Vala comum com guerreiros Han brutalmente desmembrados encontrada na Grande Muralha

Alexey Kovalev

Uma vala comum com 2100 anos de idade, cheia de guerreiros Han brutalmente desmembrados, foi encontrada perto da Grande Muralha da China.

Esta vala funerária sinistra, descoberta no sul da Mongólia, contém os restos mortais de cerca de duas dúzias de guerreiros que foram violentamente executados durante as guerras Han-Xiongnu, no século II A.E.C.

Segundo o All That Interesting, há mais de 2000 anos, teve lugar um terrível massacre nos limites de uma fortaleza na atual Mongólia. Um grupo de homens foi chacinado e depois enterrado numa vala comum.

Mas, até há pouco tempo, os arqueólogos não tinham a certeza de quem controlava a fortaleza — ou de quem estava enterrado nesta cova terrível. No entanto, uma nova análise de ADN dos ossos veio finalmente esclarecer este violento massacre.

De acordo com um novo estudo, recentemente publicado no Journal of Archaeological Science, os homens que foram desmembrados e enterrados na vala comum eram guerreiros Han que aparentemente perderam suas vidas durante as Guerras Xan-Xiongnu no século II AEC.

Isto, por sua vez, dá crédito à teoria de que a fortaleza pertencia aos Han e poderia ser a fortaleza histórica perdida conhecida como Shouxiangcheng.

O foco do estudo foi sítio arqueológico de Bayanbulag, no sul da Mongália, não muito longe da Grande Muralha da China.

Este era o local de uma antiga fortaleza, que se acredita ter sido controlada pelos Han. Há 16 anos, os arqueólogos que trabalhavam no local encontraram uma vala comum numa ribeira próxima, contendo 20 esqueletos e 33 fragmentos de corpos.

Os arqueólogos determinaram que havia, pelo menos, 17 pessoas na sepultura, e talvez mais de duas dúzias. Eram todos homens com idades compreendidas entre os 20 e os 50 anos e todos tinham tido uma morte violenta, tendo muitos sido desmembrados.

“A julgar pelas poses destas pessoas, estavam ajoelhadas quando foram mortas, ou deitadas”, disse Alexey Kovalev, coautor do estudo. “Um deles estava deitado de costas e tentava cobrir-se com as mãos, pelo que lhe cortaram os braços e as pernas e ele endureceu em rigor mortis. A cabeça foi cortada a levada como prova de vitória”.

Os arqueólogos suspeitavam que os homens tinham sido chacinados durante um dos muitos confrontos entre os Han e o povo nómada Xiongnu que ocorreram durante esta época, mas será que os homens da vala comum eram Han ou Xiongnu?

Para investigar a identidade dos homens da vala comum, os investigadores recorreram à análise do ADN e dos isótopos nos ossos.

Ao estudar o ADN de 14 dos esqueletos, os investigadores conseguiram determinar que estes se assemelhavam a populações da bacia do rio Amarelo, na China. Além disso, os isótopos nos ossos — que podem dar pistas sobre o local de crescimento de uma pessoa — revelaram que os homens da vala comum não eram provenientes do Planalto da Mongólia. Ao contrário dos nómadas Xiongnu, que comiam sobretudo carne e lacticínios, a dieta dos homens mortos era composta por plantas e carne.

Por outras palavras, os homens na sepultura eram provavelmente guerreiros Han. Os arqueólogos acreditam que se tratava de um esquadrão de combatentes Han que foram atacados e desmembrados por guerreiros Xiongnu há cerca de 2100 anos.

Isto coincide com a hipótese dos investigadores sobre a sepultura. Como Kovalev disse que “a execução por desmembramento era forma mais vergonhosa de execução para os chineses. Por isso, é muito improvável que os próprios chineses tenham desmembrado os seus camaradas“.

Os investigadores viram sinais de que os Han tentaram cuidar dos seus homens mortos. Aparentemente, tentaram recolher todos os pedaços dos corpos dos soldados para os enterrarem juntos, na esperança, talvez, de atenuar a vergonha do desmembramento.

