Todos os anos perdemos uma secção do Universo

2018 foi embora e levou com ele uma parte do nosso Universo que nunca mais voltaremos a ver. O cenário que, à primeira vista, parece trágico, é apenas a Natureza a seguir o seu rumo.

Nas partes mais distantes do Universo conhecido, estão a desaparecer galáxias inteiras. No entanto, estes objetos celestes não estão simplesmente a evaporar. Em vez disso, estão a ser empurrados para fora do Universo conhecido, para uma região conhecida como “Universo inobservável“.

Durante vários milénios, o tamanho e a idade do Universo confundiram os cientistas. Em 1687, Isaac Newton inspirou uma nova forma de entender o cosmos no seu livro Principia, que propunha a lei revolucionária universal da gravitação.

Na sua formulação mais básica, a lei explicava que toda a massa no Universo é atraída para todas as outras massas do Universo. Embora a ideia pareça bastante simples, as implicações na época foram surpreendentes.

O trabalho de Newton revelou que, se o nosso Universo fosse finito, as forças atrativas de todos os objetos no cosmos deveriam ter feito tudo desabar.Mas, como continuamos aqui, esse cenário não se observou, pelo que o Universo deve mesmo ser infinito.

Em oposição, surgiu o paradoxo de Olbers. No início do século XIX, Wilhelm Olbers propôs um paradoxo argumentando que a escuridão do céu noturno entra em conflito com a conclusão de que o cosmos é infinito: no fundo, Olbers argumenta que, num céu sem limites, não veríamos nada além da luz das estrelas. No entanto, como há manchas escuras no céu noturno, o Universo não pode ser infinito.

Estas duas teorias não podiam coexistir. Assim, em 1913, Vesto Slipher analisou as linhas espectrais de galáxias distantes e descobriu que a luz que elas emitiam era transferida para a extremidade vermelha do espectro de luz.

Este desvio para o vermelho era, então, a prova de que as galáxias estão a afastar-se de nós, já que a luz se estende até ao final vermelho do espectro quando os objetos estão a retroceder.

Com base no trabalho de Slipher, Edwin Hubble mediu os desvios para o vermelho das galáxias e comparou-os com a sua distância relativa, descobrindo que o Universo está a expandir-se. Tendo consciência dessa expansão, sabemos também que o Universo deve ter sido menor no passado e, consequentemente, se retrocedermos até ao início, concluímos que todo o Universo teria convergido num único ponto a que agora chamamos de Big Bang.

Usando vários modelos e estimativas para a taxa de expansão, como a constante de Hubble, os cientistas estimaram a idade do Universo em 13,799 mil milhões de anos. Nas últimas décadas do século XX, duas equipas de cientistas começaram a medir a desaceleração cósmica – ou seja, o quanto a expansão do Universo está a diminuir.

Depois de várias análises, os cientistas descobriram que, ao contrário das suas suposições, a expansão do Universo não está a diminuir – pelo contrário, as galáxias mais distantes parecem estar a voar para longe de nós cada vez mais depressa à medida que a sua distância da Terra aumenta.

Este facto levou a uma conclusão irrefutável: a expansão do Universo está a acelerar. No fundo, cada porção do Espaço está a alongar-se. Enquanto a luz e a matéria têm uma velocidade máxima, o tecido do espaço-tempo não.

Assim, os novos cálculos permitiram aos cientistas determinar que o Universo observável tem um raio de, pelo menos, 46 mil milhões de anos-luz. No entanto, o Universo observável é apenas uma parte do Universo total.

Universo inobservável: além do alcance

O Universo observável é a região esférica que abrange tudo o que atualmente pode ser detetado da Terra. Tudo o que existe além dos limites da deteção é chamado de “Universo inobservável”.

A luz que se encontra no Universo inobservável ainda não chegou à Terra devido à gigantesca distância que precisa de cobrir. Como a luz tem uma velocidade máxima, a luz de objetos a uma distância considerável poderia, teoricamente, estar a caminho. Se a expansão do Universo não estivesse a acelerar, seríamos capazes de ver tudo no cosmos. Mas esse não é o caso.

Segundo o Science Alert, é devido à expansão acelerada que algumas regiões do Espaço estão a afastar-se de nós mais rápido do que a velocidade da luz. Na prática, a luz dessas regiões nunca será capaz de nos alcançar.

Se um fotão deixasse o nosso planeta e começasse a viajar para o cosmos, nunca seria capaz de alcançar qualquer área do Espaço que estivesse a mais de 15 mil milhões de anos-luz de distância, pois o Espaço além deste ponto está a expandir-se mais rápido do que a velocidade da luz.

Isto significa que, mesmo se saíssemos hoje e viajássemos à velocidade da luz, seríamos capazes de alcançar apenas 3% do número total de galáxias do nosso Universo observável. Os outros 97% estarão, para sempre, além do nosso alcance.

PARTILHAR

10 COMENTÁRIOS

  1. Claro, perdemos uma secção do universo, várias estações dos CTT, agências bancárias, metros de orla costeira, poder de compra, enfim, é só perder.

  2. “estão a afastar-se de nós mais rápido do que a velocidade da luz.”?!?

    A teoria da relatividade não preconiza que nada se pode mover mais rápido que a luz?

    E que eu saiba, nem o João Magueijo defende o contrário… No universo actual.

