consequências e destacou o número de novos casos está a duplicar “a cada oito dias“. “Tomámos as medidas na quinta-feira da semana passada e na altura muitas vozes consideram excessivas. É um equilíbrio difícil. A proteção da vacina permite-nos atenuar a letalidade, estamos protegidos; a responsabilidade está na mão de cada um, mais do que na atuação do Estado. Fomos ao limite da proporcionalidade das medidas impostas. É uma sociedade madura”, apontou.

SNS24 bate recordes diários de chamadas e uma nova estratégia vai ser necessária

A linha telefónica de apoio ao Serviço Nacional de Saúde (SNS24), o primeiro recurso para os cidadãos que estiveram sujeitos a contactos de risco ou que testaram positivo num autoteste, está também a bater recordes sucessivos de procura, tendo registado esta segunda-feira mais de 72 mil chamadas, um novo máximo diário. Há dias que a situação andava a ser reportada nos meios de comunicação social, mas na última semana tudo piorou face ao crescente número de contactos de cada indivíduo, comuns nesta altura festiva do ano.

Para tentar dar resposta à onda de chamada, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, em parceria com a DGS e a Altice, vão formar e contratar mais 750 profissionais, os quais devem estar no ativo até ao final de janeiro — o que corresponde a um aumento de 15% na capacidade de resposta. De acordo com o jornal Público, existem atualmente cinco mil profissionais de saúde encarregues de tarefas como a triagem de chamadas ou encaminhamento de pessoas. Para além deste reforço de meios (que deverá ocorrer no call center de Coimbra, recém aberto, e no de Beja, ainda por abrir), outra solução passará pelo “atendimento automatizado” — mecanismo que já fora utilizado anteriormente e que agora será usado para emitir declarações de isolamento e dar resposta a requisições de testes.

Questionada sobre este problema, Marta Temido esclareceu que o Ministério tem feito uma “procura ativa de meios”, a qual está condicionada pelas várias áreas em que é travada a luta contra a covid, ou seja, vacinação, testagem, rastreamento — sem esquecer a atividade não-covid. “O que neste momento acontece é que temos vários níveis de procura de prestadores de cuidados de saúde, na vacinação, nos hospitais, nas áreas dedicadas a doentes respiratórios, nos testes, na Linha Saúde 24, nos rastreios e, portanto, os profissionais de saúde não cresceram exponencialmente à medida que está a crescer exponencialmente a necessidade dos serviços que prestam”, lamentou Marta Temido.

Como tal, apontou, “não basta ter disponibilidade para contratar é preciso também que essa disponibilidade se concretize em respostas efetivas e isso nem sempre é fácil”.

Apesar da elevada procura nos últimos dias, com muitas chamadas sem resposta, a ministra da Saúde ressalva que os próprios serviços da linha SNS24 estão a bater recordes no que concerne à emissão ditas declarações de isolamento profilático e aos pedidos de requisição de testes. De acordo com os dados oficiais, citados pelo Público, foram emitidas desde o início do mês e até esta segunda-feira quase cinco vezes mais requisições de testes e um número de declarações provisórias de isolamento profilático “três vezes e meia” superior à última semana de novembro. Isto traduz-se em 275.772 requisições de testes, das quais 119.629 na última semana e 29.063 na segunda feira.

Falta de resposta do SNS24 com impacto nas urgências

Perante a falta de resposta da linha SNS24, o comportamento de muitos cidadãos com sintomatologia semelhante à provocada pela covid-19 ou até com infeções confirmadas por autotestes tem sido recorrer às urgências, o que os especialistas consideram “normal“. “As pessoas procuram soluções e as soluções são as portas abertas. É a natureza humana”, explicou ao Público Bernardo Gomes, médico de saúde pública.

Marta Temido já reconheceu a gravidade da situação, admitindo que, “em alguns casos”, já foi necessário suspender a  atividade assistencial não-covid, não afastando a hipótese de o mesmo ser necessário num universo mais alargado. “Em alguns casos foi necessário suspender a atividade assistencial, não está fora de hipótese a necessidade de suspensão de outras linhas, mas neste momento estamos a tentar equilibrar o melhor possível todas as áreas”, explicou a responsável.

Também aqui, a ministra da Saúde reconhece que é “muito difícil encontrar o justo equilíbrio entre tantas necessidades que concorrem umas com as outras”. “E a circunstância de a Linha Saúde 24 estar neste momento com dificuldades pode dificultar essa gestão de fluxos e, por isso, é que estamos a introduzir medidas na Linha Saúde 24″. Em números concretos, as urgências do Hospital de Santa Maria receberam 150 atendimentos no domingo e 130 a 140 na segunda-feiro — o que representa mais do dobro face à semana anterior e triplo relativamente a meio do mês (média de 50).