“Aqueles que enterraram esses soldados tentaram fazer com que eles se sentissem bem na vida após a morte“, explicou Kovalev. “É significativo que todos os pequenos pedaços de braços e pernas cortados, cabeças cortadas e outros pedaços de corpos humanos tenham sido recolhidos para o enterro. Para além disso, colocaram uma albarda e um bocal, simbolizando o seu serviço militar. Quanto às ações dos inimigos, vemos claramente as atrocidades dos Xiongnu”.

Por sua vez, confirma uma teoria sobre a própria fortaleza. Apesar de a maioria dos investigadores ter assumido durante muito tempo que se tratava de uma fortaleza Han, com base nos artefactos encontrados no local, tal ainda não tinha sido provado. No entanto, dada a identidade dos soldados mortos, parece mais provável do que nunca que a fortaleza tenha pertencido aos Han.

Pode até ser a famosa fortaleza conhecida como Shouxiangcheng. Esta fortaleza, mencionada em textos chineses, foi construída em 104 A.C.E pelos Han, durante a era da guerra com os Xiongnu. No entanto, a sua localização tinha-se perdido no tempo.

Alexey Kovalev

“Os resultados das nossas escavações de 2009 na fortaleza e no túmulo indicam que Bayanbulag é o Shouxiangcheng”, disse Kovalev. “Foi usada como base para campanhas militares contra os Xiongnu… As provas são muito fortes. Encontrámos um grande número de fragmentos de cerâmica, e todos eles pertencem às tradições culturais Han”.

Acrescenta, que “escavámos um grande edifício de arquitetura típica chinesa, que estava coberto com telhas de tipo chinês. Encontrámos cerca de 250 pontas de seta de besta, cerca de 15 fragmentos de fechaduras de besta, um grande número de ferramentas de ferro Han, buchas, ganchos. Encontrámos também selos privados, moedas e outros artefactos chineses”.

“A nossa descoberta é importante porque confirma plenamente os dados de fontes escritas sobre o papel que a fortaleza de Shouxiangcheng desempenhou na guerra como a principal base militar do exército chinês”.

Alexey Kovalev

As Guerras Xan-Xiongnu foram uma série de conflitos sangrentos entre o Império Han chinês e o povo nómada Xiongnu. Os dois grupos entraram em confronto já em 200 A.E.C., embora a guerra tenha começado a sério por volta de 133 A.E.C. Durante 200 anos, tendo começado a abrandar por volta de 80 A.E.C.

Os Han saíram vitoriosos, enquanto as forças Xiongnu, em grande parte obliteradas, foram forçadas a fugir para oeste. Mas viriam a ter uma vingança histórica, pois muitos dos seus descendentes formaram os poderosos hunos.

Esta vala comum encontrada na Mongólia oferece um olhar macabro sobre este conflito secular. Embora os Han tenham acabado por ganhar a guerra, a forma como os homens desta vala comum morreram ajuda a revelar o custo brutal da vitória.

Alexey Kovalev

De facto, os arqueólogos acreditam que há mais para descobrir no sítio de Bayanbulag, mas precisam de muito mais tempo e financiamento para escavar completamente a área.

“Há, pelo menos, mais uma sepultura deste tipo — temos de a estudar cuidadosamente”, disse Kovalev. “Além disso, escavámos menos de 10% de toda a fortaleza, precisamos de fazer uma escavação maior. Os saqueadores com detetores de metais estão a trabalhar neste local, recolhendo artigos de bronze e ferro. É melhor explorar a fortaleza o mais rapidamente possível. Também precisávamos de restaurar centenas dos nossos achados e publicar um relatório completo sobre as escavações de 2009. Mas não há fundos afetados para isso ou para as próximas escavações”.

Kovalev conclui: “Espero que a publicação atraia a atenção dos patrocinadores e das agências governamentais da Mongólia para a importância desta tarefa”.

Teresa Oliveira Campos, ZAP //

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