A Guerra Fria eclodiu nas piscinas de Tóquio. E promete continuar pelos Olímpicos fora

Oli SCARFF / AFP

Após a final dos 200 metros costas, o nadador norte-americano Ryan Murphy sugeriu que acabara de participar numa prova que “provavelmente não foi limpa”. O comentário foi interpretado como uma acusação a Evgeny Rylov, medalhado de ouro que compete pelo Comité Olímpico Russo.

Prometia ser um dos assuntos dominantes dos Jogos Olímpicos, mas a participação do Comité Olímpico da Rússia conseguiu passar sorrateiramente pelos pingos da chuva durante os primeiros dias de competição em Tóquio, sem que a imprensa mundial desenterrasse o escândalo de doping que envolveu o país e que levou a Agência Mundial Anti-Doping a banir os atletas russos de competirem sob a sua bandeira e hino nacional.

No entanto e como destacava a imprensa norte-americana, eles estão por toda a parte — tal era o sucesso alcançado nos primeiros dias. O primeiro a pôr o dedo na ferida foi precisamente Ryan Murphy, uma das estrelas da seleção de natação dos EUA e favorito ao ouro nos 100 e 200 metros costas.



Depois da prova dos 200 metros, que perdeu para o Evgeny Rylov, representante do Comité Olímpico Russo, Murphy veio dizer que estava a “nadar numa prova que provavelmente não foi limpa”. As declarações foram imediatamente interpretadas como uma acusação ao adversário que estabelecera um novo recorde olímpico de 1.53.27 segundos.

“Tenho 15 pensamentos na minha cabeça e 13 deles iriam deixar-me em sarilhos“, disse Murphy aos jornalistas. “É um grande esforço mental atravessar um ano de treino em que sei que vou nadar numa prova que não é limpa, mas as coisas são como são”, disse num estado que variava entre a revolta e a resignação.

O nadador também não se absteve de comentar a decisão tomada pelo COI. “As pessoas que sabem muito mais sobre esta situação tomaram a decisão que entenderam. Eu não tenho largura de banda para treinar para os Olímpicos num nível tão elevado e tentar pressionar as pessoas que estão a tomar decisões erradas”, referiu.

Apenas uma hora depois, os dois desportistas — acompanhados do medalhado de bronze, o britânico Luke Greenbank — sentaram-se lado a lado na conferência de imprensa, com o norte-americano a garantir que a intenção das suas palavras não eram para acusar ninguém.

Ao mesmo tempo, o russo afirmava publicamente, e perante uma sala cheia de jornalistas que registavam todas as suas palavras em gravadores e câmaras, que não se dopava. Greenbank acabou arrastado para a discussão.

“Para clarificar, a minha intenção não era fazer qualquer tipo de alegação. Parabéns ao Evgeny e ao Luke, eles fizeram uma prova fantástica, são dois nadadores muito talentosos que trabalharam arduamente e têm uma técnica fantástica”, esclareceu Murphy, para logo a seguir ser questionado pelos jornalistas acerca da legalidade da prova.

“Um dos aspetos mais frustrantes é que não se consegue responder a essa pergunta com 100% de certeza, por isso não consigo responder à questão. Eu não sei se foi 100% limpa devido ao que aconteceu no passado”, continuou o norte-americano.

O nadador britânico concordou. “Obviamente é uma situação muito difícil não saber se as pessoas contra quem estás a competir estão limpas ou não, mas acho que é algo que faz parte da modalidade. É uma situação frustrante, mas tento focar-me na minha corrida e nas coisas que consigo controlar”, afirmou.

“Há muita atenção mediática em torno de certas nações nestes Jogos e obviamente que é chato ver isso como atleta, sabendo que existiu um programa de doping patrocinado por um Estado e que mais podia ter sido feito para o desconstruir, mas não me cabe a mim tomar essas decisões”, continuou o britânico.

Tal como lembra o The Guardian, Evgeny Rylov é um dos 330 atletas russos autorizados a participar nos JO de Tóquio, e perante o curso que a conferência de imprensa estava a tomar, lá acabou por se manifestar de uma forma um tanto emotiva.

“Eu sempre defendi uma competição justa. Estou sempre testado. Cumpro sempre os requisitos da Agência Mundial Anti-Doping. Do fundo do meu coração, eu estou limpo para competir. Dediquei toda a minha vida a esta modalidade, por isso nem sei bem como reagir a isto. O Ryan não me acusou de nada, por isso prefiro não reagir”,  atirou o russo.

O que se seguiu foi um ataque cerrado da imprensa russa presente na sala ao nadador norte-americano, confrontado com casos como o do seu compatriota Justin Gatlin, que, após ter sido apanhado por duas vezes em controlos anti-doping, foi impedido de competir em edições anteriores dos Jogos Olímpicos.

Ryan Murphy defendeu naturalmente o seu país, afirmando que os EUA têm sido “completamente transparentes relativamente à frequência com que os atletas são testados, aos resultados e às substâncias detetadas, pelo que há controlos a serem feitos”.

