Céticos boicotam ensino de alterações climáticas nas escolas americanas

SESI SP / Flickr

O duelo entre os céticos das alterações climática e os defensores de ações para conter o aquecimento global está a ser travado também nas escolas norte-americanas.

Estados produtores de petróleo e carvão – que já estão em pé de guerra por causa das novas regras ambientais propostas pela Casa Branca – estão a boicotar diretrizes nacionais para o ensino das ciências que estabelecem uma relação de causa e consequência entre as atividades humanas e o aumento da temperatura no planeta.

É nesse contexto que o legislativo do estado de Wyoming aprovou, na seção do orçamento estadual sobre educação, uma emenda que proíbe “qualquer gasto” com a “revisão ou adoção das diretrizes de ciência” para o currículo oficial de ensino público no Estado.

Foi o primeiro estado norte-americano que rejeitou oficialmente as diretrizes nacionais para o currículo, que tratam as alterações climáticas como um fato estabelecido cientificamente.

“Não aceito que as alterações climáticas sejam um fato”, disse o diretor do Conselho Estadual para Educação, Ron Micheli, ao jornal local Casper Star Tribune. “As diretrizes são muito tendenciosas contra o desenvolvimento dos combustíveis fósseis“.

O autor da emenda, o republicano Matt Teers, criticou o currículo por “tratar o aquecimento global como ciência comprovada”. “Há implicações sociais envolvidas nisso, que não são boas para Wyoming”, disse.

Efeitos na economia

As diretrizes nacionais levam esse nome porque foram elaboradas por organizações científicas e especialistas de 26 estados. Mas a decisão sobre adotar ou rejeitar, total ou parcialmente, essas linhas gerais, cabe a cada estado.

O currículo já foi adotado por uma dúzia de Estados, incluindo o Distrito de Columbia. Porém, encontrou resistência em locais como Kentucky, Texas e Oklahoma, além de Wyoming. Todos devem grande parte de sua riqueza à indústria de combustíveis fósseis.

Em Kentucky, o governador acabou por ter que forçar a adoção do currículo pelo Legislativo. Mas no Texas, a comissão de educação já disse que não existem hipóteses de o currículo ser adotado. O legislativo de Oklahoma aprovou uma proibição às novas diretrizes semelhante à de Wyoming.

Apesar de abrigar uma variedade de áreas ambientais protegidas, como florestas e parques nacionais, entre eles Yellowstone e Grand Teton, Wyoming deve o maior quinhão da sua receita à indústria de carvão.

O estado, que tem 600 mil habitantes, responde por 40% de toda a produção de carvão dos EUA, de acordo com a Administração de Informação de Energia (EIA, em inglês).

Por isso, além de proibir a implementação das novas diretrizes científicas nacionais, o legislativo determinou a elaboração de um currículo revisado que ressalte os benefícios da indústria de combustíveis fósseis para o Estado.

“Perplexidade”

A disputa à volta do ensino da Ciência nas escolas ilustra como a questão climática é “um tema politicamente sensível” no país, disse à BBC o professor da Universidade de Wyoming James Barrans, que contribuiu para a elaboração das diretrizes.

“O que me impressiona é que a questão das alterações climáticas é uma parte muito pequena do currículo”, afirmou o professor. “A maioria das diretrizes diz respeito a princípios básicos da ciência”.

Outros aspectos do currículo que têm sofrido resistência em áreas religiosas ou socialmente conservadoras são a teoria da evolução, desenvolvida por Charles Darwin no século XIX, e a menção à superpopulação do planeta como uma preocupação dos demógrafos.

Porém, nenhum deles tem o “elemento económico” como acontece na questão do aquecimento global, observa Barrans.

Os estados mais poluidores já estão em pé de guerra com a Casa Branca, principalmente depois de a agência ambiental ter anunciado metas de redução de carbono para as fábricas que funcionam à base de carvão – matéria prima usada na geração de 37% da eletricidade americana, segundo a EIA.

O presidente Barack Obama é acusado de empreender uma “guerra ao carvão” por governadores de Estados como Texas e Virgínia Ocidental. Republicanos no Congresso dizem que as medidas impulsionadas pelo presidente serão um “peso económico”.

“Eles só querem criar resistência a qualquer coisa que acreditem que ameace a sobrevivência das receitas do Estado com a indústria”, rebate o professor da Universidade de Wyoming.

“Como cientista, às vezes ainda fico perplexo com esta batalha política sobre a Ciência do clima nos Estados Unidos. Porque a verdade científica é bem simples“.

Desfecho inevitável

Enquanto a polémica continua, especialistas apontam que as fábricas americanas já estão a substituir gradualmente o carvão por combustíveis que emitem menos gases causadores do efeito de estufa, voltando-se em particular o gás natural, abundante no país.

Em 2007, o carvão alimentava 50% da geração de eletricidade americana. O governo estima que a extração do hidrocarboneto subirá levemente até 2030 e depois disso, dependendo da legislação ambiental e dos combustíveis disponíveis, estabilizará.

Para Joseph Romm, investigador do Center for American Progress, uma organização liberal baseada em Washington, os dados sugerem que o carvão “não tem muito futuro nos EUA”.

Para o especialista, os estados estão a dar um passo em falso ao colocarem-se contra o ensino da ciência sobre o clima nas escolas. “É uma tentativa de contestar uma tendência no mercado e no mundo que é inevitável”, opina.

Por outro lado, Romm lembra que, apesar de terem reduzido seu consumo doméstico, os EUA continuam a ser um importante exportador de carvão. Além disso, a administração Obama continua a conceder licenças para novas minas de extração de carvão em Estados como Wyoming e Montana.

“Mesmo se diminuirmos o consumo de carvão neste país, e simplesmente o exportarmos, não estaremos a fazer nada para conter o aquecimento global. O carvão será apenas queimado noutro lugar”, diz o ambientalista. “Para o clima do planeta não faz a menor diferença: tudo acaba na atmosfera“.

ZAP / BBC

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