Tornados nos EUA. Fábrica onde morreram oito pessoas ameaçou despedir trabalhadores que fugissem

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Tannen Maury / EPA

A fábrica tinha já um historial de multas por violar as normas de segurança no trabalho. O governador do Kentucky promete que as circunstâncias das mortes vão ser investigadas pelas autoridades.

Quando se aperceberam de que os tornados estavam prestes a atingir a área onde estava localizada a fábrica de velas Mayfield Consumer Products, os trabalhadores imploraram aos gerentes que os deixassem sair das instalações e procurar um lugar seguro – mas dizem ter sido ameaçados com despedimento se o fizessem.

Os tornados que atingiram vários estados nos Estados Unidos já mataram 88 pessoas, incluindo 74 só no Kentucky. Mais de 18 mil casas continuavam sem energia na terça-feira, tendo o governador do estado falado no “conjunto de tornados mais forte que já vimos no Kentucky e provavelmente um dos eventos mais devastadores na história dos EUA”.

Segundos os relatos à NBC, pelo menos 15 funcionários pediram aos superiores que os deixassem ir para casa quando souberam da proximidade dos tornados, mas isso foi-lhes recusado. Alguns acabaram por ignorar os supervisores e abandonar o trabalho na mesma, com receios pela sua segurança.

A fábrica acabou por ficar completamente destruída e só restam destroços. Pelo menos oito pessoas perderam a vida na Mayfield Consumer Products.

McKayla Emery, de 21 anos, revela numa entrevista a partir do hospital que os trabalhadores começaram a pedir para sair pouco depois das sirenes que avisaram para a proximidade do tornado se ouvirem fora da fábrica.

“Se saírem, é mais que provável que sejam despedidos”, terão dito os gerentes a quatro trabalhadores, segundo Emery. “Ouvi isso com os meus próprios ouvidos“.

Como avanço da tempestade, a jovem foi atingida na cabeça com um bocado de cimento e ficou presa durante seis horas, ficando com queimaduras químicas graves nas pernas, nádegas e na testa devido à cera das velas. Também sofreu danos nos rins e ainda não consegue mexer as pernas.

Outra funcionário, Haley Conder, de 29 anos, diz que houve um período de entre três a quatro horas entre o primeiro e o segundo alarme de emergência e que, nessa altura, os funcionários deveriam ter podido ir embora.

Inicialmente, os supervisores disseram que não deixavam os trabalhadores sair por razões de segurança, levando toda a gente para os corredores e para as casas de banho. Quando já achavam que o tornado tinha passado e não havia perigo, mandaram toda a gente voltar ao trabalho, revela Conder.

Já Elijah Johnson, de 20 anos, também foi negado o pedido e diz que os gerentes até chegaram a fazer uma lista para descobrirem quem tinha saído do trabalho.

É completamente falso“, respondeu Bob Ferguson, um porta-voz da fábrica. “Temos uma política desde o início da covid. Os empregados podem sair a qualquer hora e podem voltar no dia seguinte”, negou o representante, que diz não ser verdade que os gerentes ameaçaram despedir os trabalhadores e que a equipa seguiu as normas de segurança implementadas pelas autoridades federais.

As previsões iniciais antecipavam que o número de mortos na fábrica fosse bastante superior, tendo o governador Andy Beshear descrito o caso como um “milagre”, visto estarem mais de 100 pessoas nas instalações. “Se viram pessoalmente”, disse, sobre os destroços da fábrica, “acreditariam que é um milagre“.

Beshear também revelou aos jornalistas que as autoridades estaduais vão investigar nos próximos meses as mortes na fábrica e que vão “descobrir o que se passou”.

Segundo o NPR, a fábrica tinha um historial de violações das normas de segurança e em 2020, a taxa de ferimentos no trabalho na Mayfield Consumer Products era superior à média da indústria. Em 2019, a empresa também foi multada em 16 mil dólares por falhas na segurança e tem usado, nos últimos anos, mão de obra barata de prisioneiros.

  Adriana Peixoto, ZAP //

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