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Trump implementou o “jornalismo invisível”. Marcelo quase lhe chamou ditador

Alex Edelman / EPA

Donald Trump vai passar a decidir quem lhe faz as perguntas. Marcelo Rebelo de Sousa acusou o homólogo norte-americano de estar a “deslizar para a ditadura”. Quanto a Portugal, o Chefe de Estado considera que o escrutínio é um preço a pagar por quem exerce cargos políticos.

Donald Trump anunciou, esta terça-feira, novas regras para a comunicação social, na Casa Branca, passando a decidir que jornalistas podem fazer-lhe perguntas.

Marcelo Rebelo de Sousa reagiu, condenou e acusou o homólogo norte-americano de estar a implementar o “jornalismo invisível”.

“Os jornalistas passam a ser invisíveis. Podem estar lá, mas é figura de corpo presente. Não estão”, considerou.

O chefe de Estado português foi mais além e quase chamou ditador a Trump (pelo menos, diretamente), tendo descrito esta opção como “o deslizar da democracia para a ditadura”.

O Presidente da República falava na Casa da Imprensa, em Lisboa, na sessão de abertura de um debate sobre a Lei de Imprensa de 1975, publicada há 50 anos, que consagrou a proibição de qualquer forma de censura.

Não se sabendo o que é a ditadura, não se compreende o risco da ditadura e não se compreende o risco das rampas deslizantes das democracias para as ditaduras. E, no entanto, hoje basta abrir as televisões – já não falo nas redes sociais – para assistirmos em países democráticos dos mais fortes ao que é o deslizar da democracia pela ditadura”, afirmou.

Referindo-se a Donald Trump, Marceloacrescentou: “Quando o Presidente da mais antiga e mais reputada como forte democracia acaba de fazer saber quais são os jornalistas autorizados a colocarem-lhe perguntas nas conferências de imprensa, nos encontros, no centro do poder, está tudo dito”.

“Está tudo dito”, repetiu.

Jornalistas não podem ser jornalistas

O chefe de Estado criticou as novas regras da Casa Branca para a comunicação social, comentando que “só falta, verdadeiramente, que o chefe do executivo dos EUA faça as perguntas” ele mesmo, para então “dar as respostas que quer dar”.

“Ele próprio diria ‘olhe, eu perguntaria isto a mim mesmo; e o que eu respondo é aquilo'”, exemplificou Marcelo Rebelo de Sousa.

“A partir deste momento, nenhum jornalista, verdadeiramente, respeitando os códigos éticos, se sente bem participando numa conferência de imprensa, num encontro com responsáveis do poder de uma democracia, sabendo que só ele, e não os outros que estão na sala, têm autorização para colocar perguntas”.

Em Portugal podem (e têm-no sido)

Referindo-se ao escrutínio a que os políticos portugueses (nomeadamente dentro do Governo) estão sujeitos e têm sido alvo pela comunicação social, Marcelo disse que esse é um preço a pagar por quem exerce cargos políticos.

Interrogado se considera que os jornalistas estão a pressionar o Governo, a propósito da empresa da família do primeiro-ministro, Luís Montenegro, e de governantes com empresas imobiliárias, o chefe de Estado respondeu que não iria comentar “casos concretos” relativos “a questões políticas e a notícias e especulações e tal”.

No início desta semana, o Observador noticiou que o núcleo duro de Montenegro acredita estar em curso uma “estratégia concertada para desgastar o primeiro-ministro”. Além disso, apontou uma atitude editorial hostil por parte da RTP, contra o líder do Executivo.

Entretanto, numa nota publicada na manhã desta quarta-feira pela Direção de Informação da RTP, a televisão pública disse que não se deixará condicionar por tais declarações.

“Os escrutínios dos poderes públicos é uma das missões principais do jornalismo livre e independente. É essa também a missão da RTP. Quaisquer que sejam e de onde quer que venham as insinuações de alegadas “estratégias concertadas” têm apenas uma resposta simples e linear: os jornalistas da RTP não se deixam condicionar e continuarão a cumprir o seu dever profissional”, pode ler-se.

O Presidente da República defendeu que “a comunicação social tem um papel a desempenhar”, que pode ser “desagradável para os titulares de poderes políticos, mas é um preço”.

ZAP // Lusa

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