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O que comeríamos se a Terra fosse atingida por um asteroide

CC0 Public Domain

Caso um asteroide gigante atingisse a Terra daqui a alguns anos, bloqueando o Sol e causando um colapso da agricultura, até poderíamos vê-lo a chegar, mas as tentativas de redirecionar a sua trajetória poderiam facilmente falhar.

À primeira vista, as nossas hipóteses de sobrevivência parecem poucas. No entanto, se isso fosse possível, conseguiríamos construir um novo sistema alimentar com o conhecimento que já temos?

Num artigo publicado recentemente, a BBC News Brasil imaginou como poderíamos sobreviver caso o planeta fosse atingisse por um asteroide.

Quando o asteroide Chicxulub atingiu a Terra, há 66 milhões de anos, transformou o leito rochoso do oceano em plasma, vaporizou toda a vida num raio de 2.400 quilómetros e atirou detritos ao redor do planeta. Cerca de 25 biliões de toneladas de matéria desenterrada entraram na atmosfera, bloqueando a luz solar.

Ao contrário dos dinossauros, muitos dos nossos ancestrais mamíferos sobreviveram às consequências porque eram escavadores. Mas não foram apenas o estilo de vida e a morfologia que os ajudaram. A dieta também os favoreceu.

Os dinossauros que sobreviveram a terramotos, incêndios e tsunamis logo descobriram que não tinham nada para comer. Os nossos ancestrais mamíferos, por outro lado, viviam de insetos, nozes e plantas aquáticas.

Um pequeno número de dinossauros terópodes – que incluiu o Tiranossauro rex e do qual todas as aves contemporâneas evoluíram – conseguiu sobreviver, graças à sua dieta omnívora, bico e uma moela que os ajudou a extrair nutrição das sementes.

Esta lição pode sugerir que devemos preparar estoques de alimentos básicos de emergência. Durante a Guerra Fria, num depoimento perante o Congresso dos Estados Unidos (EUA), as autoridades norte-americanas propuseram uma “bolacha de sobrevivência para todos os fins”, feita de triguilho.

Latas de sopa Campbell, sumos em pó Tang e o “alimento multipropósito” da General Mills (produto à base de soja, rico em nutrientes para uso em situações de “emergência ou desastre”) foram produzidos sob ordens do governo norte-americano para encher as prateleiras dos abrigos nucleares.

No entanto, não seria fácil armazenar comida suficiente para alimentar a todos durante uma década – ou até mesmo um ano. Estima-se que os ‘stocks’ existentes de alimentos secos poderiam alimentar cerca de 10% da população durante um período de cinco anos.

Se os governos ou a Organização das Nações Unidas (ONU) adotassem a mentalidade ‘prepper’ (estratégia de sobrevivência dos super-ricos) e produzissem as cerca de 1,6 mil milhões de toneladas necessárias todos os anos para alimentar todos os humanos na Terra, os preços disparariam. Isso também seria uma catástrofe.

Quando os EUA detonaram uma bomba atómica sobre a cidade japonesa de Nagasaki, aqueles que se esconderam em túneis de minas antigas conseguiram sobreviver desde que não estivessem muito perto da entrada.

Akiko Takakura, na altura com 20 anos, conseguiu sobreviver apesar de estar a 300 metros do hipocentro da explosão pelo facto de estar dentro de um prédio de concreto armado – a agência do Banco do Japão, em Nagasaki.

Diante de um ataque de asteroide, os cidadãos de Ancara, Pequim, Moscovo e Montreal terão, portanto, uma vantagem. Estas cidades contam com grandes espaços de trânsito, armazenamento e comércio no subsolo.

A Turquia pode até utilizar a vasta rede de cidades subterrâneas na província de Nevşehir – situada na região da Capadócia -, construída pelos frígios há 2.500 anos e expandida pelos capadócios gregos.

O Reino Unido também estará numa posição forte. Além das redes de metro subterrâneos em Londres, Newcastle, Sunderland, Glasgow e Liverpool, existem abóbadas subterrâneas, abrigos, cavernas e adegas em Nottingham, Edimburgo, Chislehurst e Stockport.

