A abstenção venceu. É a mais alta de sempre

Nuno Fox / Lusa

A abstenção foi a grande figura das eleições europeias deste domingo, tendo 68,7% dos portugueses optado por não votar. A abstenção em Portugal voltou a atingir um novo recorde, enquanto que a taxa de participação na União Europeia foi a mais alta dos últimos 20 anos (50,5%).

Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, em 2014, a percentagem de portugueses que optou por não votar tinha sido de 66,2%

No Banco Alimentar Contra a Fome, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa que temia um resultado pior no que respeita a abstenção (75 a 80%), lembrou os “68,7% que optaram por não optar.

“É uma opção legitima, mas significa aceitar os direitos de voto dos que decidiram votar. Houve um aumento da abstenção, um número significativo escolheu não escolher”.

Em jeito de balanço ao ato eleitoral, o chefe de Estado deixou ainda uma saudação aos candidatos. “Ainda não há resultados finais e distribuição de mandatos. Mas queria saudar todos os candidatos eleitos e esperar que defendam a posição de Portugal e dos portugueses no Parlamento Europeu, num momento decisivo na Europa”.

Em sentido inverso ao que foi traçado em Portugal, a União Europeia viu a sua taxa de participação aumentar para 50,5%, a mais elevada dos últimos 20 anos e oito pontos acima do anterior sufrágio, de acordo com os números do Parlamento Europeu.

Fazendo uma análise individual por Estado-membro, pior do que Portugal na abstenção ficou a República Checa (71,8%), a Croácia (70,35%), a Eslovénia (71,7%), a Eslováquia (77,2%) e a Bulgária (69%). Ou seja, Portugal registou a sexta pior participação da União Europeia nestas eleições.  Em sentido oposto e com maior participação na União Europeia, destaca-se a Bélgica (88%), o Luxemburgo (84,10%) e Malta (72%), segundo dados provisórios divulgados esta manhã pelo Parlamento Europeu.

O porta-voz do Parlamento Europeu, Jaume Duch, sublinhou que este é o aumento da afluência às urnas “mais significativo” desde as primeiras eleições, em 1979.

Em Portugal, foram várias as figuras e as forças políticas que lamentaram os números da abstenção. O secretário-geral do PS, António Costa, pediu uma “reflexão profunda” para todo o sistema político e para a comunicação social sobre as causas da abstenção.

“Não é uma questão de culpas. Em primeiro lugar, é uma questão de decisão de quem votou e não votou. A repetição ano após ano da ideia de que as decisões são tomadas em Bruxelas sem a participação de cada país, de cada Governo e de cada cidadão cria naturalmente um grande afastamento por parte dos eleitores relativamente aos processos europeus”, apontou ainda o socialista.

O porta-voz do CDS, João Almeida, lamentou o “valor alto” que a abstenção atingiu. “É mau que a abstenção seja tão alta e, infelizmente, confirme uma tendência de vários atos eleitorais, que é a tendência para aumentar”, afirmou.

A cabeça de lista do Bloco, Marisa Matias, foi perentória ao afirmar que “não foi o Bloco que contribui para a abstenção”, uma vez que fez uma campanha a falar dos temas europeus.

Por sua vez, o social democrata Miguel Poiares Maduro realçou que “a abstenção desceu nos países em que as campanhas foram genuinamente europeias, onde os partidos políticos assumiram os verdadeiros temas europeus”, enquanto que “em Portugal as eleições foram nacionalizadas e a abstenção subiu”.

A dirigente do PCP Fernanda Mateus lamentou o “ruído” verificado durante a campanha eleitoral europeia e questionou a forma de fazer política em Portugal, ao comentar as projeções sobre a alta abstenção. “Da nossa parte, CDU – o PCP, o PEV, a ID -, todos os ativistas e candidatos estiveram na rua a fazer uma campanha de contacto direto, de informação e prestação de contas do que fizemos no Parlamento Europeu e do que está em causa nestas eleições. Tudo fizemos para a batalha da informação e ganhar os eleitores”.

Mais abstenção, mas mais votantes

Apesar de a abstenção ter atingido o seu maior valor, o número de votantes foi superior ao que foi registado em 2014. De acordo com os dados disponíveis no site da Direção-Geral da Administração Interna (DGAI), quando faltavam apurar duas freguesias e atribuir seis mandatos, a taxa de participação ficou nos 31,36%, situando-se a taxa de abstenção em 68,6%, ultrapassando a taxa registada em 2014, de 66,2%.

Contudo, em termos absolutos, o número de votantes será maior do que em 2014, com mais cerca de 30 mil eleitores a votar nas europeias de domingo, de acordo com os dados apurados pela DGAI, cerca das 00h50 desta segunda-feira.

Nas presentes eleições, do total de eleitores inscritos, 1.431.825 são cidadãos recenseados fora do território nacional, representando 13,3%. Nas eleições de 2014, a percentagem de eleitores registados fora do território nacional era apenas de 2,5%.

A taxa de abstenção de 68,6% nas eleições de domingo é a mais alta de sempre em eleições em Portugal, ultrapassando a registada nas europeias de 2014 – que já tinha sido a mais elevada – e até a verificada no referendo à Interrupção Voluntária da Gravidez, em 1998, em que a abstenção foi de 68,1%.

ZAP // Lusa

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5 COMENTÁRIOS

  1. A constante decepção que os politicos nos habituam está patente no resultado destas eleições!
    Ninguém pode acreditar numa europa ou num país que é “gerido” por pessoas corruptas e que apenas estão a tratar é do futuro deles borrifando-se completamente para o país ou para a europa!

    • Disse tudo aquilo que eu ia dizer.
      Banca e Política andam sempre de mãos dadas. O Mundo está no estado que está por causa deles.

  2. … um voto em branco (não um nulo ou uma abstenção) deveria significar uma intenção de voto num lugar vazio, a contar no numero total de lugares, de forma a reduzir o numero de políticos (leia-se “tachos”) sem afectar a representação percentual de cada um dos partidos.
    Um voto em branco é uma forma legítima de desacordo com todas as opções apresentadas, e tem (devia ter) tanto peso como qualquer outra.
    A abstenção mostra essencialmente o desinteresse dos eleitores pela classe política actual, poderia ter outra dimensão se os votos em branco contassem.

    • tem toda a razão. isso teria um impacto tremendo e as pessoas iriam com certeza utilizar esse voto útil. mas essa opção não interessa aos políticos. é por isso que existe uma abstenção brutal e que ninguém se rala com ela… favorece o status quo e as pessoas continuam sem opção.

  3. abstenção venceu porque não há nenhuma opção credível em quem votar e em quem as pessoas se revejam com uma solução para a Europa e para os problemas do nosso país. A abstenção é o maior partido, é a maior força ideológica que pensa que os que estão na politica são tachistas profissionais, incompetentes gestores públicos que trabalham para os lobbies que alimentam essa maquina politica e de acordo os seus próprios interesses. Os escândalos silenciosos na administração publica central e local de contratações e salários, os escândalos dos governantes corruptos que os tribunais ilibam, os escândalos da banca e dos negócios privados das grandes empresas, são a causa da abstenção e da desistência da maioria da população tentar exercer um direito de voto que não lhe confere na verdade qualquer credibilidade para as politicas futuras.

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