Vieira assume que “só há um responsável, que sou eu”. E mantém Jesus até ao fim

O presidente do Benfica assumiu, este domingo, a responsabilidade pela crise de resultados e garantiu que Jorge Jesus irá cumprir até ao fim o contrato que o liga ao clube até 2022.

Numa entrevista exclusiva à BTV, por ocasião do 117.º aniversário do Benfica, Luís Filipe Vieira mostrou-se revoltado com a contestação que, disse, “não faz sentido nenhum”, quando, nas eleições de há quatro meses, “dois em cada três sócios do Benfica” votaram na sua lista.

Só pode haver um responsável, que sou eu. Os sócios elegeram-me para ser presidente do Benfica, portanto, na hora das derrotas, não vale a pena andarmos à procura de fantasmas. Só há um responsável, que sou eu”, frisou.

Ainda assim, o presidente das águias sublinhou que não entende a contestação de que é alvo e considerou que o clube “dificilmente ganha” se não tiver estabilidade, acusando o “comportamento que está agora a existir” de ser responsável por o clube ter demorado “39 anos para conquistar um bicampeonato”.

Vieira lembrou que segurou Jorge Jesus no comando da equipa, em 2013, após o técnico perder “nos últimos minutos” o campeonato para o FC Porto, a Liga Europa para o Chelsea e a Taça de Portugal para o Vitória Sport Clube, decisão após a qual o Benfica ganhou “tudo dali para a frente”.

Jesus é o treinador que mais títulos conquistou

“Já percebi que vai perguntar-me se Jorge Jesus vai continuar ou não. Logicamente tem de continuar, tem de cumprir o contrato. Mas porque é que tem de sair? Ele não é um treinador competente?”, interpelou Vieira.

O dirigente, de resto, lembrou que “toda a gente dizia que era o treinador que tinha de vir para o Benfica” e que “até as outras duas listas” que concorreram consigo à liderança do clube da Luz “apoiavam o Jorge Jesus”.

“Tem provas dadas neste clube. Ele não precisa que eu o esteja a defender, esta é a realidade. O Jorge tem 12 títulos, é o treinador que mais títulos conquistou neste clube”, lembrou o presidente das águias.

Depois, questionado sobre o que falhou no planeamento da época para que o Benfica esteja, neste momento, a 16 pontos do líder do campeonato, com um jogo a menos, Vieira garantiu que hoje faria tudo “igual” e assegurou que Jesus deu o seu aval a todas as contratações.

“Tenho o documento que ele me entregou dos jogadores que pretendia e não houve um jogador que ele não dissesse que sim. Foi o plano possível de fazer-se com as exigências do Jorge Jesus e daquilo que ele entendia”, garantiu.

Lutar pelo título “até ser matematicamente possível”

Ainda assim, Vieira admitiu que as aquisições feitas pelo Benfica antes do arranque do campeonato criaram “uma expectativa” nos adeptos e nas pessoas ligadas ao Benfica, mas garantiu que a crise de resultados não se deve à qualidade das contratações.

“Há aqui jogadores que precisam de um período de adaptação. Se calhar, foi um dos fatores que não ponderámos, é um dos erros que fizemos. Não é pela falta de qualidade deles. São todos internacionais”, sublinhou.

Os jogadores, de resto, estão “conscientes dos objetivos”, que “estão bem definidos”, e neste aspeto o presidente mostrou-se alinhado com Jesus, ao garantir que “ninguém baixou os braços” e que o Benfica vai lutar pelo título “até ser matematicamente possível”.

“Caso isso não suceda, o segundo lugar será um grande objetivo para irmos à Liga dos Campeões, e temos uma Taça de Portugal para conquistar. Já ganhámos um campeonato com oito pontos de atraso, já perdemos um com oito pontos de avanço. Temos de continuar a acreditar que é possível, mas é preciso que estejamos todos unidos nesse objetivo”, lembrou.

Nacional propôs empréstimo a troco de adiar jogo

Luís Filipe Vieira mostrou-se ainda crítico do “estado do futebol português”, momento em que revelou a exigência do seu homólogo do Nacional, em janeiro.

“Uma coisa que é revoltante, o presidente do Nacional, telefono para ele, que me diz que não pode adiar o jogo, mas se eu lhe emprestasse o Diogo Gonçalves já adiava o jogo. Veja o estado em que andamos no futebol”, disparou o presidente do Benfica.

