Vacas alimentadas com girassóis de Viana do Castelo dão queijo “especial” em Barcelos

A primeira plantação de girassóis em Carreço, Viana do Castelo, tem mais de um hectare e vai alimentar cerca de 200 vacas de uma exploração de Barcelos para dar um queijo com “textura especial” produzido para épocas festivas.

“O queijo que fizermos para o Natal ou para a Páscoa já será com o leite produzido por vacas alimentadas pelos girassóis de Carreço. É um leite com características únicas por causa do óleo de girassol, o que resulta num queijo com uma textura especial. É um queijo de cura longa que fabricamos simples ou enriquecido com pinhão ou amêndoa”, explicou Miguel Lemos, proprietário de uma exploração agropecuária em Chorente, Barcelos.

A plantação de girassóis em Viana do Castelo, no Alto Minho, foi semeada em junho, como resultado de uma parceria entre o empresário e a Elisabete Fontainhas, proprietária de 20 hectares de terrenos na veiga de Carreço.

Do “teste” feito em 13 mil metros quadrados de campo nasceram “70 a 80 mil plantas de cinco variedades de girassol”. Vão começar a ser colhidas em meados deste mês e, segundo as estimativas de Miguel Lemos, é esperada “uma produção de 40 toneladas de alimento seco” para as 60 vacas leiteiras da exploração do empresário.

As contas de Miguel apontam para uma produção de cerca de 30 mil litros de leite, que será transformado “numa pequena queijaria artesanal”, em aproximadamente 3.500 quilos de queijo “especial”.

“Com uma alimentação à base de silagem de girassol conseguimos produzir mais queijo, com menos litros de leite, ao contrário do que acontece com a silagem de milho. Por outro lado, por causa da gordura da planta de girassol, o queijo ganha uma textura muito boa e é muito versátil, em termos gastronómicos”, garantiu.

Ligado desde sempre à lavoura, Miguel Lemos “tornou-se profissional” da agricultura em 1990, após a formação em zootecnia e cuidados veterinários. Há cinco anos começou a apostar na plantação de girassóis para alimentar as 200 cabeças de gado bovino da Quinta da Pegadinha, que lhe dão, por mês, 75 mil litros de leite, 30% dos quais para fabrico de queijo.

Os cinco hectares que planta com aquela cultura são insuficientes para aumentar a produção do queijo “especial” que lançou há quatro anos. Precisa de mais girassol, mas não tem campos disponíveis para o cultivar.

Já Elisabete Fontainhas, solicitadora de 42 anos, tem terrenos de sobra, porque a vacaria que explora e onde chegou a ter 150 animais está localizada numa zona com limitações legais. Elisabete tem agora apenas 50 animais para reprodução.

Impossibilitada de expandir o negócio por “condicionantes impostas pelo Plano Diretor Municipal (PDM) de Viana do Castelo, a aposta em novas culturas foi a “alternativa” que encontrou para rentabilizar cerca de 20 hectares de terreno, na veiga de Carreço.

“Que tenha conhecimento, na freguesia de Carrelo esta é a primeira plantação de girassóis. No concelho de Viana do Castelo, com esta dimensão, penso que também será a primeira plantação”, afirmou.

Além da “sustentabilidade” do negócio familiar, Elisabete decidiu avançar com a plantação de girassóis “para fazer ver à sociedade a importância dos agricultores”. “Dizem que os agricultores só poluem, mas esta aposta demonstra que se os agricultores deixarem de trabalhar a terra ficará tudo cheio de silvas e mato”, reforçou a solicitadora.

Em pleno verão, a plantação de girassóis não passou despercebida aos frequentadores da praia de Paço. O acesso ao mar faz-se por entre campos agrícolas. Ao verde tradicional dos milharais associou-se, este ano, o amarelo da planta associada ao amor e à felicidade.

Nos últimos meses, os girassóis serviram de cenários a inúmeras sessões fotográficas, vídeos de casamentos ou mesmo a ‘selfies’. “Chegam a fazer fila para tirar fotos“, brincou Elisabete que espera ver evoluir a parceria com o empresário de Barcelos. “Se tudo correr bem para o ano poderemos estar a ver muitos mais girassóis nestas paragens.”

Com um ciclo de cultura a variar entre os 80 e os 100 dias, as plantas começam a ser colhidas por uma máquina automotriz, a mesma utilizada na colheita do milho. “Este ano fizemos um ensaio e funcionou bem. Estamos a estudar os comportamentos das cinco variedades que semeamos para ver a que melhor se adapta a esta zona, próxima do mar, sujeita a ventos fortes, a testar o terreno e a resistência da planta por não ser utilizada rega”, explicou Miguel Lemos.

Cerca de 50% da alimentação diária das 200 vacas leiteiras da exploração de Miguel Lemos é garantida pela selagem de girassol. O resto é milho, cereais e pasto.

“O girassol é muito rico em gordura e, essa gordura, tem muito Ómega 6 e 9 e Vitamina E. São os principais fatores que ajudam na transformação do leite em queijo. Além disso, o óleo da planta ajuda a ter mais rendimento, porque com menos litros de leite conseguimos fabricar mais queijo. É um queijo forte, mais elástico e versátil que acompanha bem um vinho ou uma sobremesa. Pode ir ao forno e dá umas ótimas francesinhas”, especificou.

Em termos ambientais, explicou Miguel, “é uma cultura mais benéfica, por reduzir as pragas e doenças dos solos, por atrair insetos, de fácil maneio e baixo risco”.

A produção de forragem para os animais, para garantir a produção do queijo Pegadinha, é apenas a primeira fase do projeto empresarial que Miguel Lemos tenciona pôr em prática. Para o futuro, a intenção passa por produzir sementes de girassol e óleo para conservar o queijo.

Lusa // Lusa

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