Cientistas lançam mega projeto para criar genoma humano sintético

Mais de uma década depois de os cientistas conseguirem “ler” o genoma humano – a receita de ADN gravada nos nossos cromossomas -, um grupo de 25 investigadores lança um projeto para criar uma versão sintética da receita genética para a vida. 

Um consórcio global apresentado esta quinta-feira propõe a angariação de um investimento de 100 milhões de dólares (89,75 milhões de euros) de financiamento público e privado para pesquisa sobre formas de recriar ADN humano em laboratório.

O geneticista Jef Boeke, do Centro Médico Langone da Universidade de Nova Iorque, apresentou a iniciativa na revista Science, em conjunto com os seus colegas, explicando aos cidadãos (e contribuintes) o que têm a ganhar com a criação do genoma sintético.

O genoma sintético, que envolveria o uso de químicos para recriar o ADN presente nos cromossomas humanos, pode melhorar o nosso conhecimento e compreensão do seu funcionamento e procurar novas formas de tratamento de doenças.

A ideia surgiu numa reunião que teve lugar na Universidade de Harvard, em maio, que integrou exclusivamente 130 cientistas convidados, tendo por isso sido denunciada como um “encontro secreto“.

O novo projeto – que pretende que testes em células em laboratório aconteçam em até dez anos – “irá incluir a construção de linhas celulares com o genoma humano completo e de linhas celulares com o genoma de outros organismos com relevância na agricultura e na saúde, ou de organismos necessários para interpretar as funções biológicas humanas”, escreveram os cientistas.

Os cientistas estimam para o Projeto de Escrita do Genoma Humano um custo total menor do que os três mil milhões de dólares (2.692 milhões de euros) usados para o Projeto do Genoma Humano, que mapeou completamento o ADN humano pela primeira vez em 2003.

Humanos melhorados?

Os cientistas defendem que a síntese do genoma é uma “continuação lógica” dos instrumentos de engenharia genética usados nas últimas quatro décadas de um modo seguro pela indústria de biotecnologia.

Os críticos, no entanto, temem que se estejam a abrir portas para seres humanos melhorados, levantando preocupações sobre até que ponto é que a vida humana pode ou deve ser construída.

Um genoma humano sintético poderia tornar possível fabricar humanos sem parentes biológicos – criando, em teoria, humanos por encomenda com características genéticas melhoradas.

Os cientistas sublinharam que esse não era o objetivo, ressalvando que as aplicações potenciais de um genoma humano sintético incluem fazer crescer órgãos humanos para transplantes, criar imunidade contra vírus, criar resistência contra o cancro, e acelerar o desenvolvimento de vacinas e fármacos usando células e órgãos humanas.

Os proponentes reconheceram que a ideia é controversa, mas garantiram que iriam procurar o envolvimento público e a consideração de implicações éticas, legais e sociais.

O projeto surge numa altura de debate intenso sobre a ética de usar em embriões humanos o novo instrumento de alteração do genoma chamado CRISPR-Cas9, depois de cientistas chineses terem publicado em 2015 os resultados de um estudo que envolvia o uso da técnica em embriões humanos, levando a pedidos para uma proibição global deste tipo de investigação.

Os defensores dizem que a CRISPR pode ajudar a acelerar o esforço dos cientistas em corrigir e prevenir as doenças hereditárias, que passam no genoma de pais para os filhos.

No entanto, os críticos preocupam-se com os efeitos desconhecidos nas novas gerações e a tentação de futuros pais alterarem o genoma de embriões para melhorar características como a inteligência e as capacidades atléticas.

Projeto de Escrita do Genoma Humano

Há mais de 30 anos que começou a epopeia de sequenciar a totalidade do genoma humano, que alcançou a sua primeira vitória em 2003, quando o código foi totalmente sequenciado e publicado.

Agora, com os avanços em áreas como a robótica, informática e biologia molecular, os cientistas querem usar esta informação para perceberem a concepção e desenvolvimento dos humanos, bem como aprofundarem os conhecimentos sobre a reprodução e doenças de pessoas mas também de centenas de micróbios, plantas, animais domésticos e de laboratório, répteis e insetos, refere o jornal The Guardian.

“O maior benefício é alargar o entendimento de coisas como a estrutura de cromossomas e como é que o genoma funciona, um esforço básico de entendimento tal como a sequência do genoma humano nos trouxe uma enorme quantidade de informação e algumas surpresas”, afirma Susan Rosser, uma das signatárias da proposta, que dirige o instituto de biologia sintética na Universidade de Edimburgo.

Não estamos de todo a falar de produzir humanos, estamos simplesmente a falar de linhas celulares e bocados de ADN”, explica.

O grupo também inclui especialistas da Escola Médica de Harvard, do Instituto de Tecnologia do Massachusetts, do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, da Universidade de Yale, da Universidade de Columbia, da Universidade da Califórnia em Berkeley, da Universidade de Washington, todos nos Estados Unidos, e da Universidade de Edimburgo, na Escócia, do instituto Autodesk Research, da empresa Bioeconomy Capital e de outras instituições.

Cientistas não envolvidos referiram possíveis benefícios do novo projeto, incluindo a possibilidade de aprender a função de vastas partes do genoma que continuam misteriosas e ajudar a compreender melhor como é que os genes são regulados e por que é que há tanta variedade genética entre indivíduos e populações humanas.

“Irá também fornecer tecnologias para a terapia genética avançada e levar a uma compreensão muito maior de como o genoma está organizado e de como é que isto se altera nas doenças celulares”, afirmou ao Guardian Paul Freemont, co-diretor do Centro para a Inovação e Biologia Sintética no Imperial College de Londres.

“O projeto não é assim tão controverso como alguns observadores poderão estar a dizer”, disse ainda John Ward, professor de biologia sintética da University College de Londres. “Não há nenhum pedido para se fazer um ser humano inteiro”, ressalva.

AF, ZAP

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