“Vamos fazer ainda mais”, promete Marcelo à chegada a Díli

António Cotrim / Lusa

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, durante a visita à Escola Portuguesa, em Díli.

Marcelo marcou presença na celebração dos 20 anos de independência em Timor-Leste, encontrou-se com Gusmão, pediu mais cooperação bilateral e apontou que a língua portuguesa é como um “passaporte”.

O chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa, prometeu esta quinta-feira, à chegada a Díli para a sua primeira visita oficial a Timor-Leste, “ainda mais” cooperação bilateral e expressou admiração pelo “grande povo” timorense.

“Vamos fazer ainda mais do que aquilo que temos feito”, afirmou o Presidente da República perante os jornalistas, no Aeroporto Internacional Presidente Nicolau Lobato, onde foi recebido por José Maria dos Reis, vice-primeiro-ministro de Timor-Leste, e saudado por grupos tradicionais timorenses de regiões como Baucau, Manatuto e Suai.

“Há muito, muito a fazer e Portugal vai fazer tudo para que os próximos dez anos sejam ainda mais intensos do que estes últimos“, acrescentou, com um pano tradicional timorense — tais — sobre os ombros, em sinal de boas-vindas.

Marcelo Rebelo de Sousa está em Timor-Leste especialmente para as cerimónias oficiais dos 20 anos da restauração da independência, na sexta-feira, e de posse do novo Presidente timorense, José Ramos-Horta, na noite desta quinta-feira, nas quais representará o Estado português e as instituições europeias.

O Presidente da República viajou de Lisboa num voo operado pela EuroAtlantic, com paragem no Dubai, deslocação que no total durou mais de 20 horas.

Nas suas primeiras declarações em Timor-Leste, onde nunca tinha estado, o chefe de Estado manifestou “grande orgulho e grande reconhecimento ao povo timorense por 20 anos de democracia, de paz, de liberdade” e apontou este jovem país como “um exemplo na região e um exemplo no mundo”.

Isso realmente é tão tocante e tão emocionante“, considerou Marcelo.

Assinalando a “sucessão pacífica de chefes de Estado”, disse: “É um exemplo que Timor-Leste dá a todo o mundo e que, portanto, enche a nossa alma de carinho, de ternura, de reconhecimento, de gratidão e de admiração. É um grande povo”.

Marcelo Rebelo de Sousa chegou acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho. Em Díli encontra-se também, em representação do parlamento português, a sua vice-presidente Edite Estrela, deputada do PS.

O vice-primeiro-ministro timorense declarou que “é um orgulho para o Estado e para o governo de Timor-Leste receber o Presidente da República neste aniversário de 20 anos da restauração da independência”. Expressou também a expetativa de que “esta visita possa marcar um novo momento histórico no relacionamento caloroso” entre os dois países.

José Reis destacou o apoio que Portugal tem dado a Timor-Leste ao longo dos últimos 20 anos, particularmente no setor da educação, mas também na justiça, defesa e segurança. “Uma relação que deve ser conservada e promovida por futuros governos”, defendeu.

O chefe de Estado português também enalteceu os “laços fraternos entre os dois países” e referiu que “Portugal tem feito muito, nos mais variados domínios, da educação à cooperação social, política, diplomática, militar, na segurança”, reiterando: “Temos de fazer mais, vamos fazer mais. É isso que aqui venho dizer”.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, pode haver investimento de empresas portuguesas em Timor-Leste em setores como infraestruturas, no turismo, na energia, na transformação digital e na agroindústria.

Nesta primeira visita oficial à República Democrática de Timor-Leste, centrada na capital, Díli, o Presidente português tem um programa dividido por três dias, quinta, sexta e sábado, e regressa a Lisboa no domingo.

Primeiro-ministro agradece apoio de Portugal

O primeiro-ministro timorense agradeceu, esta quinta-feira, o apoio de Portugal a Timor-Leste ao longo dos 20 anos, desde a restauração da independência, em particular “nos momentos mais difíceis” da vida do país.

“Em meu nome pessoal e do Governo, saúdo-o e desejo que tenha uma boa estadia em Timor-Leste”, disse Taur Matan Ruak depois de receber o Presidente português no Palácio do Governo em Díli.

“Em meu nome pessoal e do governo, desejo que tenha boa estadia e aproveito para agradecer todo o carinho, toda a ajuda que Portugal tem dado nos últimos 20 anos, sobretudo nos momentos mais difíceis”, referiu.

Taur Matan Ruak falava na sala do Conselho de Ministros no Palácio do Governo após o primeiro encontro oficial da visita de Marcelo Rebelo de Sousa a Timor-Leste.

No encontro participaram, do lado português, o ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, e a vice-presidente da Assembleia da República, Edite Estrela, enquanto do lado timorense participaram o ministro da Presidência do Conselho de Ministros, Fidelis Magalhães, e a chefe da diplomacia timorense, Adaljiza Magno.

Taur Matan Ruak recebeu o Presidente português na entrada principal do Palácio do Governo, local que acolheu a declaração unilateral de independência de Timor-Leste, pela Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), a 28 de novembro de 1975.

Os dois líderes abraçaram-se efusivamente antes de Taur Matan Ruak colocar um tais, o pano tradicional timorense, em tons azuis sobre os ombros do chefe de Estado português.

