Cientistas discriminadas. Páginas continuam a desaparecer da Wikipedia

O caso de Clarice Phelps, cuja página da Wikipedia já foi apagada três vezes, está a reacender o debate sobre a enciclopédia online poder ser discriminatória com as mulheres, especialmente cientistas.

“Estou a ser apagada da Wikipedia, sinto-me famosa”, escreveu Sarah Tuttle no Twitter, no passado mês de maio. Segundo o site Chemistry World, a página da astrofísica foi sondada para ser apagada, algumas semanas depois da recente batalha sobre a página da prestigiada química Clarice Phelps.

Phelps, que trabalha no Oak Ridge National Laboratory (ORNL), nos Estados Unidos, é possivelmente a primeira cientista afro-americana a fazer parte da equipa que descobriu o elemento químico tenesso, facto que para alguns merece o reconhecimento da maior enciclopédia online do mundo. Os editores da Wikipedia, porém, não concordam com isso.

No total, a página da cientista já foi apagada três vezes, fazendo com que a Wikipedia esteja a ser cada vez mais acusada de discriminação contra todas as pessoas que não façam parte do chamado grupo de “homens brancos e heterossexuais”.

Estatísticas divulgadas pelos críticos mostram que apenas 18% das 1,6 milhões de biografias da versão inglesa da Wikipedia são sobre mulheres. Além disso, os números são ainda mais baixos quando se trata de cientistas do sexo feminino: apenas 16% dos quase 150 mil artigos existentes.

Jessica Wade, uma cientista da Imperial College London, que criou as páginas de Phelps e Tuttle, afirma que dos 600 artigos que escreveu, seis foram apagados por não serem figuras consideradas suficientemente notáveis. Wade acrescenta que a maioria dos artigos é escrutinada, sobretudo aqueles sobre mulheres que pertencem a minorias étnicas.

“Quando fazes uma página e esta é considerada para ser excluída, não é apenas irritante porque o teu trabalho está a ser apagado, é também porque se torna incrivelmente intrusivo e degradante ter alguém a discutir se alguém é notável o suficiente para estar na Wikipedia – um site que tem páginas sobre quase todas as músicas pop, pessoas que nunca ninguém ouviu falar mas entraram em filmes e pessoas que estavam em equipas desportivas mas que nunca ganharam nada”, justifica.

O caso de Phelps não é o primeiro a fazer reacender este debate. Antes de ganhar o Nobel da Física, em 2018, Donna Strickland não tinha página na Wikipedia, ao contrário dos outros dois laureados (o norte-americano Arthur Ashkin e o francês Gérard Mourou).

Antes de ter sido distinguida com o prémio, todas as tentativas de criar uma página dedicada à investigadora foram rejeitadas porque alegadamente não era suficientemente conhecida. Depois de receber o Nobel da Academia Sueca, a investigadora finalmente foi merecedora de uma página na Wikipedia.

No entanto, o outro lado mostra que este pode não ser um ato discriminatório da enciclopédia online, mas sim um reflexo da sociedade no geral. Um ex-funcionário da Wikipedia, que preferiu manter o anonimato, explica que a lacuna de género é simplesmente replicada nos artigos que podemos encontrar no site.

Taha Yasseri, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que investigou esta falha, também partilha da mesma opinião. “A lacuna que vemos não se limita à Wikipedia. É uma reflexão de uma desigualdade ainda maior que existe na comunidade científica”.

“A notabilidade na Wikipedia é um assunto muito difícil”, afirma Roger Bamkin, co-fundador do projeto da enciclopédia online  – Women in Red – que já fez aumentar o número de páginas de mulheres de 15% para 18% nos últimos quatro anos.

“Quando os editores discutem esse tema, provavelmente as pessoas pensam: ‘É um homem que está a rejeitar as mulheres’ – e isso é provavelmente verdade. Nove em cada dez editores são do sexo masculino”.

Porém, “muitas pessoas reagem ao facto de um artigo em particular ter sido apagado. “Mas a verdade é que temos milhares e milhares para escrever. Se as pessoas acham que existe um problema, então têm de se envolver mais”. Por outras palavras, Bamkin sugere que se envolvam nas edições locais do site.

“Temos um problema de integração: levar as pessoas da edição básica para se tornarem uma parte confiante da nossa comunidade”, diz John Lubbock, coordenador de comunicação da Wikimedia do Reino Unido em declarações ao site.

Clarice Phelps, a cientista que está no centro do debate sobre a alegada discriminação da Wikipedia

“A experiência do utilizador no site precisa de melhorias”, admite. “Penso que estes problemas podem estar definitivamente a afetar mais as mulheres, que podem ter menos tempo livre para dedicar ao site do que os homens”.

Quando escrevia sobre Phelps, Wade deparou-se com vários problemas como, por exemplo, o facto de o seu nome não aparecer nos artigos que anunciavam a descoberta do tenesso, por não ser referida nos media e pelas referências do seu trabalho estarem apenas na página oficial do local onde trabalha – uma fonte que não é considerada “independente” pelos padrões da Wikipedia e que, por isso, não é admissível quando se trata de estabelecer a notabilidade de uma pessoa.

Alguns dos problemas que Wade encontrou ao criar a página, explica Lubbock, “são representativos do quão mais difícil é criar artigos sobre mulheres do que sobre homens, porque há menos citações para usar, uma vez que se escreve muito menos sobre as conquistas femininas”.

“As regras de notabilidade para os académicos são, para dizer de forma simpática, notoriamente bizantinas”, diz o editor anónimo, acrescentando que este problema não acontece só com mulheres.

“Muitos preconceitos são inconscientes e intersecionais“, explica Lubbock. “A Wikipedia está a lidar não só com uma questão de desigualdade de género, mas também com desigualdades raciais e geográficas”.

ZAP //

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1 COMENTÁRIO

  1. Nessa perpectiva milhares de investigadores e investigadoras de várias nacionalidades também deviam estar na Wikipédia. Muitos desses pseudo-investigadores criam as suas páginas na Wikipédia de forma se auto-promoverem, ganhando, assim, protagonismo que nunca teriam se a sua projeção fosse apenas baseada no seu trabalho. Depois, quando apagam páginas de pessoas que se querem apenas autopromover, e que não merecem esse protagonismo, nada como invocar descriminação de género. Já existem demasiadas mulheres e homens com protagonismo que não merecem. Atualmente, esse fenómeno é especialmente maior nas mulheres só pelo simples facto de serem mulheres!

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