Ataque ucraniano que passou despercebido aumentou o risco de uma guerra nuclear global

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Vladimir Putin não precisa de grandes desculpas para lançar um ataque nuclear tático contra a Ucrânia. Mas ter destruído parte do seu sistema de radar de alerta nuclear precoce é perigoso para todos.

Embora tenha passado despercebido no meio da barragem diária de notícias, um novo ataque ucraniano a uma estação de radar russa fez soar o alarme entre os especialistas ocidentais, que alertam para o seu potencial efeito no risco de uma escalada do conflito para uma guerra termonuclear global.

A semana passada, a Ucrânia atacou com drones a estação de radar de Armavir, na região russa de Krasnodar, no até agora mais profundo ataque ucraniano em território russo.

Até aqui tudo bem, diz o El Confidencial: Kiev tem todo o direito de atacar o território russo após a invasão ilegal e totalmente injustificada do seu país.

O problema reside na natureza do alvo: uma instalação chave no extenso sistema de alerta nuclear precoce de Moscovo.

O ataque, que teve lugar no dia 23 de maio, conseguiu atingir a estação de radar de Armavir, um sistema sofisticado capaz de seguir até 500 alvos que consistem em todos os tipos de ameaças aéreas, tanto convencionais como mísseis de longo alcance lançados para além do horizonte, incluindo mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos intercontinentais lançados de aviões ou submarinos.

As autoridades russas confirmaram que houve um ataque, embora não tenham dito quais foram os danos causados. O governo ucraniano também confirmou o ataque, afirmando que foi bem sucedido e que conseguiram atingir o sistema de radar que monitoriza o espaço aéreo sobre a Ucrânia e a Crimeia.

O ataque danificou significativamente a estação, ao ponto de a tornar inútil. A ser verdade, trata-se de uma vitória tática notável para os ucranianos, que poderão agora castigar ainda mais o exército russo nas zonas ocupadas.

Sucesso tático mas muito perigoso

O ataque à estação de radar de Armavir faz parte de um padrão mais vasto de intensificação dos ataques de drones ucranianos no interior do território russo, incluindo refinarias de petróleo e centros de transporte.

O aumento da pressão levou a Rússia a realizar exercícios de mísseis nucleares táticos no seu Distrito Militar do Sul, numa tática de medo típica de Vladimir Putin.

No entanto, atacar um sistema nuclear de alerta precoce é muito diferente de atacar uma refinaria, um campo de comando ou um centro de logística militar.

Mauro Gilli, analista do Centro de Estudos de Segurança da ETH de Zurique, salienta o sucesso tático do ataque, uma vez que obriga a Rússia a redistribuir os recursos de defesa aérea. “Podemos debater a eficácia e o mérito, mas, estrategicamente, a abordagem ucraniana tem lógica“, afirmou.

Mas o efeito de arrastamento para os próprios ucranianos e para o resto do mundo pode ser extremamente grave. É por isso que os analistas ocidentais manifestaram sérias reservas em relação a este ataque.

Segundo Hans Kristensen, especialista em arsenais nucleares da Federação de Cientistas Americanos, “não é uma decisão sensata da parte da Ucrânia. Os bombardeiros e as instalações militares em geral são diferentes, porque fazem parte da guerra convencional”, mas um ataque a uma instalação deste tipo implica outros factores”.

“É do interesse de todos que o sistema de alerta de mísseis balísticos da Rússia funcione corretamente”, diz por sua vez Thord Are Iversen, analista militar norueguês. Iversen está a referir-se a uma de duas cadeias de acontecimentos a que este ataque pode conduzir, ambas igualmente perigosas.

Primeiro, atacar um componente tão crucial da infraestrutura nuclear russa poderia provocar uma resposta severa de Moscovo, incluindo a possível utilização de armas nucleares tácticas contra a Ucrânia.

Esta preocupação baseia-se na doutrina nuclear russa, que permite a utilização de armas nucleares em resposta a ameaças convencionais significativas à existência do Estado.

De acordo com uma análise recente, esta doutrina poderia justificar uma resposta nuclear se a sua infraestrutura crítica de comando e controlo fosse considerada ameaçada.

Putin não precisa de desculpas para decidir fazer um ataque nuclear unilateral com uma bomba tática, mas este ataque está a dar-lhe uma de bandeja.

Em segundo lugar, os danos causados às capacidades de alerta precoce da Rússia introduzem um nível perigoso de incerteza no seu nível de defesa. Qualquer deterioração do sistema pode levar a interpretações erróneas ou a falhas técnicas que podem desencadear um falso alarme ou um ataque preventivo contra o Ocidente.

Situação de alto risco

Basicamente, um mal-entendido no sistema de defesa russo poderia levar a uma guerra termonuclear planetária, como avisou em 2022 o secretário-geral da ONU, António Guterres: estamos a um erro de cálculo da aniquilação nuclear.

Tais mal-entendidos já aconteceram no passado, embora a frieza dos operadores e as camadas de segurança que impedem um lançamento acidental tenham evitado a catástrofe — como aconteceu em 1983, quando Stanislav Petrov, responsável pelo Sistema de Vigilância de Mísseis na União Soviética durante a Guerra Fria, tomou uma decisão que salvou o Mundo da 3ª Guerra Mundial.

No entanto, dado o atual estado crítico das forças armadas e da política russa, estamos num período muito perigoso, porque a possibilidade de falha e de falha de comunicação multiplicou-se para níveis que ultrapassam os piores momentos da Guerra Fria — altura em que as forças armadas soviéticas tinham uma estrutura e uma hierarquia sólidas, o que não é o caso agora.

Dada a natureza de alto risco da dissuasão nuclear, o risco de escalada em ambas as direcções é uma preocupação séria.

“Tenho algumas preocupações sobre se a decisão de atacar esta instalação foi razoável, uma vez que pode ter repercussões negativas para a Ucrânia no futuro”, considera Fabian Hoffmann, investigador da Universidade de Oslo.

O potencial de escalada destes acontecimentos para um conflito nuclear global existe e não pode ser sobrestimado, dizem os especialistas na matéria.

Acresce o facto de a Rússia ter suspendido a sua participação nos tratados assinados com os EUA que limitam armamento e ensaios nucleares.

Como salienta o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), este facto aumenta o risco devido ao frágil estado do controlo de armas nucleares, e o ataque à estação de desativação altera ainda mais o precário equilíbrio da dissuasão.

ZAP //

Guerra Fria

  • 30 Maio, 2024 Ataque ucraniano que passou despercebido aumentou o risco de uma guerra nuclear global

5 Comments

  1. Atacar um componente tão crucial da infraestrutura nuclear russa poderia provocar uma resposta severa de Moscovo, contudo a Rússia ataca todos os dias, mas aí não há problema…Que raio de narrativa!
    Os Putinistas desafiam a inteligencia do macaco!

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  2. O que me parece é que realmente foi um bom teste.
    Agora é aprimorar e atacar mais vezes esta e outras coisas deles. E se lhes explodissem com uns silos nucleares em casa é que era.

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