    Não terá havido um “Lost in translation”?

    • Caro RuiC,
      Num Universo em expansão, se dois objectos estiverem a afastar-se em sentidos divergentes, a velocidades inferiores à da luz, a soma (vectorial) dessas velocidades – ou seja, a velocidade a que se afastam – pode ser superior à velocidade da luz.
      Por exemplo: se nós estivermos a mover-nos à velocidade da luz “para a esquerda”, e outro objecto estiver a mover-se, à velocidade da luz também, “para a direita”, então esse objecto está a afastar-se de nós a uma velocidade 2x a da luz – sem que Einstein esteja a dar voltas no caixão.

    • Você esta correto mas isso é para a “materia e energia” e é o espaço que está se espandindo e tempo tambem e isso inculi o nada o nada se move mas rapido do que a luz a unica coisa que vai sempre chegar primeiro em um lugar do que a luz é a sombra. Para a ciencia até o nada é relativo ou seja até o nada já é alguma coisa e não é parcial ou seja depende do pensamento humano ou conciente e é apenas em teoria materia escura ou anti-materia.

    • A Teoria da relatividade de Einstein diz que nada é mais rapido que velocidade da luz dentro do Universo, mas neste caso é o Próprio Universo que se expande mais rapido que a velocidade da luz, e portanto não vai contra a teoria da relatividade de Einstein

  3. Caro ZAP,

    “Num Universo em expansão, se dois objectos estiverem a afastar-se em sentidos divergentes, a velocidades inferiores à da luz, a soma (vectorial) dessas velocidades – ou seja, a velocidade a que se afastam – pode ser superior à velocidade da luz.”
    Isto não é verdade, a velocidade medida por um observador num desses 2 objetos continua a ser inferior à velocidade da luz.

    O que se passa é que é o próprio espaço que se expande a uma velocidade maior do que a da luz, e que “arrasta” os objetos com ele. Não há nenhuma incompatibilidade com a teoria da relatividade, pois o limite da velocidade da luz nesta é a objetos a mover-se no espaço e não ao espaço em si.

"Pé de guerra". Quatro ministros exigem mais verbas a Centeno

Há quatro ministros em "pé de guerra" com Mário Centeno, exigindo ao responsável pela pastas das Finanças mais verbas no Orçamento de Estado para 2020 (OE2020) para os ministérios que tutelam, escreve o Correio da …

Trump formalmente acusado de abuso de poder e obstrução ao Congresso

Ao fim de vários audições, a Câmara dos Representantes decidiu formalmente acusar Donald Trump de abuso de poder e obstrução ao Congresso. O presidente norte-americano, Donald Trump, vai ser formalmente acusado de abuso de poder e …

EDP: Variar IVA em função do consumo de energia é "justo" e "lógico"

O presidente executivo da EDP, António Mexia, considerou esta terça-feira em Madrid "lógica" e "socialmente mais justa" a intenção do Governo de permitir a variação da taxa de IVA sobre a energia em função dos …

Protestos prosseguem em França na véspera da apresentação da reforma do sistema de pensões

Ao sexto dia consecutivo de greve geral em França, centenas de milhares de pessoas voltaram hoje a protestar nas ruas contra a revisão do sistema de pensões, com o Governo e os sindicatos a anunciaram …

Após o ataque a Alcochete, Bruno Fernandes ficou "mais nervoso" e com "mais ansiedade"

O futebolista disse, esta terça-feira, ter ficado "mais nervoso" e com "mais ansiedade" depois do ataque à academia do Sporting, no qual viu agressões a Rui Patrício, William Carvalho, Acuña e Bataglia. Bruno Fernandes foi ouvido, …

"Abusei da amizade". Santos Silva confessa que pediu ajuda a Sócrates num concurso público

O empresário Carlos Santos Silva confessou no primeiro dia de interrogatório com Ivo Rosa que chegou a sugerir ao antigo primeiro-ministro José Sócrates que o ajudasse num concurso público em que o Grupo Lena participou. De …

O Nepal proibiu, mas mulheres continuam a ser forçadas a dormir em "cabanas menstruais"

"Chaupadi" é uma tradição hindu, característica do Nepal, que força as mulheres a dormirem num abrigo quando estão menstruadas por serem consideradas impuras. Segundo o IFLScience, uma nova investigação mostra que 77% das raparigas que vivem …

O golo "doloroso" de Ansu Fati que fez dele o mais jovem jogador a marcar na Champions

Ansu Fati, avançado do Barcelona, tornou-se no mais jovem jogador de sempre a marcar um golo na Liga dos Campeões. Com 17 anos e 40 dias de idade, o espanhol faz mais uma vez história …

Almeida Henriques suspeito de receber avença enquanto esteve no Governo por favores a empresário

Almeida Henriques, antigo secretário de Estado Adjunto da Economia e Desenvolvimento Regional do Governo de Passos Coelho, e atual presidente da Câmara de Viseu, é suspeito de ter recebido dinheiro por favores ao empresário Agostinho …

Costa responde a Ventura: Programa do Governo não muda "semana sim semana não"

Recorrendo à ironia, o primeiro-ministro, António Costa, respondeu esta terça-feira ao deputado único do Chega, afirmando que o programa do Governo não muda "semana sim, semana não" consoante as críticas. No debate quinzenal na Assembleia da …