O trágico adeus das Ilhas Comores na CAN: Adeptos mortos, guarda-redes improvisado e expulsão

CAF / Twitter

Chaker Alhadur, guarda-redes improvisado das Ilhas Comores.

Chaker Alhadur, guarda-redes improvisado das Ilhas Comores.

Depois de um surto de covid-19, as Ilhas Comores tiveram de improvisar na baliza. Antes do jogo, pelo menos oito adeptos morreram espezinhados.

As Ilhas Comores são um humilde arquipélago, com menos de um milhão de habitantes, localizado no leste da África. Futebolisticamente falando, o país está longe de ser uma potência continental, mas na Taça das Nações Africanas (CAN) tinha vindo a surpreender até ao dia.

Esta segunda-feira, as Ilhas Comores foram eliminadas dos oitavos-de-final da competição, após perderem por 2-1 contra os Camarões. Olhando de fora, parece um resultado normal: uma vitória de uma nação que, além de anfitriã, tem muito mais provas dadas.

No entanto, o contexto deste jogo foi muito mais dramático do que simplesmente os números podem mostrar.

Antes de defrontar os Camarões, Comores venceu a tetracampeã Gana, por 3-2, e conquistou a sua primeira vitória no torneio. O triunfo no último jogo da fase de grupos foi suficiente para deixar o país como um dos melhores terceiros classificados. Foi a primeira vitória de sempre das Ilhas Comores na CAN.

As fotografias da vitória pela margem mínima ao Gana ilustram bem aquilo que significou para os jogadores.

Os problemas chegaram depois. A delegação das Ilhas Comores teve no sábado um surto de covid-19, com 12 casos positivos. Os guarda-redes Moyadh Ousseini e Ali Ahamada estavam entre os infetados e a terceira opção, Bem Boina, estava lesionado.

“Estamos a fazer o nosso possível para encontrar soluções, mas, sem o treinador, sem alguns jogadores importantes e, sobretudo, sem os únicos guarda-redes disponíveis, a situação é muito complicada”, assumiu o diretor El Hadad Hamidi.

Assim, as Ilhas Comores entravam para a partida com os Camarões, esta segunda-feira, sem um guarda-redes de raiz.

A missão de proteger as redes da sua pátria coube a Chaker Alhadur. A altura e a agilidade do defesa do Ajaccio, da segunda divisão francesa, foram decisivas para a decisão de colocá-lo entre os postes.

A camisola de Alhadur foi ainda remendada com o número 3, em fita adesiva, por cima do seu número original, o 16.

O lateral de origem protagonizou uma série de boas defesas e conseguiu até manter a baliza inviolada durante 29 minutos. Isto numa altura em que as Ilhas Comores já jogavam com menos um elemento.

Logo aos sete minutos, Nadjim Abdou, um dos jogadores com mais experiência do país, levou cartão vermelho após pisar o calcanhar do adversário.

Karl Toko Ekambi foi o autor do primeiro golo dos Camarões, que só voltariam a marcar aos 70 minutos, por intermédio do ex-portista Vincent Aboubakar.

As Ilhas Comores ainda conseguiram marcar um golo de honra, através de um livre direto convertido do “meio da rua” por Youssouf M’Changama, aos 81 minutos. Um golo para ver e rever.

Olhando só para as estatísticas do encontro, ninguém adivinharia que uma das equipas esteve sempre a jogar com um guarda-redes improvisado e com menos um elemento durante mais de 80 minutos.

No final do encontro, o selecionador dos Camarões, o português Toni Conceição, não escondeu a satisfação pelo apuramento, mas lamentou o resultado que soube a pouco.

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“Ganhámos, que era o principal objetivo, e estamos no nosso caminho com a intenção de chegarmos à final. O jogo foi aquilo que já esperávamos. Difícil, perante uma equipa que sabe o que quer dentro de campo, é organizada e é capaz de sair em transição da defesa para o contra-ataque. Podíamos ter feito mais golos, dado o volume ofensivo que apresentámos, mas o adversário também criou ocasiões”, disse o técnico de 60 anos.

Oito adeptos morreram espezinhados

Fora do campo — e ainda antes do jogo — aconteceu a maior tragédia do dia.

Pelo menos oito pessoas morreram e 38 ficaram feridas numa debandada de adeptos que tentaram forçar a entrada no estádio Olembe, em Yaoundé, informou o Governo dos Camarões.

Num comunicado divulgado pela emissora estatal camaronesa, a CRTV, o ministro da Comunicação, René Emmanuel Sadi, disse que sete dos feridos encontram-se em estado grave.

A FIFA já enviou “condolências às famílias e aos mais próximos de todos os que perderam a vida”, acrescentando que “nestes momentos difíceis, a comunidade do futebol está unida em preces e pensamento com as vítimas e os feridos, bem como com a Confederação Africana de Futebol e a Federação de Futebol dos Camarões”.

  Daniel Costa, ZAP //

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