“Catástrofe ecológica” na Austrália vai demorar séculos a ser ultrapassada

David Mariuz / EPA

Os fogos florestais das últimas semanas na Austrália representam uma “catástrofe ecológica” que demorará décadas a ser superada e que exige um apoio financeiro significativo e mudanças de políticas ambientais, advertem especialistas ouvidos pela Lusa.

Mudanças que exigem, necessariamente, medidas concretas para evitar que se “continue a aumentar a temperatura do forno” que está a “cozinhar” o planeta terra, como explicou Stuart Blanch, cientista ambiental e um dos responsáveis do setor de reflorestação da World Wide Fund – Austrália (WWF-A).

“Estamos perante uma catástrofe ecológica, a estimativa é da perda de mil milhões de animais vertebrados, mas sabemos que esse número vai aumentar quando a informação mais precisa for compilada”, disse.

Nas últimas semanas o fogo queimou uma área maior que Portugal – a época dos fogos ainda não terminou – com danos sérios a ecossistemas especialmente na costa leste do país, deixando várias espécies em situação ameaçada ou em risco.

O número de mil milhões de animais mortos baseia-se num estudo realizado em 2007 por um grupo de cientistas especializados em répteis, mamíferos e outros animais que estimava que, em média, havia entre 150 e 160 animais vertebrados em cada hectare do ecossistema. “O número de mil milhões é uma extrapolação conservadora dessa média de animais tendo em conta os mais de 10 milhões de hectares queimados”, explicou.

Em média, 80% desses animais são répteis, incluindo lagartos e cobras, 12 a 15% são aves e cinco a oito por cento são mamíferos, ficando fora do total morcegos, sapos, peixes e insetos, cujas populações não foram contabilizadas na altura do estudo.

Novos estudos estão em curso para determinar com mais precisão a presença desses e outros animais nos vários ecossistemas da Austrália, para assim permitir avaliações mais detalhadas em casos como os atuais, explicou. Ainda que animais selvagens e as próprias florestas se tenham vindo a adaptar a fogos ao longo de dezenas de milhares de anos, não implica, nota Blanch, que os animais tenham conseguido escapar aos atuais fogos, de dimensão e extensão fora do normal.

“Os fogos que temos agora não são como no passado. São muito maiores, muito mais intensos, mais quentes, menos previsíveis e muito dos animais não conseguem escapar, até mesmo os pássaros”, explicou. “O fogo viaja muito rápido e a intensidade do calor acaba depois por alcançar muitos animais que fugiram. E depois há muitos animais que conseguem escapar, mas que acabam por morrer, porque ficam sem habitat, ficam sem comida. Por isso o impacto é desta dimensão”, referiu.

Falta de comida, cansaço dos animais que têm de viajar grandes distâncias e até os que ficam presos em vedações de propriedades agrícolas, acabam por fazer aumentar a perda de vida selvagem.

Anna Felton, da organização ambiental WIRES – que gere uma rede de voluntários envolvidos no apoio à vida selvagem em NSW – diz que é impossível saber quantos animais morreram mas que muitas espécies já estavam com problemas devido à falta de água e alimentos por causa da seca prolongada em vários locais.

A WIRES diz que “nunca na sua história viu um momento de emergências paralelas como as que começaram em novembro” com os fogos a terem um impacto a longo prazo para os animais que sobreviveram.

Só em dezembro, nota, a organização recebeu mais de 20 mil chamadas – mais 14% que no ano passado – com os voluntários da WIRES a realizarem mais de 3.300 salvamentos de animais. “O fogo não discriminou espécies. E todas são necessárias para o equilíbrio ambiental. Mas ainda é cedo para saber o verdadeiro impacto porque continuamos na fase critica de salvamentos e de cuidados imediatos”, disse Fento em entrevista à Lusa.

Entre os animais em maior risco, Stuart Blanch destaca a população de coalas, “especialmente vulneráveis na costa leste” e que “devem ser considerados sob ameaça de extinção” e o ‘Regent Honey Eater’, pássaro que já estava ameaçado e que perdeu praticamente todo o seu habitat. Igualmente ameaçado está o Petauroides Volans, uma espécie de marsupial, reconhecido pela sua longa cauda, e que vive tradicional em grandes florestas em Victoria e NSW.

“Quando há fogo, tal como os coalas, estes marsupiais tendem a subir pelas árvores o que é bom em casos de fogos pequenos de menor intensidade. Mas não neste caso com fogos desta dimensão, com colunas de chamas de 50 metros, simplesmente ficam carbonizados no alto das árvores”, recordou.

