Prova de “reconhecimento”. Rússia e China conquistam lugar no órgão de direitos humanos da ONU

Stefano Maffei / Flickr

Organização das Nações Unidas

China, Rússia e Cuba conquistaram esta terça-feira um lugar no principal órgão de direitos humanos das Nações Unidas, apesar da oposição de grupos ativistas, devido aos antecedentes destes países em situações relacionadas com os direitos humanos.

A Rússia e Cuba concorriam ao lugar sem oposição, ao contrário da China e da Arábia Saudita, que lutavam juntamente com mais três países por um assento naquele órgão. Nesta “corrida” aos lugares, o Paquistão recebeu 169 votos, o Uzbequistão 164, o Nepal 150, a China 139 e a Arábia Saudita apenas 90 votos.

Apesar dos planos de reforma anunciados pela Arábia Saudita, a Human Rights Watch (HRW) e outros movimentos opuseram-se fortemente à sua candidatura, defendendo que o país do Médio Oriente continua a visar defensores dos direitos humanos, dissidentes e ativistas dos direitos das mulheres.



Os movimentos realçaram ainda que a Arábia Saudita demonstrou pouca responsabilidade por abusos anteriores, como o assassinato do colunista do jornal norte-americano Washington Post e o crítico saudita Jamal Khashoggi no consulado saudita, em Istambul, há dois anos.

De acordo com as regras do Conselho de Direitos Humanos, os lugares são atribuídos a regiões de forma a garantir uma representação geográfica. À exceção da região Ásia-Pacífico, a eleição de 15 dos 47 membros para o Conselho de Direitos Humanos foi decidida com antecedência.

Quatro países conquistaram quatro assentos em África: Costa do Marfim, Malawi, Gabão e Senegal. A Rússia e a Ucrânia conquistaram as duas cadeiras do leste europeu. No grupo da América Latina e Caraíbas, México, Cuba e Bolívia conquistaram as três vagas em aberto, enquanto o Reino Unido e a França conquistaram os dois lugares para o grupo da Europa Ocidental e Outros.

Louis Charbonneau, diretor da ONU para a HRW, destacou que é “preciso que os Estados tenham escolha. Eles não querem competição”. Numa conferência de imprensa que decorreu na semana passada, Charbonneau acrescentou que “quando os estados não têm escolha, os piores candidatos facilmente encontram o seu caminho para o Conselho”.

Também na semana passada, uma coligação de grupos de direitos humanos da Europa, Estados Unidos e Canadá pediu aos Estados membros da ONU para que se opusessem à eleição da China, Rússia, Arábia Saudita, Cuba, Paquistão e Uzbequistão, lembrando que os seus antecedentes no que diz respeito aos direitos humanos os tornavam “não qualificados”.

O Conselho de Direitos Humanos, que tem sede em Genebra, pode apontar abusos e tem monitores especiais para vigiar determinados países e questões. Também analisa periodicamente os direitos humanos em todos os países membros da ONU.

Criado em 2006 para substituir uma comissão desacreditada por causa do histórico relacionado com direitos humanos de alguns dos membros, o novo conselho enfrentou desde cedo críticas semelhantes.

Os EUA anunciaram a sua retirada do Conselho em junho de 2018, acusando o órgão de ser um fórum de hipocrisia sobre os direitos humanos e ainda por o considerar anti-Israel.

China diz que reeleição é prova de reconhecimento”

A China já reagiu à sua reeleição para o Conselho dos Direitos Humanos da ONU, apesar da oposição dos principais Estados democráticos e várias organizações.

“Esta reeleição reflete o alto reconhecimento da comunidade internacional pelo desenvolvimento e progresso da causa dos Direitos Humanos na China e a participação da China na governação global dos direitos humanos”, disse Zhao Lijian, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em conferência de imprensa.

Lijian também descartou as críticas do secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, à reeleição, como “muito absurdas” e acusou Washington de interferir nos assuntos internos de outros países usando os Direitos Humanos como pretexto.

Grupos de defesa dos Direitos Humanos criticaram a eleição da China, ao lado da Rússia, Cuba, Paquistão e Nepal, citando as violações dos direitos em Hong Kong, Tibete ou Xinjiang, bem como os ataques a defensores dos Direitos Humanos, jornalistas, advogados ou críticos do governo.

A China foi reeleita com 139 votos, 30% a menos que os 180 obtidos em 2016.

ZAP // Lusa

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2 COMENTÁRIOS

  1. Heheheee… faltou a Coreia do Norte e a Arabia Saudita!…
    Para completar a desgraça, só falta o Daesh, a AlQaeda e o Trump serem laureados com o Nobel da Paz!

  2. Parece que fazem de propósito para arruinar a reputação mundial do Observatório dos Direitos Humanos (HRW) e da própria Organização das Nações Unidas!
    Como é que países como a Rússia do assassino Vladimir Putin e, sobretudo, a China do genocida Xi Jinping, ignóbeis ditadores que não sabem o que é Democracia, Liberdade, nem sequer o que são Direitos Humanos, têm assento precisamente no órgão que os defende e investiga as sua violações, e quando a anterior comissão foi desacreditada e substituída pelo actual Observatório, exactamente por causa de alguns países-membros se apresentarem com um longa, grave e contínua prática de violações desses mesmo direitos???
    A China a defender e a investigar violações dos Direitos Humanos onde? No Tibete invadido, ocupado, colonizado e dizimado? Na Mongólia do Sul, que oprime e reprime, no Turquestão Oriental, onde o povo Uigur é enlatado em campos de concentração, violentado, esterilizado e torturado? Ou em Hong Kong, onde o Partido Comunista chinês violou o acordo assinado de não interferir na sua política e dirigiu a violência das forças de segurança nas manifestações pró-democracia?
    António Guterres pôs raposas a tomarem conta do galinheiro!
    Vergonha alheia!

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