Cientistas investigam a possibilidade de o Alzheimer ser contagioso

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Investigaores britânicos dizem ter encontrado provas de uma possível transmissão da Doença de Alzheimer durante procedimentos médicos, num padrão semelhante ao observado com outro mal degenerativo cerebral, a Doença de Creutzfeldt-Jakob.

Num estudo publicado na revista científica Nature, a que a BBC teve acesso, cientistas da University College London argumentam que instrumentos cirúrgicos e agulhas poderão apresentar um raro mas potencial risco de contágio.

É importante ressaltar que se trata de uma estimativa ainda teórica, feita com base em autópsias de cérebros de oito pacientes.

Outros especialistas refutaram os resultados do estudo, dizendo que são inconclusivos e que não significam que o Alzheimer possa ser contagioso.

Também não existem provas de transmissão do Alzheimer entre pessoas, ou seja, não é possível ser contagiado pelo contacto com pessoas que tenham a doença.

O Alzheimer é um tipo de demência que é mais comum em pessoas de idade avançada. Trata-se de uma “morte” de células cerebrais e de um encolhimento do órgão, o que afecta muitas das suas funções.

Cerca de 35 milhões de pessoas no mundo sofrem de Alzheimer. A Doença de Creutzfeldt-Jakob (CJD), que chegou a ser chamada de “Doença das Vacas Loucas“, pode afectar pessoas mais jovens.

“Estudo deve ser visto com cautela”

Estudos como este talvez precisassem de vir com um aviso – “pode causar alarme desnecessário“, por exemplo.

Dizer isto não significa desacreditar seu valor científico – os resultados são interessantes e importantes para aprofundar o conhecimento.

Mas devem ser interpretados com cautela: há muitos “se” para que seja possível chegar a qualquer conclusão firme.

Jaunmuktane et al. Nature 525, 247–250 (2015)

A proteína Amyloid-β (a castanho) encontrada na glândula pituitária

A proteína Amyloid-β (a castanho) encontrada na glândula pituitária

Os cérebros observados são de um pequeno grupo de pacientes submetidos, anteriormente, a um tipo de tratamento que já foi abandonado há muitos anos.

Embora ainda não esteja claro o motivo pelo qual algumas pessoas desenvolvam o Alzheimer e outras não, especialistas concordam que não é possível “apanhar” a doença, como se fosse uma gripe.

Há dois grandes sinais do Alzheimer que podem ser detectados pelos cientistas. O primeiro é um aglomerado de fragmentos proteicos da proteína beta-amilóide, chamados de placas amilóides. O outro é a presença de emaranhados de uma proteína conhecida como “tau”.

Quando a equipa de cientistas comandada por John Collinge estudou os cérebros de pacientes recém-falecidos em função da Doença de Creutzfeldt-Jakob (CJD, na sigla inglesa), deparou-se justamente com essas pistas.

Factores de risco ainda são idade, genética e hábitos

Todos os pacientes tinham contraído a doença através de injecções de hormonas de crescimento que receberam enquanto crianças.

Entre os oito corpos estudados, sete tinham depósitos amilóides, algo surpreendente por causa da idade relativamente jovem (entre os 31 e os 51 anos), porque não tinham histórico familiar de Alzheimer.

Para Collinge, a descoberta sugere que as hormonas podem ter passado pequenas quantidades – ou “sementes” – de beta-amilóides, além das proteínas que causaram o CJD.

Isso significa que, em teoria, os amilóides podem ser espalhados acidentalmente em procedimentos médicos e cirúrgicos e “semear” o Alzheimer.

Estudos feitos em animais corroboram a tese, mas é preciso ter cautela.

Nenhum dos pacientes analisados teve diagnóstico de Alzheimer e não está claro se desenvolveriam demência. Também não há provas de que a acumulação de amilóides estava directamente ligada às injecções de hormonas.

Collinge, por sinal, afirma que mais estudos precisam de ser feitos. O cientista diz já ter contactado o Ministério da Saúde do Reino Unido para confirmar se existem antigos “stocks” de hormona de crescimento que possam ser examinados para detectar a presença de amilóides.

“Não acho que seja causa para alarme. Ninguém precisa de adiar ou cancelar cirurgias”, disse o cientista à BBC.

Tratamentos com injecções de hormonas de crescimento – extraídas de cadáveres humanos – foram interrompidos em 1985 depois de descoberto o risco de contágio com Creutzfeldt-Jakob.

Para o médico Eric Karran, director da Alzheimer Research UK, entidade que promove pesquisas sobre a doença, as actuais medidas de profilaxia hospitalar já tornam o risco de contágio com CJD extremamente baixo, e mesmo que se confirme o risco de transmissão do Alzheimer, há factores mais determinantes.

“Os principais factores de risco do Alzheimer ainda são idade, genética e hábitos”, afirma Karran.

ZAP / BBC

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