Vieira acusou ainda os madeirenses de falta de solidariedade, quando os encarnados já foram “muito solidários mesmo” com o clube presidido por Rui Alves, num momento em que a equipa atravessava uma grave crise sanitária, que infetou mais de 27 pessoas da estrutura.

Uma crise que, de resto, levou Luís Filipe Vieira a levantar suspeitas em relação ao momento em que eclodiu, após a visita ao Estádio do Dragão para visitar o FC Porto, com “27 pessoas infetadas em oito ou nove dias”, o que considerou “impensável”.

Por esse motivo, Vieira ameaçou mesmo que, na próxima época, se não houver imunidade de grupo para a covid-19 em Portugal, o Benfica não voltará a equipar-se nos balneários dos estádios que visitar.

“O Benfica sai do hotel equipado, vai para o estádio, entra em campo, acaba o jogo e sai. Até a palestra ao intervalo é no relvado. Acaba o jogo e vai direto para o hotel, jantamos lá ou ficamos lá. Nunca mais! É impensável, para mim, 27 pessoas infetadas em oito ou nove dias”, justificou.

“Nada foi normal no Benfica durante o mês de janeiro”

O presidente lembrou ainda que o mês de janeiro “fustigou” a equipa, devido ao surto de covid-19, e pediu aos benfiquistas para não “minimizarem” o que aconteceu.

“É grave se o fizerem porque é sinal de que as pessoas não sabem ou não foram infetadas com a covid-19. Infelizmente tive, sei que é penoso. Quando estamos negativo pensamos que já está resolvido, mas não está. Se não está resolvido para mim, também não está para um atleta. É importante as pessoas terem essa sensibilidade“, declarou Vieira.

“Ouvia pessoas minhas amigas dizerem que a equipa só corria uma parte. As pessoas têm de entender que os jogadores que corriam normalmente entre nove e 12 quilómetros, não corram mais de sete quilómetros”, continuou.

“Eu sei o que se passa comigo. Sou um ser humano e o jogador também é um ser humano, mas a sua profissão é correr, todos os dias, e quando não pode, não pode. Isto não é uma desculpa, é uma realidade.”

“Tirando os lares, nunca li nem vi, 27 casos num curto espaço de cinco ou seis dias. Esta é que é a grande realidade. E no nosso caso até aconteceu o nosso treinador estar fora do Benfica durante duas semanas, sem poder dar treinos”, lembrou.

Independentemente disso ter acontecido, Vieira afirmou que “não faltou profissionalismo, compromisso ou dedicação”, que “ninguém abandonou o barco” e que, neste momento, a “tal sombra já está aliviada”.

“Já temos jogadores que correm os tais 10 quilómetros e ainda mais, conforme o Jorge teve oportunidade de divulgar. Aliás, temos um jogador, o Weigl, que já correu 13 quilómetros. A situação vai normalizar. Vejo pelo meu caso: estou há perto de um mês negativo, mas não consigo subir um lanço de escadas sem parar. O médico disse-me que vai demorar dois, três meses. Vamos ver, dizem-me que tenho de ter calma”, lamentou.

Vieira propõe reunião no final da época

Por estes e outros motivos, nomeadamente as arbitragens, que voltaram e estar no foco do seu discurso, o presidente benfiquista já entregou “uma carta ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF)”, Fernando Gomes, para que, no final desta época, se reúnam “os Estados Gerais do Futebol”.

“Logo que acabe o campeonato, onde estejam o secretário de Estado [da Juventude e do Desporto], o presidente da FPF, o presidente da Liga, Sindicato dos Jogadores, associação dos árbitros, dos treinadores, temos de dar a volta a isto, porque as coisas não estão bem”, apontou.

Na mira de Luís Filipe Vieira estava o VAR, que levou “todos a pensar que acabou a contestação à arbitragem” quando foi implementado em Portugal, mas, “pelo contrário, complicou”.

“Há lances que já tive oportunidade de ir ao VAR ver e é impossível como é que aquela pessoa não viu os penáltis. Estou a falar do jogo com o Moreirense. Não viu porquê? Alguma coisa está mal“, questionou Luís Filipe Vieira.

ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Em Portugal há uma moda que eu acho preocupante. Perante os problemas, vem o responsável máximo assumir todas as culpas mas sem agir em conformidade. Na política recentemente também tem sido assim. Agora na bola. Assume-se a culpa e pronto. E dar corda aos sapatinhos?! Não seria a ação lógica perante essa assunção de culpa?

  2. Pelos vistos é responsável em muitas falcatruas que vêm a público, mas tem a sorte da justiça neste país sofrer de surdez ou então tem base na “catedral”.

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