Catalães aplaudem referendo dos curdos. Erdogan ameaça-os com fome

BBC

Mais de um milhão curdos sírios estão refugiados na Turquia desde o início dos conflitos em 2011

Os curdos iraquianos votaram esta segunda-feira de forma massiva no referendo sobre a sua independência, mas esta possibilidade, alimentada há um século, arrisca provocar uma escalada nas tensões regionais.

O parlamento em Bagdade, na presença dos deputados árabes e na ausência dos seus camaradas curdos, apelou no mesmo dia ao destacamento dos militares nas zonas disputadas pelo poder central e pela região autónoma do Curdistão.

A Turquia e o Iraque, bem como a Síria, três países que têm minorias curdas, denunciaram o referendo, porque receiam que tenha um efeito de contágio e que o mapa da região, saído da primeira guerra mundial, seja redesenhado.

Mais de 3,3 milhões de pessoas participaram na votação, o que representa 72,16% dos inscritos, indicou o porta-voz da comissão eleitoral, Sherwan Zarar, e o resultado do escrutínio, esperado para a noite de terça-feira, não deixa qualquer dúvida, com a maioria dos curdos a apoiarem o “sim” à independência.

O presidente do Curdistão, Massoud Barzani, afirmou entretanto que o referendo não seria logo seguido de uma declaração de independência, mas marcaria o início de “discussões sérias” com Bagdade para resolver os contenciosos.

As 12.072 secções de voto fecharam às 19.00 locais (20.00 de Lisboa), depois de o seu encerramento ter sido adiado por uma hora, perante o afluxo dos votantes, segundo as autoridades turcas.

Sinal das fortes tensões persistentes, o parlamento em Bagdade votou uma resolução “exigindo ao chefe das forças armadas (o primeiro-ministro Haider al-Abadi) que destaque forças para todas as zonas” conquistadas pelos curdos depois da invasão norte-americana em 2003.

Os territórios disputados estão fora do Curdistão. Situam-se na rica província petrolífera de Kirkuk, nas de Ninive, a norte, de Dyala e Salaheddine, a norte de Bagdade. A maior parte foi conquistada pelas forças curdas em 2014, aproveitando o caos criado pela ofensiva do grupo que se designa por Estado islâmico.

Anandaroop Roy

Mapa do Curdistão

Perante o desafio lançado pelos curdos do Iraque, o Irão fechou as suas fronteiras aéreas com a região e a Turquia anunciou o encerramento em breve da sua fronteira terrestre com o Curdistão.

Por outro lado, os dirigentes de Ancara ameaçaram interromper as exportações petrolíferas do Curdistão através da Turquia, na que é a medida mais eficaz para asfixiar a economia da região. Depois do fracasso de um plano de partilha das receitas do petróleo com Bagdade, o Curdistão exporta o seu petróleo através da Turquia, sem passar pelo poder central iraquiano.

Divididos entre o Iraque, a Síria, o Irão e a Turquia, os curdos nunca aceitaram o Tratado de Lausana, de 1923, que os privou de um Estado independente.

No domingo, Barzani mostrou-se inflexível: “A parceria com Bagdade fracassou. Chegámos à convicção que a independência vai permitir não repetir as tragédias do passado”.

Mas, em Bagdade, Abadi recusou o divórcio. “Tomar uma decisão unilateral, afetando a unidade do Iraque e a sua segurança, bem como a segurança da região, é contra a Constituição e a paz civil”, argumentou.

Erdogan adverte curdos iraquianos de que pode fazê-los “passar fome”

Presidente turco Recep Tayyip Erdogan qualificou esta terça-feira como uma “deslealdade” e uma “ameaça à segurança nacional” o referendo que foi levado a cabo no país vizinho, na segunda-feira, sobre a independência do Curdistão iraquiano, advertindo que caso persistam nas suas aspirações os curdos irão “passar fome”, avança o Expresso.

Erdogan diz que esperou “até ao último momento” que o Presidente do Governo reginal do Curdistão Massoud Barzani adiasse a votação. “Se Barzani e o Governo Regional Curdo não recuam neste erro o mais depressa possível, depressa irão ficar na história com a vergonha de terem arrastado a região para um guerra étnica e sectária”, advertiu.

Os oleodutos de petróleo vindo do Curdistão passam pela Turquia e Erdogan ameaçou cortar essa principal fonte de receita, assim como o transporte de bens alimentares para a região: “Acabará tudo quando nós fecharmos os oleodutos, todas as (suas) receitas vão desaparecer e eles não serão capazes de arranjar comida quando os nossos camiões deixarem de ir para o norte do Iraque.”

Abandonem esta aventura que apenas vos pode conduzir para um fim negro”, insistiu.

Presidente catalão é um dos poucos líderes a felicitar curdos

O Presidente da Catalunha, Carles Puigdemont, utilizou o Twitter para anunciar assim as felicitações que enviou ao seu homólogo curdo no Iraque, a propósito do referendo à independência da região.

“Esta manhã telefonei ao Presidente Masoud Barzani para lhe dar os parabéns pelo referendo do Curdistão. Desejámos grandes sucessos um ao outro“.

Os dois atos eleitorais partilham algumas semelhanças, nomeadamente o facto de não serem reconhecidas pelos governos centrais dos países dos quais as duas regiões se querem separar, Espanha e Iraque.

Contudo, de acordo com a Euronews, as diferenças são também evidentes: o facto de o referendo curdo se basear no direito à independência de uma minoria étnica; a autonomia mais considerável de que os curdos já gozam no Iraque, em comparação com os catalães; a falta de mecanismos de transição criados para o caso curdo; a intervenção limitada de Bagdade face a Madrid; e, por fim, as fronteiras de cada região, já que a Catalunha é um espaço muito mais definido e a minoria curda está espalhada por vários países para lá do Iraque, como a Turquia, o Irão e a Síria.

ZAP // Lusa

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1 COMENTÁRIO

  1. Outros que estão colonizados estes por vários países e para a comunidade internacional tudo tem corrido bem ignorando por completo os direitos deste povo!

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