Além de abrigar humanos, espaços subterrâneos podem ser usados ​​para cultivar alimentos nutritivos. Apesar da falta de luz e da humidade, certas culturas podem prosperar nesses locais caso seja utilizada a abordagem correta. Experiências em pequena escala na agricultura urbana subterrânea já estão em andamento.

Paris abriga quilómetros quadrados de espaço inexplorado na forma de estacionamentos, parte dos quais a empresa Cycloponics transformou em espaços de cultivo de cogumelos. Enquanto isso, a empresa Growing Underground está a cultivar vegetais num antigo abrigo antiaéreo em Clapham, Londres.

Por um curto período, brotos, microverdes (versões bem menores de vegetais comestíveis), aspargos brancos, ruibarbo e cogumelos podem ser cultivados com luz artificial zero ou mínima.

Os brotos são uma ótima fonte de vitaminas, ácidos gordos e fibras, e usam a energia armazenada na semente para crescer. O mesmo vale para os microverdes, que podem fornecer uma variedade de sabores – de picante a azedo e doce – para preparar outros alimentos.

Em dezembro de 2020, a Autoridade Carbonífera e o Serviço Geológico Britânico divulgaram mapas de calor para os estimados 25 quilómetros quadrados de campos de carvão em desuso em todo o Reino Unido. Através deste levantamento, chegaram à conclusão que futuras habitações podem ser construídas para extrair calor das águas que retornaram às minas depois de terem sido desativadas.

Ainda na antecipação de cenário da BBC News Brasil, uma semana após a Terra ser atingida, sairíamos dos refúgios temporários. A fuligem flutuaria no ar e a luz lembraria o crepúsculo antes do amanhecer. Cada um de nós tem pacotes iniciais: bactérias, sementes e células.

Como os cogumelos não contêm cloroplastos, não precisam de luz para crescer. O que eles precisam é de calor, humidade e um substrato de matéria orgânica para frutificar, recém-abundante na vegetação derrubada do velho mundo biológico.

Infelizmente, os cogumelos não são uma grande fonte de calorias. Muitos são venenosos. A maioria produz esporos tóxicos para humanos em alta concentração e rasga edifícios que preferimos usar como abrigo. O cultivo de cogumelos deve ocorrer em caves, edifícios e túneis especialmente designados.

Não será fácil conseguir uma dieta equilibrada – mas isso pode ser feito. As pessoas continuariam a comer espécies de ruminantes sobreviventes como veados, vacas, cabras e galinhas, alimentando o número reduzido que mantemos com gramíneas mortas, folhas e madeira em decomposição.

Quanto às vitaminas complicadas, E, A e B12 podem ser sintetizadas por processos industriais. Outras, como K ou D, serão mais difíceis de adquirir.

A maior parte da vitamina D comercial vem do refino e irradiação da lã de ovelha. No curto prazo, podemos extrair nutrientes de flores, folhas e partes das árvores. O chá de agulha de pinheiro tem mais vitamina C do que um sumo de laranja. O chá de urtiga contém vitaminas A, C e K, e o de dente-de-leão é rico em potássio.

Modelos de computador construídos para estudar uma guerra nuclear total prevê que menos de 40% da luz persistirá perto do equador, com apenas 5% nos polos.

A beterraba mostrou tolerância a temperaturas mais baixas e podemos ter sucesso limitado no cultivo de cenouras, repolhos, batatas e ervilhas.

Muitas outras culturas essenciais, como batata, trigo, cevada, arroz, milho e soja, poderiam ser realocadas para os trópicos e complementadas por mandioca, espinafre selvagem e inhame.

Aqui construiríamos estufas – supondo que a cooperação e o comércio continuassem -, estruturas simples feitas de madeira, filme de polímero, cascalho e pregos que maximizassem a luz solar que receberíamos.

Uma visão comum nas cidades hoje são rios e canais cheios com algas. No entanto, esse imenso poder de crescimento pode tornar as algas altamente valiosas em caso de desastre. Estas são ricas em nutrientes, incluindo ômega-3 e ômega-6, e podem ser cultivadas com pouca luz e colhidas durante todo o ano.

