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Estradas citadinas semelhantes às auto-estradas. É complicado

Autores de um novo estudo consideram que os engenheiros responsáveis pelo planeamento das estradas estão a pensar a encorajar as pessoas a conduzir rapidamente em áreas com muita gente e complexidade.

Apesar dos avanços feitos no sentido de melhorar a segurança rodoviária, muitas vezes através da construção de boas estradas que permitem que os carros atinjam velocidades mais elevadas, a verdade é que os acidentes de automóveis são cada vez mais mais frequentes.

A esta fator junta-se, por exemplo, as semelhanças entre as auto-estradas e as vias mais citadinas, onde os limites de velocidade são mais baixos.

Num novo estudo científico, uma equipa de investigadores da Universidade Estatal de Ohio usou técnicas de machine learning para analisar mais de 240.000 imagens de troços de estradas do Ohio, estado dos Estados Unidos da América, tiradas do Google Street View. O objectivo era perceber como eram as estradas para os condutores e se isso estava ligado a acidentes graves e mortais.

Os resultados mostra, segmentos de estrada que foram classificados como “estradas abertas” – aqueles em que as fotos mostraram mais céu visível, mais estradas e mais sinalização – tiveram 48% mais acidentes que causaram ferimentos ou morte do que aquelas classificadas como “residenciais abertos”.

“Há muitas estradas em áreas urbanas que não são auto-estradas mas que parecem auto-estradas com velocidades elevadas do ponto de vista do condutor”, explicou Jonathan Stiles, investigador da Florida Atlantic University e responsável pelo estudo.

“Isso é um problema porque os condutores comportam-se como se essas ruas fossem auto-estradas, ainda que possa haver muitos peões e atividade humana nas proximidades”, diz o investigador.

Estas perigosas “estradas abertas” são familiares a qualquer pessoa que tenha conduzido através de áreas urbanas, disse Miller, que é diretor do Centro de Análise Urbana e Regional do Estado de Ohio. As vias têm geralmente múltiplas vias de tráfego, muitas placas de sinalização rodoviária e poucas árvores, estando também repletas de centros comerciais, lojas, bombas de gasolina e restaurantes.

“Para os condutores, a estrada parece segura para conduzirem a alta velocidade. No entanto, estamos a combinar a complexidade e atividade humana com o desejo de deslocar carros o mais rapidamente possível. É uma combinação perigosa”, explicou Miller.

Partindo de 241.179 imagens de vistas de rua de segmentos do Ohio, os investigadores utilizaram um modelo de aprendizagem de máquinas para segmentar cada foto em objetos visuais. Através de foto mostrava céu, estrada, sinais, edifícios, árvores e outros objetos. O céu foi o elemento mais comum das fotografias, cobrindo 27,8% das imagens, seguido por estrada (24,6%) e árvores (17,9%).

Posteriormente, as estradas identificadas foram segmentadas  em quatro tipos de ruas: a “Leafy residential”, que tinha mais árvores e estradas mais estreitas, enquanto que “residencial aberto” tinha comparativamente mais céu e estrada ao lado das casas.

O “urbano construído” diz respeito a áreas como o centro da cidade, com relativamente mais edifícios, calçadas e carros. A “estrada aberta” tinha mais céu, estrada e sinalização em relação a outros tipos de estradas.

Os investigadores analisaram então os dados do acidente para cada um destes segmentos de estrada e compararam o número de acidentes graves em três das categorias de estradas com os acidentes em estradas residenciais abertas, que foram tratados como o grupo de referência.

O grupo residencial teve 12,4% menos acidentes do que o residencial aberto, enquanto que o urbano construído teve 21,7% mais acidentes graves e fatais, salienta o Science Daily.

No entanto, foi o grupo de estradas abertas que teve a maior correlação com acidentes graves e fatais, com mais 48% do que o grupo residencial aberto.

Miller salientou que esta associação entre acidentes graves e tipo de estrada foi encontrada mesmo depois de se considerar uma variedade de outros factores que podem afetar o número de acidentes, nomeadamente as designações oficiais de estradas e a sinalização.

“Mais sinalização ao longo de uma estrada sugere mais complexidade para os condutores digeriram, pelo que faz sentido que esteja associada a mais acidentes”, disse Stiles.

“Mais contentores de lixo ao longo da estrada podem sinalizar aos motoristas que estão numa área residencial com mais pessoas à volta, o que pode levar a uma condução mais cuidadosa e a menos acidentes”.

Os resultados deste estudo apoiam a teoria das estradas auto-explicativas, o que sugere que as expectativas e comportamentos dos condutores são moldados por características de concepção de estradas, acrescentou o investigador.

“A ideia é que as pessoas não prestam realmente atenção aos limites de velocidade afixados. O que fazem é prestar atenção à velocidade a que a estrada lhes diz que é seguro conduzir”, disse ele. “Os nossos resultados sugerem que muitas estradas urbanas dizem às pessoas que é seguro conduzir rapidamente quando realmente não é – e o resultado são acidentes mais graves e fatais“.

Uma conclusão importante a retirar resultados é que os engenheiros responsáveis pelo planeamento precisam de repensar a forma como concebem as estradas urbanas, sugerem os autores.

“Estamos a pensar mal em estradas urbanas”, disse Stiles. “Estamos a encorajar as pessoas a conduzir rapidamente em áreas com muita gente e complexidade”.

Uma solução seria, por exemplo estreitar algumas das estradas mais perigosas, acrescentando ao mesmo tempo mais zonas verdes, edifícios e calçadas.

“A perda de capacidade e velocidade dos veículos em tais estradas pode ser preocupante para alguns, mas isto deve ser ponderado contra os numerosos ferimentos e mortes a que estas estradas conduzem em áreas movimentadas”, disse Miller.

  ZAP //

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