Nem carros, nem casas. Abacaxi e aipo eram os maiores símbolos de riqueza

Ao contrário dos dias de hoje, em que carros e casas são usados para mostrar a riqueza das pessoas, antigamente o abacaxi e o aipo eram considerados produtos de luxo.

Um monte de panquecas carregadas com calda, um café com leite espumoso pousado ao lado de um MacBook branco, uma pizza cheia de queijo. O Instagram tornou comum o “food porn” – imagens que retratam os alimentos de maneira apetitosa ou esteticamente atraente. Agora, a comida é o assunto mais fotografado da plataforma, e #food, #foodporn, #instafood e #yummy estão entre as hashtags mais populares.

Uma investigação de 2017 constatou que 69% dos millennials publica regularmente fotos das suas comidas ou bebidas nas redes sociais. Em muitas dessas imagens, a comida é usada como suporte, além de outros itens, como bolsas, jóias e sapatilhas, a fim de exibir um estilo de vida e uma identidade específicos.

Isto não é propriamente novidade. As pessoas sempre encontraram maneiras de usar os alimentos para mostrarem os seus gostos, desejos e status. No Reino Unido, dois exemplos principais disso são o abacaxi e o aipo.

A coroa do abacaxi

O abacaxi sempre foi associado a prestígio e luxo devido à sua aparência exótica. Apareceu pela primeira vez na Grã-Bretanha em 1668, ganhando notoriedade quando Carlos II o usou como parte de uma oportunidade de relações públicas.

Na altura, Inglaterra e França estavam envolvidas num acalorado debate sobre os direitos à ilha de São Cristóvão. Quando o embaixador francês visitou Carlos II para discutir os assuntos, o rei ordenou que um abacaxi fosse importado de Barbados e colocou-o no topo de uma pirâmide de frutas no jantar. Durante a refeição, cortou-o e o comeu-o. Ao fazer isto, Carlos II afirmou o alcance do poder global da Inglaterra.

Então, os primeiros abacaxis começaram a ser cultivados na Grã-Bretanha. Os esforços necessários para produzir significavam que, no momento em que uma fruta florescia, ela era avaliada em 60 libras (cerca de 5.000 libras nos dias de hoje).

Preocupados com o facto de que comer estas frutas de alto valor era um desperdício, os proprietários optaram por exibir abacaxis como ornamentos na hora do jantar, passando-os de festa em festa até apodrecerem.

Em resposta, as empresas de cerâmica começaram a fabricar pedestais de abacaxi. Estes permitiam que o abacaxi fosse encaixado num buraco central, com fatias de outras frutas colocadas na borda para servir aos convidados. Muitos quadros de natureza morta também foram encomendadas por proprietários interessados em exibir os seus abacaxis. Lojas de aluguer de abacaxis surgiram em todo o país para quem não podia cultivá-los e as pessoas começaram a carregar abacaxis debaixo do braço como sinal de status.

O abacaxi perdeu o seu prestígio social a meio da era vitoriana, quando navios a vapor começaram a importá-los regularmente das colónias. Isto diminuiu significativamente o preço e abriu o consumo para as classes trabalhadoras. Inevitavelmente, as classes altas procuraram um novo alimento para se diferenciar das “massas”. A resposta? Aipo.

Um luxo dispendioso

O aipo foi cultivado pela primeira vez na Grã-Bretanha em 1800, nas zonas húmidas de East Anglia. A sua produção era extremamente intensiva em mão-de-obra, pois as trincheiras tinham que ser construídas para cultivá-lo e precisava de ser desenterrado regularmente para preservar a brancura do seu caule.

Estas dificuldades significavam que o aipo era um vegetal raro e caro na Grã-Bretanha vitoriana, custando cerca de 33 xelins (aproximadamente 180 libras).

Tal como o abacaxi, as classes altas hesitavam em consumir aipo, dada a despesa envolvida no seu cultivo. Como resultado, os fabricantes mais espertos começaram a produzir “vasos de aipo” – tigelas altas de vidro em forma de tulipa, colocadas em cima de um pedestal, em que o vegetal era exibido. As classes mais altas começaram também a encomendar naturezas mortas dos seus bouquets de aipo.