Com matérias-primas como petróleo, gás natural, CO2 ou as sobras não comestíveis das plantações (resíduos das colheitas ou da extração de madeira) poderíamos produzir proteínas “sintéticas”, açúcar e gorduras.

Historicamente, em períodos de guerra ou crise económica, a infraestrutura foi redirecionada para atender às necessidades mais prementes da sociedade. Durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA adaptaram 66% das fábricas de automóveis para a produção de aeronaves.

E, depois que a pandemia de covid-19 começou, em 2020, a empresa de roupas Barbour fez aventais hospitalares e a Land Rover reprogramou as suas impressoras 3D de peças de carros para fabrico de viseiras de proteção.

Refinarias de biocombustíveis e fábricas de papel em Selby, Grimsby, Wilton, Manchester, no Reino, poderiam ser reaproveitadas para produzir açúcares comestíveis a partir de biomassa lignocelulósica.

Transformar hidrocarbonetos em ceras e gorduras digeríveis – combustíveis fósseis em alimentos – pode ajudar a suprir várias deficiências. Na década de 1910, o químico Arthur Imhausen adaptou um processo conhecido como oxidação de parafina para criar a “manteiga de carvão”, em resposta à inflação na Alemanha.

Uma nova fábrica em Chongqing, na China, usa um processo de síntese química refinado para produzir 20 mil toneladas de proteína a partir de bactérias. Essa proteína unicelular requer apenas metano, oxigénio e nitrogénio para crescer e será usada para alimentar peixes, mas pode ser ajustada para humanos.

Talvez possamos pensar nos alimentos de hoje à base de plantas como um laboratório para fabricação – no qual as proteínas da ervilha replicam a fibrosidade da carne ou das raízes da soja para fazer hambúrgueres vegetais.

Essa é a continuação de uma tecnologia que tem sido utilizada em todas as culturas para intensificar o sabor, tornar os alimentos mais duradouros, transformar o seu formato, cor, textura ou desencadear efeitos psicoativos: a fermentação.

Os resultados até agora incluem pão, cerveja, kimchi, tempeh (alimento originário da Indonésia), molho de soja, vinho, queijo, ácido cítrico, etanol combustível e penicilina.

É difícil prever o que acontecerá com os oceanos. A pesquisa sobre o inverno nuclear prevê acidificação, aumento da radiação ultravioleta e colapso das teias alimentares. Alguns argumentam que um “amortecedor” bem administrado, reduzindo a pesca atual, pode nos fornecer frutos do mar quando mais precisarmos.

Atualmente, menos de 2% das nossas calorias vêm do oceano. Apenas 22% dos navios em condições de navegar são usados ​​para pesca. Se for o caso, porta-aviões, navios de carga, rebocadores e iates podem ser requisitados para a aquicultura.

A empresa de serviços Roxel Aqua desenvolveu um sistema modular (conhecido como “o conceito Octopus”), que converte plataformas de perfuração de petróleo em quintas de peixes.

Noutros lugares, como no Golfo do México, empresas e centros de investigação colaboraram em sistemas de “aquacultura multitrófica integrada”, usando plataformas de petróleo desativadas para cultivar mexilhões, peixes e algas, ao mesmo tempo em que produzem energia renovável.

Os ecossistemas marinhos florescem onde superfícies rígidas e estáveis ​​se tornam disponíveis – como plataformas de petróleo abandonadas. Além das plantas, anémonas, peixes e aves marinhas que se aglomeram ao seu redor, essas plataformas podem abrigar alojamentos, silos cheios de ração, currais gigantescos e cabos submarinos extremamente longos para o cultivo de bivalves ou algas marinhas.

O recente sucesso da NASA em alterar a rota do asteroide Dimorphous é reconfortante e os cientistas estimam que a probabilidade de uma colisão do tamanho de Chicxulub é de apenas 0,000001%. Mas isso não significa que não devemos nos preparar para um colapso catastrófico do suprimento de alimentos.

E os asteroides não são a única ameaça que enfrentamos: também há alterações climáticas, os patógenos, o inverno nuclear e os supervulcões.

  ZAP // BBC News Brasil

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