No entanto, nota o Expresso, dos quase 300 atendimentos registados nas últimas 24 horas nas urgências daquela unidade hospitalar, apenas dez resultaram em internamento. O cenário é idêntico no Hospital de São João, segundo o Público, onde a urgência recebeu na última segunda-feira 604 doentes, sendo que destes “cerca de 250 não eram urgentes”. Nelson Pereira, diretor do serviço, descreveu o dia como “o segundo pior da última década“.

Nova estratégia ou fase à vista?

Perante as novas características da variante Ómicron — mais transmissível e menos severa — já há especialistas e profissionais de saúde que admitem a hipótese de uma nova estratégia de combate ao vírus, também considerando os níveis de sobrecarga das unidades hospitalares. Nelson Pereira foi um dos que o admitiu ao Público, sublinhando que não vê que existam “recursos humanos para conseguir acompanhar em termos de rastreadores, isolamentos de casos, vigilância, etc”.

O clínico reconhece que “não vai ser possível lidar com a situação como lidamos nas outras vagas de covid-19. Vai ser preciso mudar de estratégia, começar a simplificar procedimentos. Já estamos a bater recordes e isto vai estourar onde menos devia estourar, nas urgências, que são o elo mais fraco“.  Nelson Pereira fala ainda no “momento em que se entra em mitigação e se começa a tratar [os casos ligeiros] como uma gripe e quem tiver sintomas ligeiros fica em casa

Não teremos que andar a testar toda a gente. As pessoas podem continuar a fazer os auto-testes mas a certa altura não vai ser possível andar atrás de todos os contactos. Porque, para fazer isso, vamos pôr em causa todo o resto“, considera. Esta possibilidade é também admitida por Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, para quem “não é humanamente possível” continuar com a mesma estratégia caso não se integrem mais recursos.

A pandemia da covid-19 pode estar mesmo a entrar numa nova fase no que respeita à sua gestão, sendo este um cenário confirmado por Marta Temido, que reconheceu que o tipo de respostas a preparar é “distinto“, avançado que irão decorrer contactos com os responsáveis dos ministérios de vários países, como Espanha, Itália, França, para se perceber quais os próximos passos relativamente às “realidades que são novas e exigem abordagens novas“.

Entre as novas abordagens incluem-se a proposta pelo epidemiologista Manuel Carmo Gomes, que considera aceitável uma mudança de direção caso se confirme a menor severidade da variante Ómicron.

“Se realmente é muito menos grave do que a Delta em populações muito vacinadas, como é a nossa, talvez faça mais sentido deixar que as pessoas se imunizem naturalmente. Nunca advoguei teorias de imunidade de grupo por infecção natural, mas estamos numa situação completamente diferente, com a população praticamente toda vacinada e uma variante que, para já, não parece ser muito preocupante em hospitalizações”, defendeu o docente da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

  ARM //

7 Comments

  1. Sim, muitas solicitações, mas… o virus da gripe, o Inlfluenza, é uma realidade, está aqui, voltou e faz parte das solicitações.
    Não é referido. Porquê?

    • Porque não interessa para o discurso de drama, depois la se ia à possibilidade de ganhar as eleições!!!

      Neste momento a pandemia (que na realidade é endémica) é apenas um factor político com medidas políticas baseadas em dramas.
      Os números são públicos, os internamentos e UCIs estão estáveis.

      As urgências estão um caos mas nesta altura sempre foram, basta procurar e encontrar notícias de 2015/16/17/18 das urgências com 5 horas de espera.
      Hoje estão em colapso porque se gerou drama e as urgência estão cheias de casos ligeiros de covid e constipação … e para fazer testes. Ou seja as urgências estão ainda pior graças às medidas e ao pânico.

  2. Ora bem, (alguns) tugas andam a testar-se, apenas porque sim!…

    Conheço particularmente um tuga de 20 anos (mais ou menos) que faz teste de 3 em 3 dias !!!!!!

    Como este, devem haver centenas, e, onde a falta de senso impera, o resultado é o que está à vista…

    O que antes este Senhor Manuel do Carmo defendia, agora, volta atrás, não por convicção mas, porque o sistema estourou , simples assim….

    Os culpados foram quem deram os testes a custo ZERO, e os que acham que o mundo vai acabar amanhã, o mundo pode acabar de um minuto para o outro, é algo imprevisível !!!

    Enfim, tanto rebuliço por causa de alguns, caso para dizer que o feitiço, se virou contra o feiticeiro :/

  3. Não será uma gralha quando referem logo no 2º parágrafo “registado a 28 de janeiro, quando morreram 303 pessoas”.

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