No final da década de 1880, o preço do aipo começou a diminuir à medida que as variedades mais fáceis de cultivar se desenvolveram. Como resultado, o aipo começou a ser comido em vez de apenas apreciado.

Na viragem do século XX, o aipo estava presente nos menus da maioria dos hotéis e restaurantes da Grã-Bretanha. Também se destacou como o principal ingrediente das receitas nos livros de culinária. O aipo foi ainda servido em cabines de primeira classe no Titanic.

Como o abacaxi, o aipo também se tornou num alvo para ladrões. Jornais locais relatavam regularmente histórias de homens condenados a dois meses de trabalho duro por roubar este vegetal.

À medida que os métodos de cultivo melhoravam, o aipo tornava-se um item de todos, obrigando as classes altas a procurar mais uma vez um novo luxo nos alimentos. Hoje, o aipo é quase universalmente desprezado.

PARTILHAR

3 COMENTÁRIOS

  1. Antigamente, aipo e abacaxi eram sinais de riqueza, pois parece que carros não havia, ou será que havia? Mais uma pérola do jornalixo do Zap.

RESPONDER

O maior avião do mundo vai ser uma plataforma de lançamento para veículos hipersónicos

A empresa que criou o maior avião do mundo, que apenas voou uma vez, encontrou uma nova funcionalidade para a aeronave: será usado como plataforma de lançamento para veículos hipersónicos, o que poderá revolucionar a …

Sondas da missão a Mercúrio vão passar pela Terra (e vão ser visíveis a olho nu)

A missão conjunta europeia e japonesa BepiColombo está a caminho de Mercúrio. Porém, para chegar lá, terá de passar novamente pela Terra. Este evento acontecerá em 10 de abril e as pessoas nas latitudes do sul …

Xiaomi lança máscara elétrica que carrega via USB

A pandemia de Covid-19 tem impulsionado o surgimento de alguns recursos melhorados para fazer face ao combate do novo coronavírus. É o caso da nova máscara de esterilização elétrica da Xiaomi, que carrega via USB. A …

Em paradeiro incerto, ministra da Guiné-Bissau diz correr perigo de vida

Ruth Monteiro, ministra da Justiça e dos Negócios Estrangeiros no Governo da Guiné-Bissau deposto no golpe do dia 27 de fevereiro, está em parte incerta e diz correr perigo de vida. De acordo com o semanário …

Ovelhas e bactérias estão a ajudar a combater o coronavírus

Anticorpos que podem ajudar a combater o SARS-CoV-2, o vírus que causa a covid-19, estão a ser testados em ovelhas. Estes podem ser usados para desenvolver testes de diagnóstico. O SARS-CoV-2, o vírus que causa a …

Marcelo sai uma vez por semana, usa máscara e luvas nas compras (e passa a Páscoa em Belém)

O Presidente da República afirmou este sábado que, para se proteger do surto de covid-19, só sai em trabalho uma vez semana, usa máscara nas compras e vai passar a Páscoa confinado no Palácio de …

A procura por sumo de laranja está a disparar (e a culpa é do coronavírus)

A procura por sumo de laranja tem disparado nos últimos tempos, muito devido à pandemia de covid-19. As pessoas querem reforçar o seu sistema imunitário. Já quase ninguém está indiferente à ameaça da pandemia de covid-19, …

Nove pessoas com covid-19 curadas após receberem plasma de doentes recuperados

Pelo menos nove pessoas internadas nos cuidados intensivos em Itália com covid-19 já foram curadas, depois de receberem plasma de pacientes recuperados. De acordo com o jornal italiano Corriere della Sera, os doentes receberam o plasma …

Grace tem seis anos e pode ser a autora mais nova de sempre de um artigo científico

Uma menina de seis anos, que vive na Austrália, pode ser a autora mais nova de sempre a ter um artigo científico publicado numa revista da especialidade. Grace Fulton tem uma enorme paixão por animais e, …

Geco encheu Lisboa com autocolantes (e a polícia de Roma está a pedir ajuda para o encontrar)

A polícia de Roma está a pedir ajuda à Associação Vizinhos de Lisboa para encontrar o graffiter Geco, cujas pinturas e autocolantes se podem ver por toda a capital portuguesa, e que está em investigação …