Encontro com Xanana Gusmão

O líder histórico timorense, Xanana Gusmão, e o Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, abraçaram-se hoje efusivamente, trocando beijos no rosto, no início de um encontro entre ambos em Díli.

Xanana Gusmão deslocou-se ao hotel onde Marcelo Rebelo de Sousa está alojado e tinha acabado de chegar, em Díli, para um encontro fora da agenda prevista em que entregou ao chefe de Estado português um tais timorense, o pano tradicional oferecido a convidados especiais e reconhecido como património imaterial pela UNESCO.

Um tais especial para um amigo especial“, disse Xanana Gusmão, pedindo que o pano fosse pendurado “na sala principal” do Presidente português.

“De um amigo muito especial. Especialíssimo”, respondeu Marcelo Rebelo de Sousa.

Depois, já sentados, Marcelo Rebelo de Sousa quis “entrevistar” o líder timorense, perguntando a Xanana Gusmão sobre os 20 anos desde a restauração da independência de Timor-Leste e qual era a sua memória mais forte.

“A memória mais forte foi termos conseguido ultrapassar as cicatrizes da guerra. Depois do 20 de maio o estigma da guerra vivia ainda no espírito e no comportamento dos timorenses. Entramos num ciclo de crises que criou quase 150 mil deslocados internos aqui no jardim aqui ao lado”, disse Xanana Gusmão, referindo-se aos confrontos e tensão política de 2006.

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“Uma crise que dividiu os timorenses, com violência, queimaram casas, a matar-se e até membros das forças armadas mataram membros da polícia”, explicou.

O líder histórico timorense disse que “depois de dois anos” foi possível resolver a crise levando o país “a adotar o mote de adeus conflito, bem-vindo desenvolvimento”.

“E aí é que se conseguiu uma unidade de pensamento, sobretudo em termos de que é necessário paz para o desenvolvimento“, afirmou.

Marcelo Rebelo de Sousa está em Timor-Leste para participar nas cerimónias de investidura do novo Presidente, José Ramos-Horta e nas comemorações dos 20 anos da restauração da independência.

Língua portuguesa é um “passaporte”

O chefe de Estado português deu, também esta quinta-feira, um passeio a pé em Díli, levando na mão uma pequena bandeira de Timor-Leste, e falou da língua portuguesa como “passaporte fundamental”.

Logo após chegar a Díli, encontrou-se com Xanana Gusmão. Depois, saiu para uma caminhada entre o hotel em que está instalado e o centro de convenções, num edifício do período colonial onde era o mercado municipal.

No início do trajeto, pediu a umas crianças uma pequena bandeira timorense, de cores vermelha, em representação da luta de libertação nacional, amarela e preta, com uma estrela branca que simboliza a paz, e seguiu com ela na mão.

Pelo caminho, Marcelo Rebelo de Sousa foi acenando e felicitando os timorenses, dando-lhes “parabéns pelos 20 anos de independência”, e parou para comprar um jornal, o Diário, escrito em tétum, que não lhe pareceu difícil de ler: “É facílimo”.

“Pega-se no jornal e lê-se o jornal facilmente, na base do português. O tétum é muito parecido com o português”, reforçou a ideia, mais tarde, o Presidente da República, em declarações aos jornalistas.

Recordando a sua conversa com Xanana Gusmão, disse que o antigo Presidente timorense considera que a língua portuguesa constitui “um passaporte fundamental” para a população timorense maioritariamente jovem e que “a grande aposta de cooperação” bilateral “continua a ser educação, cultura, formação, qualificação”.

“Para além da economia, das finanças, do apoio social, do apoio jurídico e outros, esse é o grande desafio, para uma população tão jovem”, acrescentou Marcelo Rebelo de Sousa.

O chefe de Estado referiu que “o português é a quinta língua mais falada do mundo e é a segunda mais falada no hemisfério sul” e argumentou que permite “uma penetração nos países de língua portuguesa que são grandes economias, em organizações internacionais não-governamentais”.

No centro de convenções, estava uma exposição com bancas de vários organismos do governo timorense, que o Presidente da República percorreu sem pressa, com sucessivas paragens para fotografias, rodeado de gente.

Marcelo Rebelo de Sousa esteve acompanhado pela embaixadora portuguesa em Timor-Leste, Manuela Freitas Bairos, e também pela embaixadora timorense em Portugal, Isabel Amaral Guterres, que o comparou ao “avô Nana”, como é conhecido Xanana Gusmão: “É a maneira de estar com as pessoas. Gostam de estar com as pessoas, crianças, velhos, não importa. São simples”.

Ao fim destes primeiros contactos em Timor-Leste, onde nunca tinha estado, Marcelo Rebelo de Sousa concluiu que “de média idade para cima fala-se português, mais ou menos, percebe-se o português”, enquanto “os mais jovens falam menos, conhecem só palavras básicas” e “muitos falam inglês”.

Porém, relativizou a situação: “É preciso ver que são tantos, tantos, tantos. A ação que estamos a fazer aqui em termos de português abrange já dezenas de milhares. Mas são mais do que dezenas de milhares de jovens“.

  // Lusa

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