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O sonho de Christo concretizou-se, 60 anos depois. O Arco do Triunfo foi embrulhado como um presente

Christophe Petit Tesson / EPA

Ver o Arco de Triunfo embrulhado em tecido era o sonho do artista plástico Christo Vladimirov Javacheff

Já desde o início dos anos 60 que Christo imaginava como seria cobrir o Arco do Triunfo em tecido. A sua visão foi finalmente concretizada e pode ser visitada entre 18 de Setembro e 3 de Outubro.

Era o primeiro sonho de Christo e foi também o seu último desejo a ser concretizado. Foi há quase seis décadas que, ao avistar o Arco do Triunfo da janela do seu apartamento em Paris, que o artista plástico búlgaro Christo Vladimirov Javacheff teve pela primeira vez a ideia que marcaria a sua carreira – embrulhar monumentos e edifícios em tecido.

Infelizmente, nem Christo nem a sua esposa Jeanne-Claude estão vivos para ver essa ideia finalmente a tornar-se realidade. A partir de 18 de Setembro e até 3 de Outubro, os parisienses e os turistas vão poder ver o Arco do Triunfo empacotado. A visão foi concretizada por Vladimir Javacheff, um sobrinho do casal.

O monumento de 50 metros de altura está inteiramente coberto com 25.000 metros quadrados de tecido de polipropileno prateado com reflexos azuis reciclado, amarrado por 3.000 metros de corda vermelha. A instalação ocorreu 24 horas por dia, em três turnos de oito horas, e exigiu o trabalho de 1200 pessoas.

“Será como um objeto vivo que ganhará vida com o vento e refletirá a luz“, tinha explicado Christo ao apresentar o seu projecto final para o Arco do Triunfo, dois anos antes da sua morte, que aconteceu em 2020 em Nova Iorque.

O embrulho tem um custo de 14 milhões de euros, sendo a sua concretização totalmente paga com a venda dos desenhos, maquetes e litografias da Fundação Christo. “Acompanhar a instalação de uma obra como esta, nas actuais circunstâncias, é mágico”, afirma Bruno Cordeau, administrador do Arco do Triunfo.

O responsável pelo monumento acrescenta que o arco “não é um monumento como os outros”. “É o da harmonia nacional. É também um lugar de cultura. A obra de Christo tem a elegância e a humildade de ser efémera. Ao fim de duas semanas, ela vai desaparecer”, diz. Já Javacheff prefere dizer “temporário“, já que o tio não gostava do termo “efémero”.

“Testamento póstumo de sua genialidade artística, o Arco do Triunfo empacotado é um presente formidável aos parisienses, aos franceses e a todos os aficionados da arte. Querido Christo, aí nas estrelas, obrigada por teres amado tanto a França e por nos dares este presente incrível. Obrigada pelo génio, obrigada pela loucura, obrigada pela poesia”, disse a Ministra da Cultura, Roselyne Bachelot, na apresentação do projecto.

Também presentes na apresentação estiveram Anne Hidalgo, presidente da Câmara de Paris; Philippe Béval, Presidente do Centro de Monumentos Nacionais, Emmanuel Macron, Presidente da França e também Michael Bloomberg, ex-autarca de Nova Iorque.

Anne Hidalgo explicou que a experiência parisiense anterior com Christo quando o artista embrulhou a Pont Neuf, em 1985, foi decisiva para autorizar uma repetição com o Arco do Triunfo. A autarca afirma que o projecto da ponte ajudou a “despertar esta cidade“.

“Christo perturba-nos, transtorna-nos, leva-nos a falar. Há quem goste e quem não, mas, bom, no fundo essa é a função da arte que Christo nos propôs por toda a sua vida. Ele leva-nos a sentirmo-nos vivos“, elogiou Hidalgo.

A obra não é consensual devido ao desperdício de tecido numa altura em que a indústria da moda é tão criticada por causa da chamada fast fashion, sendo essa uma das críticas do arquitecto Carlo Ratti, amigo de Christo. No entanto, Yavacheff respondeu que o tecido é reciclável, assim como metade o metal usado para os andaimes.

  Adriana Peixoto, ZAP //

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