Afinal, tubarões fazem ruídos. São tão intensos como um disparo e já conseguimos ouvi-los

Wikipedia

Mustelus lenticulatus

Cientistas “apanharam” pela primeira vez o comportamento sonoro, que só ocorre quando os tubarões são manuseados. Há três hipóteses em cima da mesa para explicar porque o fazem.

Afinal, os tubarões não são predadores assustadoramente silenciosos: também fazem barulhos, e agora, pela primeira vez, podemos ouvi-los.

Sons de estalidos altos foram descritos num estudo publicado esta quarta-feira na Royal Society Open Science. Até os autores ficaram surpreendidos com esta novidade.

“Fiquei muito surpreendida”, disse Carolin Nieder, do Instituto Oceanográfico Woods Hole, ao ScienceAlert: “partia do princípio de que os tubarões não emitem sons”.

Os cientistas recorreram a 10 exemplares de cação-pintado-de-estuário (Mustelus lenticulatus) — 5 machos e 5 fêmeas com 55,5 a 80,5 centímetros de comprimento capturados em estuários da Nova Zelândia — e colocaram-nos em pequenos tanques com microfones subaquáticos.

Quando suavemente manuseados, cada tubarão produziu, em 20 segundos, cliques curtos e de alta frequência, com uma duração média de 48 milissegundos e frequências de pico que variavam entre 2,4 e 18,5 kilohertz. A intensidade destes estalidos — até 166 decibéis — é comparável ao disparo de uma arma de fogo ou à explosão de um petardo.

Mas os tubarões só emitiram estes sons quando os chateavam: ficavam em silêncio quando estavam sossegados, a nadar e a comer.

“No início, pensámos que poderia ser um artefacto estranho. Mas à medida que os animais se habituavam ao protocolo experimental diário, deixaram de fazer os estalidos, como se se tivessem habituado a estar em cativeiro e à rotina experimental. Isto levou-nos a considerar que talvez estejamos a observar um comportamento de produção de som e não um artefacto estranho”, explicou Nieder.

Como e porque é que o fazem?

Mas como é que estes tubarões fazem estes barulhos? A hipótese mais plausível neste momento para os investigadores é que eles fecham as mandíbulas, fazendo com que os dentes estalem com muita força, mas isso ainda não foi confirmado.

“Dentro dos limites dos dados disponíveis, a gama de frequências de banda larga e a curta duração dos cliques das plataformas sugerem o envolvimento de dentes estalados durante o fecho rápido da boca para a produção de som”, explica o estudo.

E será que eles próprios conseguem ouvir o estalido que emitem? Essa é outra pergunta ainda sem resposta. Se não conseguirem, os cliques podem ser apenas uma reação involuntária ao stress e ao susto; se conseguirem — e se outros tubarões também conseguirem —pode ser que os estalidos sejam uma forma de comunicação.

Ainda há quem diga que os tubarões estão a imitar o som de camarões, um dos seus “snacks” preferidos, para os atrair.

“Scott Tindale (Tindale Marine Charitable Trust), que dedica a sua vida a marcar tubarões e outros peixes em toda a Nova Zelândia e Austrália e que, por acaso, ouviu cliques semelhantes de plataformas na natureza, mesmo antes de eu os ter notado, pensou que talvez as plataformas tentassem imitar camarões (parte da sua dieta) para os atrair para fora das suas tocas no sedimento e depois atacá-los. Penso que essa é também uma teoria muito interessante”, disse Nieder.

Há cada vez mais provas de que estes cações não são os únicos a emitir sons. Os investigadores suspeitam que os elasmobrânquios — o grupo de peixes cartilagíneos que inclui tubarões, raias e patins — podem ter capacidades sonoras, ao contrário do que se pensava.

Tomás Guimarães, ZAP //

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.