150 soldados romanos foram derrotados no que é hoje um campo de futebol. Assim nasceu Viena?

A. Slonek/Novetus

O local onde foram encontrados os restos mortais dos soldados romanos.

Rara vala comum nasceu de acontecimento militar “catastrófico” há cerca de 2000 anos. Derrota romana perante tribos germânicas “pode representar o momento da fundação de Viena”.

Por baixo do relvado de um campo de futebol no bairro de Simmering, em Viena, estavam as ossadas de 150 soldados romanos — um achado que está a surpreender o mundo arqueológico. Pode mesmo ser a primeira prova física de batalhas romano-germânicas na região da atual Viena.

A enorme vala comum — identificada em outubro e cujas escavações foram levadas a cabo por arqueólogos e historiadores do Museu de Viena — , revelou que os restos mortais datam de entre 80 e 234 d.C., período “quente” no Império Romano, com a expansão na Europa Central, durante os reinados de imperadores como Domiciano e Trajano, que lideraram campanhas contra as fortes tribos germânicas.

Os soldados encontrados no campo de futebol terão morrido durante um acontecimento militar “catastrófico” há cerca de 2000 anos.

A par dos esqueletos lesionados por espadas e lanças — um achado “extremamente raro”, uma vez que a maioria dos corpos eram cremados na altura — os investigadores encontraram artefactos militares romanos, incluindo punhais de ferro, pontas de lanças, peças de armadura de escamas e uma peça da face de um capacete. Mas foram os sapatos, com padrões distintos de pregos, que confirmaram que os investigadores estavam perante soldados romanos.

Mas um dos aspetos mais impressionantes da descoberta foi mesmo a forma como os corpos foram enterrados. Ao contrário do costume romano de cremação que predominou até ao século III d.C., estes soldados foram enterrados apressadamente e sem cerimónia. Muitos corpos foram encontrados deitados de lado ou de barriga para baixo, com os membros emaranhados, o que sugere que foram enterrados em massa após o violento confronto.

Os ferimentos nos esqueletos – como fraturas do crânio e feridas no tronco e na pélvis — apontam para morte em combate, infligida por lanças, espadas, punhais e possivelmente projéteis de ferro de bestas.

“A natureza indigna do local de enterramento, juntamente com as feridas mortais encontradas em cada indivíduo, sugere um confronto militar catastrófico, possivelmente seguido de uma retirada precipitada”, disse Martin Mosser, arqueólogo do Departamento de Arqueologia Urbana de Viena, que trabalhou no projeto, à agência AP.

Os investigadores sugerem que a derrota poderá ter levado os romanos a fortificar um posto avançado nas proximidades, que mais tarde evoluiu para Vindobona, a antecessora da atual Viena. “Isto pode representar o momento da fundação de Viena”, disse Mosser. “Sugere uma razão concreta para a construção de Vindobona como uma fortaleza legionária em grande escala, o que nos levaria ao momento da fundação de Viena”, disse.

A forma como foram enterrados, com “desprezo”, pode dever-se ao facto de terem saído derrotados.

“Penso que estamos perante um outro momento que reflete uma derrota romana e um enterro de tropas após o facto”, disse David Potter, professor de História Grega e Romana na Universidade de Michigan que não esteve envolvido na investigação.

“Em toda a Europa Central do século I, não temos quaisquer restos humanos não queimados e não cremados”, disse Michaela Binder, a principal antropóloga do projeto, “por isso, para além do aspeto militar, é uma oportunidade única de estudar as histórias de vida das pessoas no século I d.C. Temos a oportunidade única de estudar a vida de soldados romanos normais.”

ZAP //

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.