Os ratos-cangurus, outro marsupial que vive nestas zonas, estão igualmente em perigo, já que são animais “que não voam e não conseguem trepar”, acabando por morrer incinerados nos fogos. Em risco crítico de extinção está igualmente o Gymnobelideus Leadbeateri, outra espécie de marsupial, que depende das “grandes florestas húmidas” com outras espécies de cangurus e marsupiais, catatuas, pardais e corujas, na lista de preocupações, referiu.

Stuart Blanch sublinha que mesmo havendo as condições e o apoio necessário – com um grande programa de reflorestação e apoio ambiental, “o processo de recuperação demorará pelo menos 10 anos“. Para isso, defende, “é preciso algo equivalente ao Plano Marshall para ajudar a recuperar as florestas na Austrália” que é hoje um dos pontos quentes – a par da Sibéria, amazónia, Congo e Indonésia – em termos de fogos florestais.

“As florestas são vistas como obstáculo ao progresso, mas são uma solução natural para o clima. Por isso temos que pagar a quem tem florestas para as cuidar. Isso reduziria 15 a 20% das emissões. É algo que temos que fazer globalmente”, afirmou. No caso da Austrália, reflorestar o país – com 10 milhões de hectares de florestal – exige “biliões de dólares e um programa a 10 anos“.

Qualidade do ar em Melbourne em níveis “severos”

A qualidade do ar na segunda cidade australiana, Melbourne, agravou-se para níveis considerados “severos” durante a madrugada, devido ao aumento do fumo provocado pelos incêndios no leste da região.

Segundo a página AirWatch, gerida pela Autoridade de Proteção Ambiental, a qualidade do ar deteriorou-se “mais do que o previsto” nas últimas horas, elevando as recomendações para que se evite atividades ao ar livre. Várias piscinas, ginásios e outros locais estão fechados – este é o período de férias escolares do verão na Austrália – com os sindicatos a recomendarem aos seus trabalhadores que evitem qualquer trabalho ao ar livre.

Os serviços meteorológicos antecipam que a forte nuvem de poluição atmosférica se mantenha pelo menos até à tarde de quarta-feira, altura em que se esperam melhorias com a mudança do vento. Grande parte do fumo provém de fogos nas zonas montanhosas de East Gippsland, a nordeste de Melbourne, um dos maiores das últimas semanas.

(dr) Espen Rasmussen

Além do impacto na saúde pública o fumo está a causar problemas adicionais para os bombeiros que são chamados por alarmes de incêndio acionados apenas pelo excesso de fumo no ar. Desde a noite de segunda-feira a Brigada Metropolitana de Bombeiros em Melbourne diz ter respondido a quase 200 alarmes falsos de incêndio, um valor cinco vezes maior que o normal num período de 24 horas.

A falta de vento na zona fez aumentar a concentração de fumo durante a madrugada, explicam os serviços meteorológicos, que antecipam que vento a partir de quarta-feira possa ajudar a melhorar a situação. O fumo e a má qualidade do ar devido aos incêndios florestais obrigaram a suspender temporariamente as sessões de treino no Open da Austrália de ténis, em Melbourne Park.

A organização referiu, em comunicado, que espera que a fase de qualifying da primeira grande prova do circuito ATP, o Open da Austrália, possa começar durante o dia de terça-feira, referindo que as condições no local, que estão a ser constantemente monitorizadas, estão a melhorar. As decisões vão ser tomadas de acordo com os dados obtidos e com as informações das equipas médicas, de cientistas da Agência de Proteção Ambiental e dos meteorologistas, acrescentou.

Milionários fazem doações para a Austrália

O fundador da Amazon, Jeff Bezos, dono de 104 mil milhões de euros, anunciou, de acordo com o Jornal Económico, que a sua empresa fará uma doação de 619 mil euros para o combate aos incêndios na Austrália.

A estrela da Marvel, Chris Hemsworth, com um património avaliado em 68 milhões de euros, vai doar o mesmo que Bezos. Já a cantora Pink, com uma fortuna de 51,1 milhões de euros, prometeu 448 mil euros.

A milionária Kylie Jenner doou 897 milhões de euros, enquanto a atriz Bette Midler ficou-se pelos 449 mil euros, tal como a banda Metallica.

Segundo o mesmo jornal, o CEO do Alphabet, Sundar Pichai, escreveu que os incêndios florestais eram “devastadores” e que a empresa tinha apoiado financeiramente o país nos esforços de ajuda. No final do ano passado, o diretor executivo da Apple, Tim Cook, anunciou que a empresa também apoiaria financeiramente este país. No entanto, nem Pichai nem Cook divulgaram o valor das doações.

ZAP // Lusa

 

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