Sobre o caso de Gatlin, Murphy caracterizou-o como um “cenário individual“. “Não acho que isso seja comparar maçãs com maçãs, uma expressão muito usada por nós, norte-americanos”, disse.

Apesar de não querer fazer qualquer acusação direta e óbvia, Murphy não desistiu de partilhar o seu estado de alma sobre a situação da modalidade. “No final do dia, eu acredito efetivamente que existe doping na natação. As coisas são como são”, confessou.

A guerra de palavras continuou fora da sala de imprensa, com o CEO da agência anti-doping norte americana, Travis Tygart, a vir a público classificar a punição atribuída aos atletas russos como “farsa“.

À Yahoo Sports, o dirigente começou por afirmar que “todos são inocentes até que se prove o contrário” para logo depois acrescentar que “todos podem ver que a exclusão é uma farsa”. “É praticamente um rebranding que nada faz para parar a corrupção na Rússia e provavelmente irá incentivar outros que também estão dispostos a vencer a qualquer custo.”

Travis Tygart acredita que o castigo não foi duro o suficiente já que permite à Rússia “fazer troça dos Jogos por colocarem a fome das medalhas acima dos valores” que pautam a competição desde a sua criação.

O dirigente norte-americano não ficou sem resposta, com o Comité Olímpico Russo (ROC, na sigla em inglês) a publicar na sua conta do Twitter uma mensagem acompanhada de uma fotografia de Ryan Murphy e Luke Greenbank.

Na primeira frase do texto pode ler-se “como são enervantes as nossas vitórias para os nossos adversários”, contudo o tom sarcástico continua pelo resto do texto.

“Sim, nós estamos nos Jogos Olímpicos. Quer gostem ou não. A velha cassete começou a tocar a canção do doping russo novamente. Propaganda em língua inglesa, ofensas com suor verbal no calor de Tóquio. Através das bocas dos atletas ofendidos pelas derrotas. Não os vamos consolar. Perdoem-nos aqueles que são mais fracos. Deus é o seu juiz. E para nós, um assistente.”

O presidente do ROC, Stanislav Pozdnyakov, também se manifestou publicamente contra os críticos “que achavam que os atletas russos não conseguiam competir sem doping” apesar de a prestação destes em Tóquio “provar o oposto não só com palavras, mas com os atos e medalhas”.

Nesse mesmo dia, outra nadadora norte-americana, Lilly King, também se juntou ao coro de críticas direcionadas à presença dos russos. A vencedora de uma prata e um bronze na capital nipónica afirmou, depois de uma das suas provas, que estavam em Tóquio atletas “que não deviam estar“.

“Eu não estava a competir diretamente com alguém de um país que deveria estar banido mas em vez disso teve a bandeira alterada”, por isso não fui afetada. Mas o Ryan foi“, afirmou.

Um sistema de doping patrocinado pelo estado russo

O castigo aplicado à Rússia remonta a 2019, quando a Agência Mundial Anti-Doping (WADA, na sigla em inglês) suspendeu o país de competições como os Jogos Olímpicos de Tóquio e o Mundial do Qatar, que se realiza em 2022.

Na base da decisão estiveram os resultados laboratoriais adulterados que a Rússia entregou ao mesmo organismo como prova para por fim a uma outra proibição anterior, que tinha sido implementada contra o que se entendia ser um sistema de doping patrocinado pelo Estado russo.

Na altura, a decisão foi classificada pela WADA como “a mais forte possível“, apesar de alguns ativistas colocarem em causa a sua veracidade. Como consequência da punição, a bandeira russa não pode ser hasteada em Tóquio e o seu hino tocado. Ainda assim, os atletas russos estão autorizados a competir sob uma “bandeira neutra“, neste caso a do Comité Olímpico Russo, caso consigam provar que estão limpos.

As críticas ao castigo surgiram de dentro da própria autoridade que controla o uso de substâncias ilegais no desporto a nível mundial. A sua vice-presidente, Linda Helleland, afirmou mesmo que este ficava “aquém” do que seria expectável, o que para ela seria sinónimo de banir os atletas russos de competir.

“Não estou contente com a decisão que tomámos. Mas foi o mais longe que conseguimos ir”, disse Helleland. “Este é o maior escândalo no desporto que o mundo alguma vez viu. Eu espero uma total admissão de culpa por parte dos russos e um pedido de desculpas por toda a dor que os atletas e os adeptos do desporto tiveram de sentir”. Nenhum dos pedidos se concretizou.

Dependendo das fontes de informação consultadas, o Comité Olímpico Russo pode estar atualmente nos terceiros ou quinto lugares dos medalheiros dos Jogos Olímpicos de Tóquio, isto porque os critérios usados variam.

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No caso do New York Times, que ordena as nações de acordo com o número total de medalhas ganhas, o ROC está em terceiro lugar graças às 55 medalhas conquistadas pelos seus atletas. Mas caso se consulte, por exemplo, o The Guardian, os russos estão em quinto, já que o jornal britânico privilegia as medalhas de ouro.

ARM, ZAP //

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